Ciência

Esta Pode Ser a Rocha Mais Velha da Terra – E Foi Recolhida na Lua

A descoberta pode ser a primeira do seu género em mãos humanas ou uma evidência de que precisamos repensar a nossa imagem do interior lunar.Wednesday, February 6, 2019

Por Michael Greshko
As técnicas Linda Tyler (esquerda), Nancy L. Trent (ao centro), e Sandra Richards observam, através do vidro, uma rocha lunar do tamanho de uma bola de basquete, designada formalmente por 14321, recolhida na lua durante a missão da Apollo 14.

Os cientistas podem ter encontrado a rocha intacta mais antiga da Terra – na lua. Um estudo publicado recentemente na Earth and Planetary Science Letters afirma que uma das rochas recolhidas pelos astronautas da Apollo 14, em 1971, contém um fragmento da antiga crosta terrestre, com mais de 4011 mil milhões de anos.

É possível que o fragmento se tenha formado numa bolsa de magma, estranhamente rica em água, no interior da lua antiga. Mas os autores do estudo acreditam ser mais provável que a rocha se tenha formado dentro da crosta do nosso planeta, tendo sido projetada em direção à lua por um dos muitos impactos de meteoritos que bombardearam a Terra primitiva.

Se assim for, o fragmento é uma das rochas mais antigas da Terra alguma vez encontradas. Os minerais mais antigos encontrados na Terra vêm de Jack Hills, na Austrália, e têm até cerca de 4.4 mil milhões de anos. Mas essas datações têm sido contestadas, e mesmo que os minerais sejam realmente tão antigos, são destroços de rochas que se desintegraram há muito tempo. Pelo contrário, o fragmento recolhido pela Apollo 14 está muito mais bem conservado na sua totalidade.

"Tecnicamente é uma 'rocha', enquanto os [minerais] de Jack Hills são cristais individuais e sem contexto", escreveu através de e-mail Jeremy Bellucci, o principal autor do estudo e investigador do Museu Sueco de História Natural.

A descoberta consolida o legado científico de décadas das missões Apollo, e cimenta ainda mais a lua como sendo a principal arquivista do sistema solar. Como a lua é tão antiga, sem ar e geologicamente inativa, a sua superfície regista a história dos impactos desde o início do sistema solar – incluindo, muito provavelmente, detritos de impactos enviados de outros mundos. Acredita-se que até 0,5% dos detritos presentes na superfície lunar se formaram primeiro na Terra, e que pedaços de outros planetas rochosos, como Vénus ou Marte, também poluem a lua.

Mas a rocha da Apollo 14, caso se confirmem as suas origens terrestres, seria a primeira do seu género nas mãos de cientistas a ser recolhida na lua.

"A ser verdade, então é uma descoberta fascinante", diz Cornelia Rasmussen, investigadora da Universidade do Texas, em Austin, que estuda a química das crateras de impacto na Terra. “Nós não temos um registo rochoso dessa época na Terra, o que significa que [o achado] nos dá uma janela para uma época que não podemos realmente estudar aqui”.

INVESTIGAR A FUNDO

Recolhida pelo astronauta da Apollo 14, Alan Shepard, em 6 de fevereiro de 1971, a rocha contendo o suposto pedaço de Terra – formalmente designada por 14321 – é uma das maiores que já foram trazidas da lua pelas missões Apollo.

O astronauta da Apollo 14, Alan Shepard, tirou esta fotografia da rocha, designada por 14321, minutos antes de a recolher da superfície lunar.

A rocha é do tamanho de uma bola de basquetebol e pesa pouco mais de 9 quilos. É um tipo de rocha chamado breccia, uma espécie de 'montagem' rochosa feita a partir de vários pedaços de diferentes rochas antigas. O impacto que fez a cratera de Imbrium, uma das enormes manchas escuras no lado mais próximo da lua, forjou provavelmente esta rocha maior, projetando-a para o local de aterragem da Apollo 14.

A maioria dos seus componentes, chamados clastos, são de cor escura. Mas um dos pedaços destaca-se por ser estranhamente brilhante, com uma composição semelhante à do granito que se encontra na Terra. Para descobrir de onde veio este pedaço atípico de 14321, a equipa de Bellucci tirou novas amostras da rocha e concentrou as suas atenções nos minerais, chamados zircões, dentro dela.

“O zircão é um mineral incrivelmente duro, robusto e resistente”, diz o coautor do estudo, David Kring, cientista do quadro superior do Instituto Lunar e Planetário. “Portanto, se estivermos à procura de uma relíquia dos processos geológicos mais ancestrais, o zircão é um mineral muito bom para começar.”

Quando a equipa analisou estes zircões e o quartzo em redor, descobriu que o clasto anormal se tinha formado em condições que teriam sido realmente estranhas na lua para a época. Os zircões formaram-se em magmas muito mais frios e ricos em oxigénio do que os normalmente encontrados na lua.

Para além disso, o clasto parece ter sido formado com pressões que só se encontrariam a mais de 150 quilómetros abaixo da superfície lunar. Mas o impacto que os geólogos acreditam ter dado origem à rocha 14321 cavou provavelmente pouco mais de 72 quilómetros do solo. Se o clasto foi formado a uma profundidade tão grande, como é que chegou à superfície?

Os investigadores depressa concluíram que as propriedades excêntricas do clasto só fariam sentido se este tivesse sido formado na Terra. Cerca de 19 quilómetros abaixo da superfície da Terra, o magma sofre temperaturas, pressões e níveis de oxigénio idênticos aos que formaram este clasto misterioso. Quando Bellucci fez um gráfico que comparava os zircões da Terra com os lunares, as semelhanças eram evidentes.

"Estava mesmo no meio do campo terrestre. Fiquei espantadol!", Diz Bellucci. "A partir dali, foi como uma bola de neve."

Uma seta marca a porção mais clara, ou clasto felsite, da rocha 14321 que os investigadores acreditam ter sido formada na Terra.

PROCURAR MAIS AMOSTRAS

Investigação futura poderá confirmar a interpretação de Bellucci, sendo também possível que outras rochas lunares, atualmente na posse da humanidade, contenham partículas da Terra antiga.

"Tenho a certeza de que vamos encontrar amostras adicionais, e suspeito que isso vai estimular outras pessoas da comunidade a fazer o mesmo", diz Kring.

Novas amostras da lua também ajudariam – e podem estar a chegar em breve. Por exemplo, espera-se que a próxima missão lunar chinesa Chang'e-5 regresse com amostras. Mas por enquanto, o trabalho no material da Apollo está suspenso. Apesar dos legisladores dos EUA terem chegado alegadamente a um acordo para financiar temporariamente o governo, o embargo que está a decorrer destabilizou a vida de muitos cientistas – incluindo os autores do estudo.

No dia 24 de janeiro, Kring disse “o meu instituto vai encerrar no final do dia de amanhã. Não vamos poder fazer a ciência excitante ilustrada por esta descoberta”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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