A Procura Pelos Parentes Modernos dos Antigos Hobbits

Um grupo de pigmeus vive ainda nas proximidades da gruta onde foi descoberto o esqueleto de baixa estatura do Homo floresiensis. Poderão ser aparentados?sábado, 18 de agosto de 2018

O arqueólogo Douglas Hobbs explora a gruta em Liang Bua, onde foram descobertos os vestígios do hobbit.
O arqueólogo Douglas Hobbs explora a gruta em Liang Bua, onde foram descobertos os vestígios do hobbit.
fotografia de Fairfax Media via Getty Images

Inicialmente, o esqueleto parecia ser de uma criança. Descoberta na gruta de Liang Bua, na ilha indonésia de Flores, a fêmea de hominídeo não terá tido mais do que 107 centímetros de altura, em vida. Mas ela não era uma jovem, e cedo ficou claro que este hominídeo de baixa estatura tinha algo especial: era de uma espécie nunca antes vista, que os investigadores denominaram Homo floresiensis.

A descoberta, anunciada em 2004, acendeu desde então um debate, que tem vindo a subir de tom, sobre a forma como este curioso hominídeo, conhecido por hobbit ou homem de Flores, se encaixa na nossa árvore genealógica. Um novo estudo, publicado a 2 de agosto, na revista Science, é o mais recente capítulo daquilo que o autor do estudo, Richard E. Green, apelida de “o grande mistério que é o hobbit".

Green, um biólogo computacional da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, juntamente com uma equipa internacional de colegas, analisou o material genético da atual tribo de pigmeus rampasasa, que vive nas proximidades da gruta onde o hobbit foi encontrado. Os cientistas tinham curiosidade em saber se existia ADN hobbit neste povo contemporâneo, de baixa estatura.

“Abreviando a história, a resposta é não", diz Green. “Após uma análise aprofundada, não encontrámos qualquer evidência que suportasse essa hipótese”. Em vez disso, parece que grupos de habitantes da Ilha de Flores, na Indonésia, desenvolveram uma estatura reduzida, pelo menos em dois momentos, adaptações evolutivas separadas por dezenas de milhares de anos.

ASSUSTADORAMENTE INTERESSANTE”

Nos últimos anos, os investigadores juntaram lentamente as peças da história do Homo floresiensis. É provável que estes hominídeos de baixa estatura tenham descendido do Homo erectus, que habitou anteriormente a região há cerca de um milhão de anos. Não é exatamente claro quando é que os hobbits habitaram a Ilha de Flores, na Indonésia, mas, com base na descoberta de um maxilar e dentes semelhantes aos dos hobbits numa zona próxima da gruta, é possível que a baixa estatura de alguns dos habitantes da ilha tenha sido uma característica herdada com cerca de 700 mil anos. Os vestígios de hobbits datam de há 100 mil a 60 mil anos, embora a análise às suas ferramentas de pedra os situe na ilha entre os 190 mil e 50 mil anos atrás.

Ainda assim, há quem argumente que o hobbit não era de todo uma espécie nova, sugerindo que a síndrome de Down ou o nanismo poderia explicar o seu tamanho diminuto. Esta última argumentação deriva de um estudo controverso publicado em 2011, no qual os investigadores sugeriram que o Homo floresiensis sofria de uma microcefalia que atrofiava o crescimento dos indivíduos. Green contesta esta ideia, mas diz que os investigadores "identificaram uma coisa assustadoramente interessante".

Eles encontraram semelhanças surpreendentes entre as proporções faciais do antigo Homo floresiensis e dos atuais pigmeus da tribo Rampasasa, que vivem ainda nas proximidades da gruta de Liang Bua. “Isso pareceu-me ser demasiada coincidência", afirma ele.

Na altura, Green tinha acabado de sequenciar um esboço do genoma do homem de Neandertal. Como parte desse estudo, a sua equipa identificou traços genéticos do antigo hominídeo nos humanos da era moderna. Isto foi uma espécie de mundividência científica na altura. Segundo ele, "talvez tudo acabe por se misturar geneticamente, se houver uma oportunidade". Talvez o mesmo se aplicasse aos hobbits.

Green e os colegas, incluindo investigadores da Europa, Austrália e Indonésia, decidiram então analisar o genoma do pigmeu contemporâneo e perceber se os seus antepassados estavam interligados com o Homo floresiensis ou se alguma vez se tinham misturado com a espécie.

DOIS TRADUTORES, 32 AMOSTRAS DE SALIVA

Desde a descoberta do Homo floresiensis, e possivelmente até antes, a tribo Rampasasa acreditava que os seus antepassados estavam ligados à imponente gruta de Liang Bua, refere Serena Tucci, uma autora do novo estudo e investigadora da Universidade de Princeton. Segundo Tucci, os membros da tribo acreditam que o hobbit descoberto na zona é um dos seus antepassados e, frequentemente, levam comida ou depositam flores na gruta como oferendas.

