James Cameron: Levar os Artefactos Para o Reino Unido Seria Um Sonho

Os museus subscrevem uma oferta no valor de 19,2 milhões de dólares para adquirir os artefactos recuperados do local do naufrágio, e a National Geographic contribui com 500 000 dólares para a causa. quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Em 1912, o navio da Royal Mail, batizado Titanic, colidiu com a ponta oculta de um icebergue e afundou-se nas águas gélidas do Atlântico Norte, ditando a morte de mais de 1500 pessoas. Pouco tempo depois da descoberta dos destroços do navio em 1985, a empresa privada RMS Titanic, Inc. adquiriu os direitos exclusivos sobre o navio naufragado, tendo recuperado cerca de 5500 objetos. Muitos destes artefactos, desde estatuetas a sapatos das vítimas, viajaram pelo mundo como peças destinadas a integrar exposições em museus ou mostras de natureza privada.

Em 2016, a RMS Titanic, Inc. e a Premier Exhibitions, proprietária daquela, declararam insolvência, sem que tivesse sido definido um destino a dar à coleção do Titanic. Agora, na véspera de uma das maiores audiências de sempre num processo de insolvência, uma aliança entre instituições britânicas e irlandesas lançou uma campanha de angariação de fundos para trazer para casa a coleção completa, de volta às ilhas onde o fatídico transatlântico foi construído e gerido.

“Estes artefactos, que encerram um enorme valor histórico, estão em risco de serem repartidos e vendidos a colecionadores privados e de perder a sua identidade enquanto coleção”, disse num comunicado Conal Harvey, vice-presidente do Titanic Belfast, o museu situado junto aos estaleiros onde o Titanic foi construído. “Por isso, foi organizada uma campanha para trazer estes artefactos de regresso a casa, onde serão protegidos e preservados como património público e expostos para que possam ser contemplados”.

A campanha espera angariar 19,2 milhões de dólares para cobrir uma oferta de aquisição dos artefactos, apresentada, recentemente, no tribunal de insolvência dos Estados Unidos pelo Museu Nacional Marítimo do Reino Unido e os Museus Nacionais da Irlanda do Norte. Se esta oferta prevalecer por decisão judicial, os museus afirmam que os artefactos serão integrados nas coleções permanentes. A Titanic Belfast exporia a maioria dos objetos, e o Museu Nacional Marítimo assumiria os trabalhos de conservação dos mesmos.

Na conferência de imprensa, a National Geographic Society comprometeu-se a contribuir com 500 000 dólares para a campanha. O anúncio chega um ano após a National Geographic Society ter reunido, discretamente, as instituições que apresentaram a oferta, a par de Robert Ballard, o homem que descobriu o local do naufrágio, e o realizador do filme Titanic James Cameron, com o objetivo de estudar e debater formas de manter os artefactos recuperados sob a esfera e gestão públicas.

“A repatriação dos artefactos do naufrágio constitui uma oportunidade histórica para honrar o eterno legado do Titanic e a memória daqueles que morreram no naufrágio”, afirmou num comunicado Michael L. Ulica, presidente interino e diretor-geral da National Geographic Society. “Sendo a primeira entidade privada a contribuir para este esforço, a National Geographic congratula-se por fazer parte deste último capítulo da história do Titanic e apoiar a iniciativa para trazer estes artefactos de regresso a casa”.

“Desde o momento em que esta ideia começou a ganhar forma, numa reunião em 2017, que se tornou um sonho. Com a oferta de aquisição e tendo em conta os fundos disponíveis atualmente, não me atreveria a especular, mas creio que temos algumas probabilidades”, diz Cameron, um explorador da National Geographic, que mergulhou 33 vezes no local do naufrágio do Titanic. “Espero que o tribunal se pronuncie favoravelmente e atenda à nossa pretensão. São vários os elementos a nosso favor.”

Para além de conseguirem a propriedade dos artefactos, os museus obteriam também a condição da RMS Titanic, Inc. de “salvador proprietário, o que significa que os museus teriam os direitos exclusivos para salvar o navio naufragado.

Ainda que não tencionem recuperar mais objetos do fundo do mar, as instituições afirmam que manterão salvaguardados os direitos de resgate apenas para impedir que outros o façam.

Tal como a National Geographic informou anteriormente, dois grupos de acionistas da Premier apresentaram no tribunal de insolvência ofertas concorrentes pela RMS Titanic, Inc. e respetivos artefactos. No entanto, os principais especialistas mundiais do Titanica mantêm-se ao lado dos museus.

“O Titanic estava destinado, desde o início, a dar a volta e a regressar a casa, mas nunca o fez”, disse Ballard, um explorador da National Geographic, numa entrevista anterior. “Estes esforços ajudam a fechar um ciclo.”

A campanha de angariação de fundos começa no dia que precede a audiência no tribunal de insolvência dos Estados Unidos, na qual estarão presentes o consórcio de museus e as entidades que apresentaram as ofertas de aquisição. Desta audiência não sairá qualquer decisão final sobre os futuros proprietários dos tesouros do Titanic, sendo apenas comparadas e avaliadas as três ofertas de aquisição. Os advogados dos museus esperam que o processo se arraste por mais uns quantos meses.

Uma mensagem da National Geographic Society: a National Geographic está empenhada em honrar as vidas perdidas no Titanic. A mais recente exposição do Museu da National Geographic, sob o título Titanic: The Untold Story, integra artefactos raros cedidos temporariamente, por cortesia, pelas famílias dos sobreviventes. Nenhum dos objetos foi recuperado do local do naufrágio do Titanic.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeograhic.com. 

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