Porque é que o “Vulcão Tsunami” da Indonésia Quase Não Deu Aviso

Ao contrário de desastres anteriores provocados por terramotos, o tsunami de dezembro foi provavelmente despoletado pela agitação do vulcão Anak Krakatau.

Publicado 2/01/2019, 11:41
Lava a escorrer pelas paredes do Anak Krakatau
Lava a escorrer pelas paredes do Anak Krakatau (“filho de Krakatoa”) durante uma erupção, vista a partir de uma ilha perto da Indonésia em julho.
Fotografia de El Ghazali/ Barcroft Media/ Getty

Na Indonésia, na noite de 22 de dezembro, pouco antes das 21h30, hora local, um tsunami varreu as ilhas de Sumatra e de Java. Não houve aviso para a parede de água que deixou um rasto de devastação. Apesar do número de vítimas mortais poder vir a aumentar, e enquanto se tentam encontrar pessoas desaparecidas, existem pelo menos 430 mortos confirmados e mais de 800 feridos.

A razão por detrás da falta de aviso prende-se com a origem surpresa das ondas: ao contrário de eventos anteriores desencadeados por terramotos, este tsunami foi provavelmente provocado pelo colapso de um vulcão ao largo da costa.

Anak Krakatau, o vulcão em questão, tem estado em erupção intermitente desde o dia 18 de junho de 2018. As informações detalhadas sobre a sequência exata dos eventos que originaram o tsunami ainda estão a emergir, mas a maior parte das provas aponta para um deslizamento de terras associado à atividade vulcânica. De acordo com as imagens do satélite Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia, uma grande parte do lado sul do vulcão deslizou para o oceano.(Já imaginou como será trabalhar no interior de um vulcao?)

Tais circunstâncias não são incomuns, sublinha o geofísico Mika McKinnon: “Os vulcões são apenas camadas de pedra mal coladas entre si, onde a cada erupção vão deslizando mais para baixo, e acabamos por ter todas estas camadas de pedra num ângulo propício a um deslizamento.” Não é preciso muito para que uma camada se solte. E se por acaso essa camada for grande, vai enviar ondas massivas em direção à costa, quase sem aviso.

“Podem pensar nisto como se fosse um primo enorme e destrutivo do ato de atirar um seixo a um lago”, diz McKinnon.

O QUE CAUSA UM TSUNAMI

Quando a maior parte das pessoas pensa em tsunamis, pensa geralmente em imagens de terramotos. Estas são algumas das origens mais comuns das devastadoras paredes de água. Movimentos na crosta oceânica podem deslocar a água suprajacente, originando a compressão e o rebentamento das ondas junto às costas mais próximas.

“Mas esta não é a única forma de se obter um tsunami”, diz McKinnon. Os partos glaciares, o deslizamento de terras e as erupções vulcânicas também podem gerar ondas massivas.

Neste caso, o culpado mais provável é o Anak Krakatau. Se este nome soa familiar, talvez seja porque este vulcão resulta do infame vulcão Krakatoa, que rugiu para a vida em 1883 com uma das maiores erupções vulcânicas dos tempos modernos. A erupção foi tão grande que era possível ouvi-la a quase 5 quilómetros de distância, na Ilha Rodriguez, originando um tsunami que matou mais de 36 000 pessoas. Este evento também pode ter servido de inspiração para o famoso quadro, O Grito, de Edvard Munch. Depois da tempestade flamejante, tudo o que restou foi uma cratera massiva.

“Mas ele não morreu. Em vez disso, um novo vulcão começou a crescer”, diz McKinnon. O bebé vulcão foi adequadamente batizado de Anak Krakatau, ou “filho de Krakatoa”.

O QUE SABEMOS SOBRE O ACONTECIMENTO NA INDONÉSIA ?

