Pode o Riso Ser Herdado? Descubra Como os Genes Definem Aquilo Que Somos.

Em termos genéticos, somos aquilo que temos. Mas um dia talvez possamos programar o nosso futuro genético, e nessa altura a parada será outra.

Friday, July 27, 2018,
Por Simon Worrall
Um investigador manipula laboratorialmente uma amostra genética.
Um investigador manipula laboratorialmente uma amostra genética, com recurso à tecnologia CRISPR/Cas9, em maio de 2018, no Centro Max-Delbrueck de Medicina Molecular, em Berlim.
Fotografia de Gregor Fischer, picture alliance/Getty Images

Porque é que as pessoas são hoje mais altas do que os seus antepassados? Pessoas com olhos azuis e cabelo ruivo são sinónimo de filhos com traços idênticos?  Haverá um gene responsável pela inteligência ou um gene que determine o extermínio em massa? Ou aquilo que somos deve-se ao ambiente familiar no qual crescemos? Estas são algumas das perguntas que Carl Zimmer explora no seu mais recente livro, She Has Her Mother’s Laugh.

Quando a National Geographic conversou com Zimmer na Universidade de Yale, o cientista e escritor explicou por que razão é impossível prever a cor da pele ou do cabelo dos descendentes do príncipe Harry e Meghan Markle, ou como um livro de um geneticista americano fundamentou os programas de extermínio em massa, e ainda por que motivo o ADN do homem de neandertal pode ter efeitos benéficos na nossa saúde.

Quando partilhei com a minha mulher o título do seu livro, e lhe disse que o tema girava em torno da hereditariedade, ela comentou: “Eu fui buscar o riso e a voz da minha mãe aos tempos em que vivemos juntas”. Por isso, Carl, são os genes ou o ambiente, a natureza ou a educação, o que faz de nós aquilo que somos?

Não foi feito até à data nenhum estudo sobre a herança genética do riso. [ri] Mas os investigadores estudaram o comportamento em geral, e a genética, que mostra que existem diferentes tipos de comportamento e aspetos das personalidades das pessoas que são herdados. Tal significa que, se olharmos para a variação de um traço num vasto grupo de pessoas, parte dessa variação deve-se aos genes que herdaram. Os gémeos verdadeiros, por exemplo, tendem a ser mais parecidos nesse determinado traço do que outros irmãos.

Fotografia de CORTESIA DE PENGUIN RANDOM HOUSE, JACKET DESIGN BY PETE GARCEAU, JACKET ART OF GENOME BY SANDRA CULLITON

Mas, surpreender-me-ia, se o riso tivesse sequer 10 por cento de hereditariedade. Os genes herdados por uma pessoa podem ter um papel no riso, assemelhando-se ao dos pais, mas a verdade é que essa pessoa cresceu com eles, ouvi-os rir, e nós somos uma espécie muito dada a imitar. Não há forma de alcançar esse nível de detalhe e afirmar que 10 por cento do riso tem origem genética. Gostaríamos que tal fosse possível.  É por isso que os testes genéticos de consumo são tão populares. De certa, queremos olhar para dentro do nosso ADN e ter uma métrica exata para percebermos a razão por que somos aquilo que somos.

Claro que os nossos genes são extremamente importantes, mas eles não são a única coisa que os nossos pais nos transmitem. Eu diria que é necessário ver muito além dos genes, quando se tenta compreender o panorama completo da hereditariedade. Por exemplo, nós, humanos, somos animais culturais e a cultura funciona como uma forma própria de hereditariedade.  Provavelmente, já se apercebeu de que os seus filhos ou netos são muito mais ágeis a usar o smartphone do que a sua geração. Eles podem idealizar um novo conceito de telemóvel, que, a manter-se, passarão às gerações futuras.

Gerou-se grande ruído em torno do casamento do príncipe Harry, de ascendência germano-grega, e Meghan Markle, cujos antepassados da mãe foram escravos africanos. Existe alguma forma de prever os traços dos futuros filhos do casal?

Temos tendência para nos fixarmos nas diferenças entre as pessoas, por isso há um enorme fascínio em torno do casamento de Harry e Meghan ou na ascendência africana desta jovem americana.  Mas, se nos debruçarmos sobre o conjunto completo do ADN de ambos, chegaremos à conclusão de que são praticamente idênticos. Existem vastas extensões, com diferenças mínimas entre os dois elementos do casal. Mas essas diferenças genéticas mínimas aplicam-se a Harry e a qualquer outra pessoa no Reino Unido. A espécie humana é razoavelmente uniforme no plano genético.

A fisionomia das pessoas depende de um vasto conjunto de genes diferentes. A cor dos olhos, do cabelo e da pele, todas estas características são determinadas por conjuntos de genes próprios de cada um. Cada pessoa tem duas cópias de cada um desses genes, e, em alguns casos são necessárias duas cópias da mesma versão para ter cabelo ruivo, por exemplo.

