Ciência

A Internet Está a Afogar-se

A subida do nível das águas dos mares põe em risco a delicada rede de cabos e estações elétricas, que controlam a internet.segunda-feira, 30 de julho de 2018

Por Alejandra Borunda
Dentro de 100 anos, a linha costeira da Flórida do Sul poderá assemelhar-se à ponte Six Mile, se o nível das águas dos mares subir nos parâmetros atuais das alterações climáticas.

Quando a internet falha, a vida, tal como a conhecemos, fica em suspenso. Vão-se as fotografias adoráveis de gatinhos e as atualizações de status no Facebook, mas vão-se também os sinais que implicam a mudança dos semáforos de verde para vermelho e o acesso dos médicos ao historial clínico dos pacientes.

Uma vasta rede de infraestruturas físicas suporta as ligações de internet, que influem em quase todos os aspetos da nossa vida. Delicados cabos de fibra ótica, estações de transferência massiva de dados e centrais de energia elétrica formam, literalmente, uma manta de retalhos do básico, que facilita o fluxo de zeros e uns.

Uma investigação recente revela, contudo, que grande parte dessa infraestrutura assenta exatamente sobre o curso das águas dos mares, cujos níveis tendem a subir.

Os cientistas traçaram uma planta, que identifica todos os fios e ligações que compõem a infraestrutura da internet nos Estados Unidos e sobrepuseram-na sobre os mapas que identificam a subida prevista do nível das águas dos mares. O que descobriram foi inquietante. Dentro de 15 anos, é provável que milhares de quilómetros de cabos de fibra ótica e centenas de peças de outras infraestruturas críticas estejam alagados por força da invasão das águas do oceano. E, embora parte dessa infraestrutura possa resistir à água, apenas uma ínfima extensão foi concebida para se manter, em permanência, debaixo de água.

“Grande parte da infraestrutura que foi erguida situa-se perto da costa, pelo que basta que o nível das águas suba alguns centímetros para que essa infraestrutura fique submersa”, afirma o coautor do estudo Paul Barford, um cientista informático da Universidade de Wisconsin, em Madison. “A instalação foi feita há 20 e tal anos, quando ainda ninguém se preocupava com a subida do nível das águas do mar”.

“Este será um problema sério”, afirma Rae Zimmerman, um especialista em adaptação urbana às alterações climáticas da Universidade de Nova Iorque. Vastas extensões da infraestrutura da internet “ficarão em breve submersas, a menos que sejam deslocadas rapidamente”.

EMARANHADO DE FIOS

A estrutura física da internet foi sendo desenvolvida, de certo modo, ao sabor do acaso ao longo das últimas décadas, à medida que a procura pela conetividade disparou, com a instalação oportunista de linhas de comunicações paralelas a cabos de energia, estradas e outras grandes infraestruturas. Mas as operadoras de telecomunicações, que detêm essas linhas, bem como as empresas que fornecem energia e as organizações que gerem as estações de transferência de dados e outras componentes, escusam-se a revelar as localizações exatas.

Barford, uma das autoras do estudo, passou os últimos anos a extrair cuidadosamente informação da internet, retendo todos os fragmentos de informação pública que encontrava sobre as localizações daquelas componentes e elaborando um mapa dos resultados. Barford e o aluno universitário Ramakrishnan Durairajan descobriram que muitas destas componentes críticas se situavam perto da costa.

Quando Carol Barford, uma cientista climática da Universidade de Wisconsin, em Madison, observou os mapas, descobriu outra coisa: risco. Barford sabia que a subida do nível das águas dos mares tinha sido constante nos últimos 100 anos, a par do aquecimento climático do planeta, afetando várias zonas costeiras.

Quando os três investigadores sobrepuseram a infraestrutura física da internet sobre os mapas das zonas onde se prevê a subida do nível das águas dos mares, foram surpreendidos por uma inquietante justaposição: vastas extensões de infraestrutura crítica situam-se em lugares que estarão, previsivelmente, submersos nos próximos 15 anos.

Prevê-se que o nível das águas em cidades como Nova Iorque, Miami e Seattle suba cerca de 30 centímetros em 2030, bem dentro do horizonte temporal da hipoteca de uma casa ou da elaboração de projetos de infraestruturas de grande envergadura. Segundo os investigadores, uma subida de 30 centímetros do nível das águas nestas cidades significa que cerca de 20 por cento da infraestrutura nacional de base da internet poderá ficar submersa.

“As previsões dos próximos 15 anos estão, por assim dizer, fechadas”, afirma Carol Barford. E é tal a inércia no âmbito do sistema climático, que já não há muito que os humanos possam fazer para impedir a subida do nível das águas dos mares dentro desta janela temporal.

ESTÁ TUDO INTERLIGADO

Cientistas, urbanistas e empresas sabem desde há muito que a subida do nível das águas dos mares ameaça infraestruturas físicas, tais como estradas, metropolitano, redes de descarga de esgotos e linhas de energia elétrica. Mas, até ao momento, ninguém tinha analisado especificamente a altura até à qual a subida do nível das águas dos mares poderá afetar a expressão física da internet.

“Tendo em conta que, hoje em dia, está tudo interligado, proteger a internet é crucial”, afirma Mikhail Chester, director do Laboratório de Infraestruturas Resilientes da Universidade do Arizona. Até mesmo situações de menor impacto, como temporais que afetam as ligações de internet durante alguns dias, podem afetar aquilo que damos por garantido, desde os semáforos aos padrões de voo.

Este novo estudo “reforça a ideia de que temos de ser verdadeiramente conhecedores de todos estes sistemas, porque vai ser preciso tempo para atualizar as estruturas”, afirma.

Os investigadores não analisaram de que forma a subida do nível das águas decorrente de eventos de curta duração, como tempestades que resultem de furacões, poderá afetar a infraestrutura, mas fizeram recomendações e advertiram os urbanistas para tomarem em consideração ameaças de curta duração, quando ponderarem soluções.

“Vivemos num mundo pensado para um ambiente que já não existe”, afirma Rich Sorkin, cofundador da Intelligence, uma empresa que analisa modelos de risco induzido pelas alterações climáticas. Segundo Sorkin, aceitar a realidade de como será o futuro é a chave para o planear, e estudos como este salientam o quão rápido todos nós temos de nos adaptar.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler