Ciência

Este Equipamento Permite Acampar Debaixo de Água

Nova “tenda” submersível permite aos mergulhadores dormir, comer e descomprimir debaixo das ondas. Quinta-feira, 7 Fevereiro

Por Jennifer S. Holland

Desde o início da era moderna do mergulho autónomo, introduzida por Jacques Cousteau no início da década de 1940, os exploradores dos oceanos têm procurado novas formas de permanecer debaixo de água durante períodos de tempo mais prolongados. Restringidos pelo tamanho do tanque de oxigénio e pela fisiologia humana sob pressão, os mergulhadores autónomos são obrigados a subir periodicamente para respirar, às vezes poucos minutos após atingir o fundo do mar.

Eis que surge o Open Space Habitat, concebido como uma espécie de “tenda” subaquática.

Projetado e patenteado recentemente pelo explorador da National Geographic Michael Lombardi e por Winslow Burleson, professor colaborador da Universidade de Nova Iorque, o Ocean Space Habitat é um sistema de suporte de vida portátil para mergulhadores que querem ir mais fundo e permanecer mais tempo debaixo de água do que o permitido pelo mergulho autónomo convencional.

PROBLEMAS PROFUNDOS

O uso de um aparelho respiratório autónomo convencional (SCUBA) traz consigo várias restrições. Por um lado, os mergulhos mais profundos significam menores períodos de tempo no fundo do mar, uma vez que o corpo humano consome ar mais depressa à medida que atinge profundidades maiores. E ascender em segurança requer uma longa espera, a diversas profundidades, para nos adaptarmos às mudanças de pressão. Uma subida inadequada pode causar a doença da descompressão ou “as dobras”, quando bolhas de gás se acumulam no sangue e nos tecidos. E ter acesso a uma câmara hiperbárica para tratar esta condição perigosa pode ser difícil e dispendioso.

“Estivemos em lugares remotos onde, se ficarmos com ‘as dobras’, podemos dizer adeus à vida”, diz a fotógrafa subaquática da National Geographic, Jennifer Hayes. Em locais como estes, onde as instalações de emergência estão fora de alcance, ela e o parceiro David Doubilet são forçados a mergulhar de forma conservadora – o que pode afetar drasticamente o seu trabalho.

SEGURANÇA PRIMEIRO

O habitat desenvolvido por Lombardi e Burleson visa resolver esse problema, entre outros. Inspirado por algumas experiências de mergulho "de pânico", onde o abastecimento de ar estava a desaparecer rapidamente e ele necessitava de fazer pausas extralongas na descompressão, Lombardi quis projetar uma sala de respiração – abrigada do frio e de predadores – para descompressão, emergências, e “uso produtivo do tempo improdutivo”.

Na sua “tenda” insuflável, vários mergulhadores podem nadar até à câmara seca, remover equipamentos, falar, comer, processar amostras e até mesmo dormir durante o processo de descompressão.

Em caso de uma emergência, “um abrigo destes para recompressão dentro de água [teria] um potencial enorme”, observa Hayes, “tal como a capacidade de comunicar durante uma experiência indesejável e potencialmente fatal”.

Outra vantagem óbvia é a conservação do ar. Especialmente para um fotógrafo que persegue alvos selvagens e fugazes, diz Hayes, “mais alguns minutos de ar podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso”.

SOB PRESSÃO

Desde que foi testado pela primeira vez no final da década de 1930, o “mergulho de saturação”, quando um mergulhador permanece sob pressão por longos períodos, em vez de se ambientar à pressão da superfície repetidamente, permitiu um acesso cada vez maior aos oceanos mundiais.

Os “habitats” submarinos capazes de acomodar mergulhos mais longos não são uma ideia nova: a forma mais simples, o sino de mergulho, existe há décadas, numa série de iterações criativas. (Os mergulhadores de cavernas costumam virar um cocho e prendê-lo contra o teto de uma caverna para essa finalidade, diz o antropólogo Kenneth Broad, da Universidade de Miami, embora possa haver CO2 acumulado sem a descarga de gás adequada, “portanto, por favor, não tente isto em casa”.)

Atualmente, a indústria petrolífera e outras indústrias marítimas comerciais utilizam instalações de mergulho de saturação, incluindo câmaras (pressurizadas) afundadas ou em embarcações, e a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) tem uma base submarina chamada Aquarius, a única do seu género dedicada à ciência. Esta base permite aos investigadores trabalharem durante dias, semanas ou até meses nos recifes de Key Largo, na Flórida, sem precisarem de ascender para respirar até que o trabalho esteja concluído.

PODE LEVÁ-LA CONSIGO

Mas a Aquarius não é móvel, enquanto a nova "tenda" é portátil, dizem os seus fabricantes – a estrutura principal pode ser embalada e despachada como bagagem, e os mergulhadores podem desmontá-la e insuflá-la novamente noutro local, conforme necessário. "Ter a opção de tal equipamento portátil seria um complemento importante para o arsenal de ciências da exploração", diz Broad.

Além disso, tem um preço acessível, custando menos do que a gestão de algumas operações de mergulho individuais. "Eu gosto de pensar que [oferece] uma oportunidade para uma experiência verdadeiramente ‘imersiva’", escreveu Lombardi num e-mail. “A tenda permite-nos levar para casa um pouco mais do que aconteceria enquanto visitantes temporários, utilizando técnicas de mergulho autónomo convencionais.”

"Também pode ser um recurso partilhado valioso", acrescenta, para um grupo interessado em longas excursões científicas subaquáticas ou até mesmo em "festas de chá subaquáticas e piqueniques".

Burleson diz que mergulhar com o habitat “é como transformar uma pequena caminhada pela floresta numa excursão de acampamento de fim de semana. O habitat permite-nos fazer mais do que pretendíamos inicialmente, independentemente de sermos fotógrafos, investigadores de corais ou cidadãos cientistas”.

Mas o que é mais emocionante, diz, é o que o equipamento pode significar para aqueles que normalmente não trabalham no fundo do mar. "Imagine se um turista, normalmente limitado a um mergulho de uma hora, pudesse permanecer sob essa transição mágica da luz do sol, para o crepúsculo, para a escuridão – com toda a vida que emerge", diz. "As pessoas podem viver o oceano de uma forma completamente nova".

Com o selo da patente ainda fresco, Burleson e Lombardi procuram parceiros para novas expedições. "Os mergulhadores que estejam prontos a explorar as possibilidades, que nos contactem", diz. "Estamos prontos para divulgar isto."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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