Em 2017, foi descoberto o cruzamento entre neandertais e humanos durante o período em que coexistiram. Voltando ao passado, explique-nos de que forma os genes dos neandertais podem ajudar-nos a combater as doenças.

Os neandertais existiram provavelmente durante várias centenas de milhares de anos na Europa e na Ásia. O seu último registo fóssil data de há 40 000 anos. A nossa própria espécie evoluiu em África, e os fósseis mais antigos do Homo sapiens datam de há 30 000 anos. Acredita-se que, no início da nossa espécie, tenhamos avançado para território do homem de neandertal, favorecendo o cruzamento entre ambas espécies. Em alguns casos, o ADN do homem moderno terminou nos neandertais e o ADN dos neandertais terminou no nosso próprio acervo genético.

A percentagem de ADN do homem de neandertal que as pessoas podem ter é mínima. Mas, considerando que existem milhões de pessoas com ADN neandertal, pode-se dizer que há muito desse ADN distribuído pela Terra hoje em dia. [ri] Basicamente, é possível reconstruir hoje o genoma do homem de neandertal a partir de todos os fragmentos que flutuam no nosso interior.

No início, os genes dos neandertais seriam, muito provavelmente, inofensivos, porque ainda não estavam adaptados a cooperar com os nossos próprios genes. Isto pode ter tido repercussões, refletindo-se, por exemplo, na nossa saúde, com o aparecimento de doenças, ou criando entraves à reprodução. Parece, no entanto, que alguns genes dos neandertais se mantiveram na espécie humana e se multiplicaram, porque eram benéficos. Uma possibilidade é que existam genes que ajudem o nosso sistema imunitário. Talvez o homem de neandertal tenha evoluído para resistir a certos tipos de patogenias, e as pessoas que os herdaram tivessem tendência a sobreviver mais do que as restantes.

Quem sabe se no futuro, ao fazer exames clínicos, o médico lhe diga: “Infelizmente, o senhor tem esta variante neandertal, que supõe um maior risco de vir a ter níveis de colesterol elevados”. Os cientistas ainda estão a tentar perceber quais são exatamente as repercussões no âmbito da saúde de todas estas variantes. A maioria delas são um mistério.

Muitos leitores ficarão perplexos e consternados por saber que o programa racial de Hitler teve raízes na América. Fale-nos sobre a Academia de Vineland e do caso assustador de Deborah Kallikak.

No sul de Nova Jersey, havia uma escola construída no final do século XIX chamada Academia de Vineland, que se chamara anteriormente Centro de Nova Jersey para a Educação e Cuidados de Crianças com Debilidades Mentais. Em 1906, foi contratado um psicólogo chamado Henry Goddard, que queria encontrar um método científico que lhe permitisse medir o intelecto dos estudantes da instituição. Goddard também estava a descobrir a genética. A investigação de Gregor Mendel começava a ter eco no seio da comunidade científica, e muitos geneticistas americanos, em particular, acreditavam que esta era explicação pela qual algumas pessoas eram inteligentes e outras não, ou a razão por que algumas pessoas cometiam crimes e outras não.

Gradualmente, começou a ganhar forma nos Estados Unidos o pensamento de que os indivíduos portadores de maus genes deveriam ser impedidos de ter filhos. Henry Goddard usou as crianças da instituição como prova da sua teoria. O psicólogo americano investigou a genealogia das crianças e afirmou ser evidente que a herança genética passava de geração em geração, e tal era prova suficiente de que a eugenesia era o caminho certo a seguir.

Goddard publicou um livro, sob o título The Kallikak Family, sobre uma aluna da escola chamada Emma Wolverton, a quem atribuiu o nome fictício de Deborah Kallikak. O livro afirmava mostrar como a criminalidade e a debilidade mental se transmitiam ao longo de gerações, pelo que era essencial impedir a reprodução de indivíduos considerados inaptos, ou as consequências seriam nefastas para o futuro dos Estados Unidos. Goddard também defendia que as mulheres tidas inaptas deveriam ser esterilizadas para impedir que gerassem crianças, também elas com debilidades.  Com a ascensão ao poder dos nazis, os alemães apoiaram-se nos eugenistas americanos, e a família Kallikak foi usada como prova de que os indivíduos inaptos deveriam ser impedidos de ter descendência. Os nazis foram muito além da esterilização e começaram a exterminar pessoas, apoiados neste tipo de argumentos.

