A Terra Tem Mais Duas ‘Luas’ Escondidas

Detetadas pela primeira vez nos anos 60 do século passado, a existência destas gigantescas nuvens de poeira foi agora confirmada — e pode afetar os planos para a exploração espacial.

Publicado 9/11/2018, 10:01
O astronauta da Apollo 11, Edwin Aldrin, é fotografado com a bandeira dos EUA. Se olharmos ...
O astronauta da Apollo 11, Edwin Aldrin, é fotografado com a bandeira dos EUA. Se olharmos de perto é possivel ver o rosto de Aldrin através da viseira do capacete.
Fotografia de NASA

A lua terrestre poderá não estar sozinha. Após mais de meio século de especulação e controvérsia, astrónomos e físicos húngaros afirmam ter finalmente confirmado a existência de duas “luas” inteiramente constituídas por poeira em órbita terrestre.

Segundo o artigo publicado por estes cientistas na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, a equipa conseguiu captar imagens das nuvens misteriosas, localizadas a cerca de 400 000 quilómetros da Terra, sensivelmente a mesma distância que a lua.

Outros investigadores tinham já inferido a presença de diversos companheiros naturais da Terra, mas as nuvens de poeira só foram efetivamente observadas em 1961, quando o astrónomo polaco que lhes deu nome, Kazimierz Kordylewski, as avistou. Mesmo nessa altura, a sua existência foi posta em causa.

“As nuvens de Kordylewski são dois dos corpos celestes mais difíceis de encontrar e, apesar de se encontrarem à mesma distância da Terra que a lua, são amplamente ignorados pelos investigadores no campo da astronomia”, diz Judit Slíz-Balogh, uma das autoras do estudo e astrónoma na Universidade Eötvös Loránd, na Hungria. “É fascinante confirmar que o nosso planeta tem dois pseudo-satélites de poeira em órbita, a par com a sua vizinha lunar.”

De acordo com estas novas descobertas, cada nuvem de Kordylewski tem cerca de 15 por 10 graus de largura, o que equivale a 30 por 20 discos lunares no céu noturno. Isto traduz-se numa região no espaço com uma dimensão de cerca de 105 000 por 72 000 quilómetros — quase nove vezes maior que a Terra.

As nuvens em si são enormes, mas estima-se que as partículas individuais que as constituem tenham apenas um micrómetro. A luz solar refletida por estas partículas fá-las brilhar ligeiramente — tal como o brilho em forma de pirâmide da luz zodiacal, que é produzido pela poeira espalhada entre as órbitas dos planetas.

Contudo, estas nuvens-satélites permaneceram ocultas na escuridão do espaço até hoje somente por serem muito difusas.

“É muito difícil detetar as nuvens de Kordylewski contra a luz galáctica, a luz estelar, a luz zodiacal e o brilho celeste”, explica Gábor Horváth, outro dos autores do estudo e físico na Universidade Eötvös Loránd. Mas agora, recorrendo a filtros polarizadores especiais, os investigadores conseguiram revelar a luz dispersa refletida pelas partículas individuais que constituem as nuvens.

MÚLTIPLAS LUAS

Durante anos, os astrónomos sugeriram a possibilidade de a Terra poder ter mais de uma lua. Há cinco pontos de estabilidade específicos no espaço onde estas luas poderiam estar localizadas.

Estes pontos orbitais ideais, conhecidos como pontos de Lagrange, situam-se onde a força gravitacional de dois objetos em órbita — como é o caso da Terra e do sol — é contrabalançada pela força centrípeta das suas órbitas. Neste local, os objetos ficam aprisionados numa posição relativamente estável, e a uma distância constante, tanto da lua como da Terra.

Kordylewski começou por examinar dois destes pontos, L4 e L5, nos anos 50 do século passado, na esperança de encontrar corpos sólidos. Em vez disso, acabou por revelar as primeiras pistas de nuvens de poeira orbitando em torno da Terra.

Desde cometas, a chuvas de meteoros, à banda zodiacal, ou nosso sistema solar é um lugar cheio de poeira. Nuvens de partículas estendem-se entre os planetas, e podem ser avistadas por observadores com um olhar apurado num céu noturno e límpido. Porém, as nuvens de Kordylewski não são tão estáveis como estes outros elementos de poeira espacial. As partículas da nuvem são continuamente substituídas, o que faz delas, simultaneamente, mutáveis e ancestrais.

As partículas de poeira ficam aprisionadas nas nuvens graças ao equilíbrio de Lagrange, acabando por escapar devido a ligeiros puxões da Terra ou da lua. Para reabastecer o seu fornecimento de poeira, as nuvens abastecem-se dos mais variados tipos de partículas interplanetárias, incluindo fenómenos anuais como a chuva de Perseidas. Assim, ainda que as partículas possam não permanecer estáveis durante muito tempo em termos astronómicos, as nuvens poderão existir desde o nascimento do sistema Terra-lua.

TUMBLEWEEDS CÓSMICOS

Estes perigos poeirentos são uma espécie de tumbleweeds cósmicos, podendo vir a ter alguma relevância em termos de exploração espacial no futuro.

Por exemplo, certas missões espaciais implicam o estacionamento de satélites nos pontos de Lagrange, onde o consumo de combustível para manter a órbita é mínimo. Isto inclui o telescópio espacial James Webb, que deverá ser lançado em direção ao ponto de Lagrange L2 durante a próxima década. As agências espaciais também planeiam servir-se dos pontos de Lagrange como estações de transferência na chamada superautoestrada interplanetária, para missões a Marte, revela Horváth.

“A investigação da dinâmica das nuvens de Kordylewski pode perfeitamente vir a ser crucial do ponto de vista da segurança da navegação espacial”, acrescenta.

E se as hipóteses de Horváth e Slíz-Balogh estiverem corretas, poderão haver mais destas nuvens móveis de poeira em órbita terrestre, aguardando apenas o dia em que venham a ser descobertas noutros pontos de Lagrange.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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