Porque é Que Ainda Não é Possível Escrever Mensagens Com Fogo de Artifício?

Smileys e corações iluminam os céus nas celebrações do 4 de julho nos Estados Unidos. Descubra a razão pela qual ainda não é possível escrever o seu nome no firmamento.segunda-feira, 9 de julho de 2018

Atualmente, parece que não existem limites para a diversidade de formas que o fogo de artifício pode reproduzir. Estrelas, corações, círculos e até mesmo smileys iluminam os céus durante uma qualquer celebração um pouco por todo o mundo. Mas há uma forma que dificilmente verá nas celebrações de 4 de julho: palavras.

Embora algumas empresas tenham conseguido reproduzir acrónimos com poucas letras e em bloco, desenhar palavras com fogo de artifício continua a ser um quebra-cabeças da pirotecnia e é tudo uma questão de orientação.

Para criar um smiley, as empresas preenchem o cartucho de um foguete com pequenas esferas explosivas, dispondo-as na forma pretendida como as bolinhas multicolores da Beados. Depois de aceso o pavio, o foguete entra em combustão, eleva-se em altura e o cartucho rebenta, lançando pontos de luz numa forma definida previamente, diz Phil Grucci, presidente e diretor criativo da Fireworks by Grucci.

Quando atinge a altura prevista, o cartucho gira sobre si mesmo e, até ao momento da explosão, não há como saber que contornos adquire a forma. “Por vezes, o smiley sai perfeito e olha diretamente para nós”, afirma Grucci. “Outras vezes, pode surgir de cabeça para baixo.” Ou, ainda pior, pode ter uma rotação de 90 graus relativamente ao público e tudo o que se vê é uma linha reta.

Mas se a orientação correta dos smileys não representa um problema de maior, já que as formas facilmente passam por estrelas, o mesmo não se aplica às letras. Um M pode transformar-se num W ou num , a letra do alfabeto grego, enquanto um P pode passar por um b ou até mesmo um d.

Assim sendo, será que podemos esperar algum dia escrever mensagens luminosas no céu? Talvez, segundo alguns engenheiros especializados em pirotecnia.

TRABALHAR AS PALAVRAS

A química das explosões luminosas não mudou muito desde o início do século XIX, quando o fogo de artifício, tal como o conhecemos hoje, adquiriu um arco-íris de cores, afirma John Conkling, um professor emérito de Química na Universidade de Washington e antigo diretor-executivo da Associação Americana de Pirotecnia. O estrôncio produz explosões de cor vermelha, o bário em verde e o cobre brilha na cor azul.

Atualmente, os progressos na pirotecnia fazem-se sentir no plano tecnológico. Controlos eletrónicos precisos iluminam os céus de formas complexas e fascinantes e é neles que reside a esperança para as letras pirotécnicas.

Alguns técnicos tentaram tornar o cartucho mais pesado para que girasse de forma controlada, mas o sucesso da experiência cingiu-se a umas quantas tentativas, diz Conkling. Hoje, Grucci e a sua empresa trabalham para encontrar uma solução, com recurso a novas tecnologias informáticas que aplicam à pirotecnia. O par de inovações, conhecidas por Pixelburst e Sky Etching, são o mais perto que alguém já chegou de sarrabiscar palavras no céu.  

A Pixelburst projeta individualmente cada ponto de luz, na forma de uma quadrícula, para criar uma imagem no céu, à semelhança de um pixel num ecrã de computador. A empresa pode controlar com precisão a velocidade à qual é lançado cada cartucho, bem como o momento da explosão, definido ao milésimo de segundo, com o auxílio de um microchip integrado. Isto significa que a equipa pode calcular a altura exata a que o ponto de luz cintila no céu e assim controlar os detalhes da imagem ou da palavra.

Em 2014, Grucci e a sua equipa usaram a tecnologia Pixelburst para recriar a bandeira dos Estados Unidos, com 183 metros de altura e 274 metros de comprimento, sobre o Fort McHenry, no estado de Maryland, tendo conquistado o recorde mundial do Guiness pela “maior imagem pirotécnica” alcançada até à data. A empresa de Grucci também replicou com sucesso as siglas USA e UAE, com recurso ao fogo de artifício.

“Grucci conseguiu um timing espetacular”, diz Conkling, que conhece bem o trabalho desenvolvido pela equipa pirotécnica, ainda que não tenha qualquer relação com a empresa de Grucci. “Ser capaz de recriar todas aquelas versões da bandeira norte-americana no céu é absolutamente extraordinário.”

Relativamente à Sky Etching, a empresa tem uma estratégia ligeiramente diferente. Eles criaram uma estrutura tubular que é fixada ao solo, na qual é introduzido um conjunto preciso de foguetes que replica a forma que se pretende desenhar no céu. Os foguetes são lançados posteriormente a partir dos tubos, produzindo uma constelação de estrelas cintilantes numa forma pré-definida. Segundo Grucci, a equipa usou este método para desenhar acrónimos ou nomes em blocos de letras, controlando o respetivo tamanho ao mudar o ângulo dos foguetes a partir do solo.

UM FUTURO FANTÁSTICO

Embora a tecnologia seja o caminho a seguir, por enquanto ainda não é possível desejar um feliz aniversário estrondoso.

“Conseguimos escrever USA no céu, porque é uma combinação muito simples de letras”, afirma Grucci. Mas palavras ou expressões mais extensas ou até mesmo a representação de letras minúsculas são, por enquanto, difíceis de replicar.

A empresa trabalha para aperfeiçoar a tecnologia ao serviço da pirotecnia. A balística pode, por exemplo, atenuar os efeitos do vento sobre os pontos luminosos e evitar que partes das letras sejam desviadas das posições previstas no céu. Grucci compara o desafio ao lançamento de uma bola de beisebol e uma bola Wiffle. Uma bola de beisebol mantém a trajetória, exceto quando atingida por rajadas de vento, enquanto que uma bola Wiffle é desviada da sua rota pela mais leve das brisas. Este facto tem de ser ponderado em função da premissa de que o acréscimo de peso influi na velocidade de lançamento do foguete e, por conseguinte, na disposição das palavras no firmamento.

Segundo Grucci, vale a pena tentar procurar o equilíbrio. Embora os drones consigam hoje reproduzir palavras com sucesso, o fogo de artifício tem um encanto de que estes aparelhos carecem. Embora reconheça que a sua opinião seja um tanto tendenciosa, para Grucci, um espetáculo de fogo de artifício desperta um tipo de emoção “completamente diferente”.

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