Pais de Rapariga Pré-Histórica Eram de Duas Espécies Humanas Diferentes

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Segundo nota do editor, esta história foi corrigida para clarificar que os neandertais nunca habitaram território africano.

No início, quando recebeu os resultados, a paleontóloga Viviane Slon nem queria acreditar. “O que correu mal?”, lembra-se de perguntar a si mesma na altura. O seu pensamento fugiu imediatamente para a análise. Teria feito algum erro? Poderia a amostra estar contaminada?

Os dados indicavam-lhe que a lasca de osso, com cerca de 90 000 anos, que Slon tinha testado, era de uma adolescente, cuja mãe era uma mulher de Neandertal e o pai um homem de Denisova. Os investigadores suspeitavam há muito do cruzamento entre estes dois grupos primitivos de humanos, tendo encontrado vestígios dos genes de ambos nos genomas do homem pré-histórico e do homem moderno. Mas nunca tinha sido encontrado um descendente direto do cruzamento de dois humanos de espécies distintas.

Slon, uma pós-doutorada do Instituto Max Planck em Leipzig, retirou para análise uma amostra a partir de uma outra zona do osso e obteve o mesmo resultado, pelo que voltou a recolher uma terceira amostra. Após analisar seis amostras no total, Slon obteve sempre os mesmos resultados. O osso apresentava quantidades iguais de ADN de um humano de Neandertal e de um hominídeo de Denisova.

A descoberta histórica, publicada na semana passada na revista Nature, é a primeira prova definitiva de um descendente que resultou diretamente do cruzamento de duas espécies pré-históricas, contribuindo para moldar o nosso conhecimento sobre as interações entre hominídeos.

“É fantástico descobrir algo desta natureza”, diz David Reich, um geneticista de Harvard, que não participou nos trabalhos de investigação. “Parecia pouco provável que pudéssemos apanhar a prova flagrante, um individuo que é, efetivamente, o produto de uma primeira geração híbrida.”

Assim sendo, quem era esta adolescente dos tempos primitivos, e qual é a importância do seu fóssil para o nosso conhecimento sobre a evolução humana?

QUEM ERA O HOMEM DE DENISOVA?

Os hominídeos de Denisova são uma aquisição relativamente recente, e ainda pouco estudada, que ampliou o nosso conhecimento sobre a árvore genealógica do Homem.

Em 2010, uma equipa internacional, sob a coordenação de Svante Pääbo do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, anunciou a descoberta de um tipo raro de ADN hominídeo, a partir do osso de um dedo mindinho e de um dente do siso, que tinham sido encontrados na gruta de Denisova nas montanhas de Altai, na Sibéria. Os investigadores atribuíram o nome da gruta ao hominídeo recém-descoberto.

Novos estudos revelaram que os hominídeos de Denisova eram um grupo congénere dos homens de Neandertal, que se dividiram a partir de um antepassado comum há 390 000 anos. É provável que tenham vivido até há 40 000 anos, por volta da altura em que os neandertais também começaram a desaparecer.

Mas subsistem ainda muitas perguntas sem resposta. Que aspeto tinham? Quantos eram? Viveram apenas na zona em torno da gruta siberiana? O problema é que os vestígios do homem de Denisova são extremamente raros. Toda a informação de que os cientistas dispõem sobre estes hominídeos foi obtida a partir de vestígios escassos, apenas três dentes e um fragmento de osso do dedo mindinho, de quatro hominídeos de Denisova, todos eles descobertos na mesma gruta.

DE ONDE VEIO ESTE NOVO OSSO?

O osso do último estudo foi descoberto em 2012, também na gruta de Denisova. A nova análise sugere que o fragmento de osso procede de um braço ou perna de um indivíduo do sexo feminino, que morreu por volta dos 13 anos há 90 000 anos.

Com pouco menos de seis milímetros de largura, o fragmento é irreconhecível, à primeira vista, como o osso de um hominídeo. Por essa razão, o osso foi posto inicialmente de parte para análise posterior, juntamente com milhares de outros fragmentos de ossos descobertos na gruta, incluindo fósseis de leões, ursos, hienas, entre outros.

