Um Milhão de Triliões de Toneladas de Diamantes Escondem-se na Profundidade da Terra

Segundo as últimas avaliações, acredita-se que as gemas de diamantes sejam ainda mais comuns do que se supunha inicialmente.quinta-feira, 26 de julho de 2018

Um milhão de triliões de toneladas de diamantes podem esconder-se por debaixo dos seus pés. Mas antes que agarre na sua capa de supervilão e se apodere do martelo pneumático mais à mão, aqui fica um aviso:  a cerca de 160 quilómetros de profundidade, estas riquezas estão completamente fora de alcance.

Os cientistas encontraram uma quantidade assombrosa de gemas cintilantes, usando ondas sísmicas que se propagam na Terra, para analisar a composição de uma determinada camada planetária. As conclusões dessa análise foram publicadas recentemente na revista Geochemistry, Geophysics, Geosystems e revelam que o nosso planeta contém provavelmente mil vezes mais diamantes do que os investigadores supunham.

Entidades como a United States Geological Survey usam um conjunto de instrumentos de precisão, denominados sismómetros, em todo o mundo para monitorizar cada tremor e cada metro quadrado do nosso planeta. Esta informação pode ajudar não só os cientistas a compreender os tremores do globo, como também pode auxiliar os investigadores a recriar imagens das entranhas da Terra. A dureza, a temperatura, a densidade e a composição das rochas todos estes elementos afetam a forma como as ondas se propagam no interior da Terra, pelo que o estudo de pequenos abalos poderá permitir aos investigadores conhecer o que  se esconde no seu interior, sem que seja necessário um mega-martelo pneumático.

No entanto, ao longo dos anos, os investigadores repararam num elemento estranho. A cerca de 160 quilómetros abaixo da superfície, as ondas sísmicas viajam a velocidades superiores às esperadas. Esta região encerra aquilo que é conhecido por raízes cratónicas, montanhas invertidas cobertas por “um manto frio, estável e rígido, que serve de suporte aos continentes situados no plano superior”, afirma Joshua Garber, um investigador pós-doutorado da Universidade de Penn State e autor do estudo.

As rochas cratónicas são notavelmente antigas, tendo-se formado e estabilizado nos primeiros dois mil milhões de anos dos quatro mil milhões e meio de anos da história da Terra. Os investigadores obtiveram alguns indícios sobre a sua composição através de raras erupções vulcânicas, que expeliram à superfície grandes volumes de magma, transportando fragmentos de rocha antiga. Mas a composição exata das raízes cratónicas e a razão pela qual as ondas as atravessam a grande velocidade foram um mistério durante muito tempo. Por exemplo, os cientistas descobriram recentemente um tipo de mineral desconhecido anteriormente num diamante encontrado a grande profundidade.

CIÊNCIA CINTILANTE

No novo estudo, os investigadores usaram dados sísmicos para estudar diferentes modelos, que estimulam o rumor das ondas ao propagarem-se pela Terra. Consideraram depois a composição rochosa, a flutuabilidade e inclusive o eletromagnetismo de vários materiais possíveis para obter a composição suposta das rochas capazes de influenciar a velocidade das ondas observadas.

"Contrariamente aos estudos anteriores, verificámos que o peridotito, o principal tipo de rocha no manto terrestre, não serve para explicar estas velocidades”, afirma Garber. "É necessário um material com maior dureza.”

A resposta, ei-la: diamantes, muitos diamantes.

Combinado com uma ponta de rocha da crusta oceânica, designada por eclogito, mais de um milhão de triliões — um de 24 zeros— de toneladas de diamantes escondem-se no interior da Terra, estimam os investigadores. Para ser mais exato, esta é apenas uma pequena percentagem do total de rochas da Terra, realça Garber. Por volume, cerca de dois por cento das raízes cratónicas são constituídas por diamantes.

Os investigadores sabem desde há muito que uma quantidade massiva de carbono circula sob a crusta terrestre, como por exemplo o dióxido de carbono e minerais ricos em carbono, como a grafite, a calcite e o diamante. E embora estas gemas cintilantes possam ser muito procuradas por joalheiros do mundo inteiro e atinjam valores exorbitantes, do ponto de vista geológico, elas não são propriamente raras.

“Foi uma surpresa, contudo não é inédito”, afirma Garber sobre a mais recente estimativa de diamantes.

Ainda assim, um milhão de triliões de diamantes é muito brilho. “Isto é, sem dúvida, algo que mexe com a nossa imaginação”, diz Maureen Long, uma sismóloga da Universidade de Yale, que não participou nos trabalhos.

CAVAR A FUNDO

Long refere que o estudo é “um resultado entusiasmante e harmonioso em vertentes diferentes” e acrescenta que a investigação foi conduzida com rigor, tendo sido considerada a influência de vários fatores.

Mas poderá não ser a última palavra sobre o esconderijo dos diamantes. “Pessoalmente, encaro estas conclusões com alguma reserva”, afirma Suzan van der Lee, uma sismóloga da Universidade de Northwestern , que não esteve envolvida no estudo. Embora elogie o rigor do trabalho, existem outros modelos que ainda não foram testados e que podem conduzir a um resultado diferente.

Por agora, tanto Long, como van der Lee concordam que o estudo é um passo na direção certa, uma vez que foi desenvolvido por um vasto grupo de colaboradores, com diferentes áreas de formação e competências. Conhecido também por Instituto Cooperativo para a Investigação Dinâmica da Terra, este grupo de trabalho reuniu durante um mês inteiro toda a espécie de cientistas para obter resultados fidedignos, com o maior rigor possível.

Mas subsiste ainda uma pergunta importante: conseguirão os humanos alcançar um dia estes diamantes? É pouco provável, diz Garber. “Pelo menos, não no calendário dos humanos”, acrescenta. Até agora, mesmo com recurso a tecnologia de vanguarda, os humanos não conseguiram escavar mais do que 12 quilómetros de profundidade, pelo que perfurar mais de uma centena de quilómetros seria certamente um desafio à altura de um supervilão.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês em National Geographic.com

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