Neste acontecimento, a origem vulcânica das ondas gerou inicialmente alguma confusão sobre o que estava a acontecer em terra. Os terramotos conseguem dar alguns sinais de potenciais tsunamis, mas o deslizamento de terras não gerou as ondas sísmicas do costume. Em vez disso, à mesma hora do tsunami, os investigadores apanharam um tremor de baixa frequência – uma pista de que a culpa pode ter sido do deslizamento de terras.

Os cientistas começaram recentemente a estudar estes sinais de baixa frequência, mas estão geralmente associados a atividade vulcânica – como o movimento de magma a grande profundidade ou o colapso de câmaras vulcânicas – ou a acontecimentos como partos glaciares e deslizamentos submarinos.

“O sinal foi intercetado em Nepiedó, na Birmânia, e ao largo de Java, de Sumatra e do Bornéu”, diz Jamie Gurney, fundador do Earthquake Bulletin no Reino Unido, através de mensagem direta via Twitter. Mas os sinais não se ficaram por aí – viajaram até Arti, nos Montes Urais da Rússia e Kambalda, na Austrália Ocidental.

Os modelos fornecem pistas adicionais para o que aconteceu. Utilizando os tempos de chegada das ondas e a topografia conhecida da região, Andreas Schäfer, investigador pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, começou a fazer testes onde a terra pode ter cedido. A velocidade da onda é determinada pela profundidade da água e pela altura da onda, relativamente ao deslizamento em si, permitindo aos investigadores fazerem a simulação dos eventos.

O modelo de Schäfer sugere que o deslizamento de terras deslocou-se para sudeste ou sudoeste, com ondas que demoraram entre 30 a 35 minutos a atingir a costa. Agora, os dados confirmados sugerem que as ondas atingiram primeiro a zona de  Marina Jambu, perto de Anyer, em Java.

No centro de tudo isto está Anak Krakatau.

O FILHO DE KRAKATOA

O filho de Krakatoa fez-se ouvir em anos recentes. Atualmente, está a cuspir plumas massivas de vapor e jatos negros de material vulcânico, numa agitação vulcânica que já dura há seis meses.

“Pode muito bem ter sido esta atividade que juntou matéria para o evento de colapso”, diz Janine Krippner, vulcanologista da Universidade Concord, através de mensagem direta. “Mas ainda é muito cedo para se saber.”  

Em alternativa, o colapso vulcânico pode ter resultado da acumulação de materiais ao longo de décadas. Em 2012, os investigadores fizeram uma simulação dos efeitos de um colapso massivo do flanco sul do vulcão, e concluíram que o tsunami daí resultante poderia provocar ondas de 15 a 30 metros de altura, capazes de atingir a costa num minuto.

“O que isto nos diz, é que um colapso seguido de tsunami era um perigo conhecido em Anak Krakatau”, diz Krippner. “Mas, apesar de sabermos tudo isto, não significa que possamos prever quando irá acontecer ou qual será a sua magnitude.”

Apesar dos cientistas poderem analisar eventos passados para simularem a probabilidade de eventos futuros, continua a ser impossível fornecer um aviso antecipado para estes tsunamis locais provocados pelo deslizamento de terras. Os devastadores sismo e tsunami de 2004, ao largo da costa de Sumatra, desencadearam uma série de estudos sobre sistemas de alerta antecipados para ondas geradas a partir de terramotos. Mas este último evento, tal como outro tsunami “surpresa” no início de 2018, perto de Palu, na Indonésia, sublinham a necessidade de mais trabalho.

“Num vulcão com tanta atividade, os perigos podem alterar-se com o tempo”, diz Krippner. “Esta é uma situação complicada e não se encaixa na categoria de alerta normal de tsunami, porque não existe um sismo que preceda o evento.”

Depois, existe a necessidade de recursos financeiros adequados para que se tomem medidas substanciais, acrescenta Krippner: “É claro que precisamos de estudar mais estes perigos, mas precisamos também de financiamento, apoio e cooperação para transformar os resultados das pesquisas em políticas de ação.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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