Alguns anos mais tarde, Samantha Brown da Universidade de Oxford classificava milhares de fragmentos ósseos, no âmbito de um estudo sobre as proteínas no colagénio dos ossos, quando, ao identificar a natureza de cada fragmento, descobriu estar perante uma parte de um osso de hominídeo. Foi nessa altura que o osso chegou às mãos de Slon.

COMO SABEMOS SE ESTE HOMINÍDEO ERA UM ESPÉCIME HÍBRIDO?

Slon começou por estudar o ADN mitocondrial do fragmento, ou seja, material genético que passa apenas de mãe para filho.  Os resultados, publicados na revista Nature em 2016, confirmaram que o osso pertencia a um hominídeo com uma mãe neandertal.

“O estudo já era por si só apaixonante”, afirma Slon. “E o entusiasmo cresceu, quando nos debruçámos sobre o ADN nuclear.” O ADN nuclear é herdado de ambos os progenitores, permitindo aos cientistas determinar a linhagem paterna do hominídeo pré-histórico.

“Foi nessa altura que nos apercebemos de que havia algo invulgar com este osso”, afirma.

Para começar, a linhagem paterna correspondia claramente à assinatura genética do hominídeo de Denisova. Além disso, o genoma da adolescente apresentava, na sua generalidade, uma diversidade genética em quantidades surpreendentemente elevadas, uma medida conhecida por heterozigotia, que pode indicar aos cientistas o grau de parentesco entre os progenitores de um indivíduo. Se os progenitores forem primos, o indivíduo terá um baixo nível de heterozigotia. Se os progenitores procederem de espécies de hominídeos totalmente diferentes, o nível de heterozigotia será elevado.

E este osso sequenciado recentemente? “É heterogizótico até dizer chega”, diz Richard E. Green, um biólogo computacional da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que não participou no estudo. “Foi esse o elemento-chave.”

PODERÁ ESTAR RELACIONADO COM OS HOMINÍDEOS PRÉ-HISTÓRICOS?

O cruzamento de espécies não terá estado certamente limitado aos hominídeos de Neandertal e de Denisova. Acredita-se que, pouco tempo depois de terem saído de África, os neandertais terão começado a reproduzir-se com os homens modernos. Atualmente, cerca de dois por cento do ADN da maioria dos europeus e asiáticos é neandertal. Subsistem também, aos dias de hoje, vestígios do ADN do homem de Denisova, que compõe entre quatro a seis por cento do genoma dos melanésios modernos.

É difícil determinar se um indivíduo descende diretamente deste hominídeo híbrido. Mas, sublinha Reich, todo aquele que tem ascendência do homem de Denisova tem, de alguma forma, ascendência do homem de Neandertal.

 

ERA HABITUAL O CRUZAMENTO ENTRE ESPÉCIES DE HOMINÍDEOS DIFERENTES?

O novo estudo sugere que o cruzamento entre espécies de hominídeos diferentes terá sido muito mais comum do que a comunidade científica pensava. A sequenciação genética abrangeu um universo muito pequeno de hominídeos, e, mesmo assim, os cientistas conseguiram descobrir um descendente híbrido de primeira geração, refere Slon, afirmando que as perspetivas são “bastante animadoras”.

Green admite a possibilidade de existirem distorções na amostra. As grutas são, em regra, espaços que favorecem a preservação das estruturas ósseas e talvez tenham sido apenas o local de reunião de diferentes grupos de hominídeos. “Seriam uma espécie de bares para solteiros do período do Plistoceno da Eurásia”, diz Green num tom espirituoso.

Mas quanto mais se procura, mais se encontra indícios de cruzamentos: o pai denisovano desta adolescente tem também vestígios de parentes neandertais.  Em 2015, os investigadores anunciaram a descoberta de uma mandíbula humana numa gruta na Roménia, que, após análise, revelou ser de um hominídeo com ascendentes neandertais tão-somente de quatro ou seis gerações anteriores.

Reich afirma que a nova descoberta traz um novo olhar sobre o mundo pré-histórico, no qual o cruzamento de espécies acontecia de forma livre entre hominídeos com origens distintas. “Esta descoberta transforma e modifica a nossa compreensão do mundo numa perspetiva qualitativa”, afirma. “E isso é, realmente, apaixonante.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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