Antes de recolher amostras, a equipa trabalhou arduamente para comunicar os seus objetivos e o processo de recolha, explica Tucci, que contou com o auxílio de dois tradutores para estabelecer o diálogo com os membros da tribo: um para traduzir do inglês para o indonésio, e outro para traduzir da língua indonésia para o dialeto local manggara. No geral, os rampasasa estavam ansiosos por participar na análise. "Eles queriam conhecer a sua história", diz ela.

Para a recolha, os investigadores selecionaram aleatoriamente 32 adultos de um grupo de voluntários e pediram a cada um que cuspisse para o interior de um tubo para análise genética. Deste grupo, os investigadores analisaram 10 genomas completos. Posteriormente, compararam as análises genéticas com o ADN de mais de 2500 indivíduos das 225 populações atuais, que se distribuem pelo leste da Ásia, Malásia, Indonésia, Papua Nova Guiné, entre outros.

Como ninguém conseguiu ainda extrair com êxito o ADN dos vestígios do Homo floresiensis, os investigadores não puderam comparar diretamente o ADN antigo e o atual. Em vez disso, procuraram traços dos hobbits, utilizando uma abordagem ligeiramente diferente, colocando a questão: “O que é que encontrámos que não conseguimos explicar?”, diz Green. “E a resposta é: nada que se pareça àquilo que esperamos que um hobbit deva parecer".

Esta análise sugere que grande parte dos antepassados da tribo Rampasasa são oriundos da Oceânia Próxima, uma região que inclui a Papua Nova Guiné, as ilhas Salomão e o arquipélago de Bismarck. Outra parte significativa dos traços genéticos parece ter origem numa migração relativamente recente do leste asiático.

Há algumas evidências de antigos hominídeos, inclusive traços genéticos do homem de Neandertal e aproximadamente 0,8 por cento do hominídeo de Denisovan. Mas os investigadores não conseguiram encontrar nenhum outro indício de mistura genética entre hominídeos suficientemente antigo para que pudesse ser de uma espécie como o hobbit.

“Gostaria muito que a resposta fosse afirmativa", refere Green, "mas infelizmente não é caso".   

O QUE É QUE SE PASSA?

“Para onde quer que olhemos, encontramos mistura genética, mesmo nas populações que julgávamos ser de espécies diferentes", afirma Amy Goldberg, uma geneticista populacional da Universidade de Duke, que não participou nos trabalhos de investigação. Segundo Goldberg, este último estudo foi uma das primeiras vezes, na era do genoma moderno, em que os investigadores não conseguiram encontrar tal cruzamento.

Golberg elogia a minúcia da nova análise, salientando que existe ainda a possibilidade dos traços do hobbit estarem presentes no genoma, apenas podem não ser detetáveis com os métodos atuais. Mas também é possível que a baixa estatura se tenha desenvolvido em dois momentos ao longo do tempo.

“Acreditamos que aconteçam fenómenos muito estranhos nas ilhas", explica Tucci. Exposta à disponibilidade incerta de alimentos ou, frequentemente, a grupos de predadores pouco comuns ou à total ausência destes, a vida insular desenvolve-se de uma forma surpreendentemente diferente daquela que prospera no continente. Muitas criaturas tornam-se pequenas, um processo conhecido como nanismo insular. Terá sido provavelmente o que aconteceu ao hipopótamo-pigmeu-de-Madagáscar e aos pequenos primos do elefante que vaguearam pela Ilha de Flores, juntamente com os hobbits. No entanto, outros animais ganharam tamanho, como os ratos gigantes da Ilha de Flores, que ainda hoje correm pela ilha. São "do tamanho do meu gato", acrescenta Tucci.

Mas Gerrit Van den Bergh da Universidade de Wollongong manifesta alguma reserva quanto às conclusões sobre as causas da baixa estatura. Não é claro que o nanismo insular tenha tido um papel na história da tribo Rampasasa, refere. Os rampasasa são bons agricultores, e a escassez de alimento, uma das causas habitualmente apontadas para o nanismo insular, pode não ter tido um papel relevante na seleção.

“O nanismo insular é em si próprio um mistério", admite Green. “É daquelas coisas na ciência que são do género: "bem, isso já devia ter sido resolvido”.

“Para mim, este estudo mostra que a estatura resulta de uma arquitetura complexa", acrescenta Sohini Ramachandran, uma geneticista da população humana da Universidade de Brown, que não esteve envolvida na investigação. Não é claro o porquê da evolução da baixa estatura, frisa Ramachandran. “Há um trabalho entusiasmante a desenvolver no futuro, que deverá incorporar estas amostras noutros estudos, por forma a permitir compreender a genética dessa característica".

A equipa está atualmente a trabalhar no sentido de comunicar os seus resultados aos rampasasa. “Transmitir-lhes o resultado é um elemento fundamental da investigação", diz Tucci, que está a colaborar com um ilustrador indonésio para elaborar um gráfico que seja percetível para apresentar à aldeia. Mas há ainda muito mais para fazer. A investigação parece levantar mais perguntas do que respostas, mas esse é um aspeto irresistível da vida e morte do enigmático Homo floresiensis.

“O grande mistério permanece”, diz Green. “O que era o hobbit?”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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