Assim Dormem os Exploradores em Lugares Extremos

Seja no cimo das grandes falésias de Yosemite ou nas grutas da Malásia, os aventureiros devem aprender a desligar-se do mundo e a dormir uma sesta.segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O ser humano precisa de dormir. O nosso corpo não quer saber o quanto estamos ocupados, preocupados ou desconfortáveis. A dada altura, acabaremos por sucumbir. Mas como é que alguém consegue dormir empoleirado numa elevação rochosa a milhares de metros do solo ou apertado na proa de uma embarcação que sulca águas agitadas?

Surpreendentemente, estes exploradores, fotógrafos e aventureiros encontram formas de descansar.

Os filósofos europeus descreviam o sono como um estado liminar, um momento em que o sistema sensorial de uma pessoa, que noutras circunstâncias estaria ativo, ficava em suspenso. O sono permitia ao ser humano repor os “poderes sensoriais” finitos e recarregá-los para que pudesse explorar o mundo num estado de vigília.

No entanto, a ciência do sono diz-nos que a história é mais complexa e que o sono não é uma atividade passiva. Assim que adormecemos, os nossos cérebros agem como porteiros, catalogando as experiências do dia e limpando o espaço uma vez concluída a tarefa.

Para alcançar esta fase de limpeza, o cérebro tem de se sobrepor aos seus próprios impulsos de lutar ou fugir, mas o nosso cérebro não é propriamente hábil na distinção entre as sensações de ameaça e entusiasmo. A animação pela aproximação da data de uma caminhada ou de um dia passado a pescar percorre o cérebro de uma forma tão avassaladora quanto o stress sentido na véspera de um exame.

“É a natureza do cérebro humano”, afirma June Pilcher, uma investigadora na Universidade de Clemson. “A atividade do nosso cérebro traduz-se em pensamentos. E pensar é bom, mas pode ter efeitos secundários, tal como manter-nos acordados à noite. E nessas alturas, parece que é impossível desligar o cérebro, simplesmente não conseguimos.  Por isso a pergunta que se impõe é: como é que conseguimos descansar?”

CONTAR CARANGUEJOS

Corey Arnold, fotógrafo da National Geographic e pescador no ativo, conhece demasiado bem a maldição de uma mente ocupada. Nos picos da época da pesca comercial, o sono é posto de lado. Quando a escolha é entre dormir ou ganhar milhares de euros, Arnold prefere manter-se acordado e trabalhar. E mesmo quando reserva uma ou duas horas para dormir uma sesta, o cérebro está demasiado agitado para conseguir relaxar.

“Depois da adrenalina de um longo dia, um dia de temporal, o cérebro está num completo desassossego”, afirma. Se Arnold conseguir dormir, é quase certo que os seus sonhos gravitarão em tornos de ondas que fustigam furiosamente as embarcações. Por vezes, o sono apenas reproduz, em modo sonho, as experiências que viveu em estado de vigília. Quando pescava caranguejos, Arnold passava o dia a contar cada caranguejo que tirava da nassa e atirava para o porão.

“Sempre que me deitava e fechava os olhos, começava a contar caranguejos outra vez. Era realmente… de loucos.”

Arnold também conhece de perto o sono profundo daqueles que estão em total privação. No ano passado, após uma jornada de 30 horas de uma expedição de pesca, ele e alguns amigos regressaram a terra com dificuldade.

“Tínhamos perdido completamente o juízo”, afirma. “Estávamos como que anestesiados, felizes, mal conseguíamos articular as palavras”. Mesmo em frente da doca, no meio de uma fábrica de conservas abandonada onde tinham acampado, Arnold e os amigos caíram prostrados sob o sol e adormeceram.

Jaime Devine, uma investigadora que se dedica ao estudo do sono no Instituto de Investigação do Exército de Walter Reed em Silver Spring, no estado de Maryland, conhece os efeitos da exaustão extrema. Por vezes, os soldados com quem fala descrevem um tal estado de cansaço que pensam que estão a dormir, quando ainda estão a caminhar. Esse é um nível de fadiga que a maioria dos civis nunca sentiu, afirma.

O MELHOR SONO DA SUA VIDA

Mas, para outros exploradores no terreno, dormir no cimo de uma montanha ou nas profundezas de uma gruta não é visto como algo extremo, mas sim como ideal.

“Em 38 anos de vida, creio que a melhor noite de sono que já tive foi numa gruta”, afirma Robbie Shone, um fotógrafo e explorador que investiga a fundo os sistemas subterrâneos de grutas em todo o mundo. Na Malásia, Shone e os colegas acamparam numa gruta, à qual chamaram Hotel Califórnia, um espaço amplo delimitado por paredes calcárias, onde o chão estava coberto com areia macia e fina.

“Não era exatamente a areia como a da praia, estava realmente bastante solta, embora um pouco compacta, por isso amortecia, quase como um tapete”, explica Shone. O solo naquela região tinha uma textura tão perfeita que Shone nem sequer usou o saco-cama.

E, no fim de um dia passado a explorar, Shone e os colegas regressavam à gruta, penduravam os frontais nas paredes macias, punham uma música e preparavam um chá.

A rotina e atividades calmas como estas, afirma Devine, são a chave para dormir independentemente do local.

“É tão difícil deixar de pensar”, diz Devine, e estar sempre a matutar numa ideia antes de dormir pode influenciar profundamente a qualidade do nosso sono. Por isso, é fundamental que, antes de irmos dormir, “afastemos do nosso pensamento situações ou imagens que nos geram tensões”, afirma.

“Mas o problema é que muito mais fácil dizer do que fazer.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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