A tese de Goddard revelou-se completamente falsa. O psicólogo e eugenista apoiava-se no caso de um antepassado distante de Deborah Kallikak, um soldado da Guerra da Revolução, que tivera uma aventura com uma rapariga com debilidades mentais e com a qual teve um filho, tendo dado origem a uma linhagem de pessoas também elas com debilidades mentais, incluindo a própria Deborah. Este soldado casou-se posteriormente com uma mulher respeitável e, durante gerações, os seus filhos foram todos membros ativos da sociedade. Goddard mostrava as genealogias destas famílias, onde, de um lado, se assinalavam com círculos e quadrados negros os indivíduos com debilidades mentais ou que se dedicavam à atividade criminosa, e, do outro lado, sem qualquer marca, apresentavam-se os indivíduos nobres e admiráveis. Só décadas mais tarde é que um grupo de investigadores recuperou o tema e analisou os documentos oficiais, tendo reconstituído a verdadeira história desta família. E não se parecia em nada com a teoria defendida por Goddard. Provou-se que toda a genealogia recriada pelo psicólogo era uma fraude.

O meu filho ultrapassa-me largamente com os seus 1,90 metros de altura. Mas a ciência sobre a forma como a altura é herdada é extraordinariamente complexa, não é?

A altura parece ser uma característica simples, que a comunidade científica já deveria ter compreendido há algum tempo atrás. É apenas um número que obtemos com recurso a uma régua. [ri] No entanto, os cientistas têm tentado decifrar o quebra-cabeças da altura ao longo de mais de 150 anos e ainda estão muito longe de o resolver. Sabemos que a altura é uma característica fortemente herdada, o que significa que, numa população, grande parte das diferenças cingem-se aos genes. Mas isso não significa que basta um gene para determinar a nossa altura. Os cientistas já identificaram mais de 3000 genes no ADN, que influem na altura de um indivíduo, e acredita-se que cheguem, muito provavelmente, aos 10 000 ou mais.

Tal deve-se, em parte, ao facto da altura depender de múltiplos fatores, como a forma como absorvemos energia ou como transformamos essa energia em novas células. Por isso, quando entramos num campo tão simples como a altura, começamo-nos a aperceber: “Oh, meu Deus!” Esta história da hereditariedade é fascinante na sua complexidade. A altura do seu filho pode estar relacionada com os genes que ele herdou, mas também pode ter a ver com o tempo e o lugar onde nasceu e cresceu. O mundo inteiro tornou-se mais alto! [ri]

Nos últimos anos, um fenómeno conhecido por hereditariedade epigenética fez as parangonas da imprensa. Explique-nos do que se trata e de que forma a imprensa sensacionalista tentou fazer uso deste fenómeno para explicar o crime na América.

Nós herdamos genes, mas o seu comportamento depende não só da sequência do nosso ADN, mas também das moléculas em seu redor, que os ligam e desligam. O estudo destas matérias toma a designação de epigenética. Existem algumas evidências fascinantes de que, pelo menos em algumas espécies, a epigenética passa de geração em geração, muito à semelhança dos genes. Por exemplo, se uma planta passou por períodos de seca, pode alterar a sua epigenética para se tornar mais tolerante à seca, um traço que poderá passar à sua descendência.

Infelizmente, na cultura popular a epigenética foi muito além das evidências. Muitas pessoas afirmam que um indivíduo pode mudar o seu próprio destino ao assumir o controlo da sua epigenética. Até fazer aulas de ioga epigenético, se quiser. [ri] Algumas pessoas afirmam que episódios traumáticos podem mudar a epigenética dos indivíduos, que é depois transmitida aos filhos, e poderá explicar, supostamente, os problemas em termos de crime e por aí fora. Isto é perigoso, porque se começa a usar explicações biológicas oportunas para justificar problemas sociais complexos.

Um geneticista afirmou em 2015: “Estamos perto de poder alterar a hereditariedade humana”. Fale-nos sobre a CRISPR e os dilemas éticos que podem surgir por via da ingerência humana nos mecanismos mais complexos da natureza.

A CRISPR é uma ferramenta científica que entrou em cena nos últimos anos e que se revelou muito útil para editar o ADN. Alguns cientistas usaram-na inclusive para alterar o ADN no interior de embriões humanos, em estádios iniciais de desenvolvimento. Ganha forma a possibilidade de podermos programar alterações genéticas nas crianças do futuro, e essas alterações poderão ser herdadas pelos seus descendentes. Talvez seja uma possibilidade a considerar para salvaguardar as pessoas com predisposição genética para desenvolver determinadas doenças, mas há todo um outro conjunto de possibilidades que se desenham no horizonte.

Queremos reduzir as possibilidades das crianças poderem contrair doenças comuns, ou exacerbá-las de alguma forma, fazendo com que as futuras gerações não tenham uma palavra a dizer na matéria, enquanto nós temos? Há uma série de questões éticas que se levantam ao nível da equidade, por exemplo. Será justo que os indivíduos, com poder económico, possam alterar as gerações futuras das respetivas famílias? Estas são apenas algumas das questões que se anunciam num futuro muito próximo e que farão parte da nossa realidade muito em breve.

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeograhic.com.

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