Ciência

As Flores Conseguem Ouvir o Zumbido das Abelhas

“Gostaria que as pessoas percebessem que a audição não é apenas para os ouvidos.” Tuesday, February 5, 2019

Por Michelle Z. Donahue
A forma abaulada das flores prímula pode ser a chave para as suas capacidades acústicas.

Mesmo nos dias mais calmos, o mundo está cheio de sons: pássaros a cantar, o vento a soprar nas árvores e insetos a zumbir nos nossos afazeres. Os ouvidos da presa e do predador estão sintonizados para a presença um do outro.

O som é tão elementar à vida e à sobrevivência que levou uma investigadora da Universidade de Tel Aviv, Lilach Hadany, a perguntar: E se não fossem apenas os animais a conseguir sentir o som – e se as plantas também o conseguissem fazer? As primeiras experiências para testar esta hipótese, publicadas recentemente no servidor de pré-impressão bioRxiv, sugerem que, em pelo menos um caso, as plantas conseguem ouvir, beneficiando assim de uma vantagem evolutiva real.

A equipa de Hadany observou prímulas (Oenothera drummondii) e descobriu que, poucos minutos depois de sentirem as vibrações das asas dos polinizadores, as plantas aumentavam temporariamente a concentração de açúcar no néctar das suas flores. De facto, as próprias flores funcionavam como ouvidos, captando as frequências específicas das asas das abelhas, enquanto filtravam sons irrelevantes como o vento.

O SOM MAIS DOCE

Hadany, teórica evolucionista, diz que a sua questão foi levantada pela percepção de que os sons são um recurso natural omnipresente – um recurso que as plantas estariam a desperdiçar se não o aproveitassem da mesma forma que os animais o fazem. Se as plantas tivessem uma maneira de ouvir e responder ao som, pensou Hadany, isso poderia ajudá-las a sobreviver e a transmitir o seu legado genético.

Dado que a polinização é fundamental para a reprodução das plantas, a equipa de Hadany começou por investigar flores. A prímula, que cresce de forma selvagem nas praias e nos parques perto de Tel Aviv, surgiu como uma boa candidata, já que tem um longo período de desabrochamento e produz quantidades mensuráveis de néctar.

Uma mosca-das-flores castanha e amarela descansa numa prímula coberta de orvalho, no Reino Unido.

Para testar as prímulas em laboratório, a equipa expôs as plantas a cinco tratamentos sonoros: silêncio, gravações de uma abelha a 10 centímetros de distância e sons gerados por computador em frequências baixas, intermédias e altas. As plantas que receberam o tratamento silencioso – colocadas debaixo de frascos de vidro que bloqueavam as vibrações – não apresentaram um aumento significativo nas concentrações de açúcar do néctar. O mesmo aconteceu com as plantas expostas a sons de alta frequência (158 a 160 kilohertz) e frequência intermédia (34 a 35 kilohertz).

Mas nas plantas expostas a reproduções de sons de abelha (0,2 a 0,5 kilohertz) e sons de baixa frequência semelhantes (0,05 a 1 kilohertz), a análise final revelou uma resposta inconfundível. Três minutos depois da exposição a estas gravações, a concentração de açúcar nas plantas aumentou de 12 a 17% para 20%.

De acordo com a teoria da equipa, uma oferta mais doce aos polinizadores pode atrair mais insetos, aumentando potencialmente as probabilidades de uma polinização cruzada bem sucedida. De facto, nas observações de campo, os investigadores descobriram que os polinizadores eram cerca de nove vezes mais comuns em torno de plantas que tinham sido visitadas por outro polinizador nos seis minutos anteriores.

"Ficámos muito surpreendidos quando descobrimos que tinha realmente funcionado", diz Hadany. "Mas depois de o termos repetido noutras situações, em diferentes estações do ano e com plantas cultivadas, tanto em ambientes interiores como exteriores, sentimo-nos muito confiantes com o resultado".

FLORES PARA OS OUVIDOS

Enquanto a equipa pensava na forma como o som funcionava, através da transmissão e interpretação de vibrações, o papel das flores tornou-se ainda mais intrigante. Embora as flores variem muito em forma e tamanho, muitas delas são côncavas ou em forma abaulada. Isso torna-as perfeitas para receberem e amplificarem ondas sonoras, tal como uma antena parabólica.

Para testar os efeitos de vibração de cada grupo de testes de frequência sonora, Hadany e a sua coautora Marine Veits, então estudante de pós-graduação no laboratório de Hadany, colocaram as flores de prímula debaixo de um medidor de vibrações a laser, que mede movimentos ínfimos. A equipa comparou depois as vibrações das flores com as vibrações de cada um dos tratamentos sonoros.

“Esta flor específica é de forma abaulada, pelo que, acusticamente falando, faz sentido que este tipo de estrutura vibre e aumente a vibração dentro de si”, diz Veits.

E foi de facto o que aconteceu, pelo menos com as frequências dos polinizadores. Hadany diz que foi emocionante ver as vibrações da flor em sintonia com os comprimentos de onda da gravação das abelhas.

“Vemos imediatamente que funciona”, diz.

Para confirmar que a flor era a estrutura responsável, a equipa também realizou testes em flores com uma ou mais pétalas removidas. Essas flores não ressoaram com nenhum dos sons de baixa frequência.

QUE MAIS CONSEGUEM AS PLANTAS OUVIR

Hadany reconhece que existem muitas, muitas questões sobre esta capacidade, recentemente descoberta, da resposta das plantas ao som. Será que alguns “ouvidos” são melhores para certas frequências do que outros? E porque é que a prímula aumenta a doçura do seu néctar quando se sabe que as abelhas são capazes de detetar pequenas mudanças na concentração de açúcar de 1 a 3%?

Para além disso, será que esta capacidade pode ter outras vantagens para além da produção de néctar e da polinização? Hadany especula que talvez as plantas se alertem mutuamente para o som de herbívoros que ceifam outras plantas. Ou talvez possam gerar sons que atraiam animais envolvidos na dispersão de sementes dessa planta.

"Temos de levar em consideração que as flores evoluíram durante muito tempo com os polinizadores", diz Hadany. “São entidades vivas e também elas precisam de sobreviver no mundo. É importante para as plantas conseguirem sentir o seu ambiente – especialmente se não conseguem ir a lado nenhum.”

Este estudo singular abriu um novo campo de investigação científica, a que Hadany dá o nome de fito-acústica.

Veits quer saber mais sobre os mecanismos subjacentes que suportam o fenómeno observado pela equipa de investigação. Por exemplo, quais os processos moleculares ou mecânicos que despoletam a reação da vibração e do néctar? Veits também espera que o trabalho confirme a ideia de que nem sempre é necessário um órgão sensorial tradicional para sentir o mundo.

“Algumas pessoas podem pensar: como é que [as plantas] podem ouvir ou cheirar?”, diz Veits. "Eu gostaria que as pessoas percebessem que a audição não é apenas para os ouvidos.”

Richard Karban, especialista em interações entre plantas e as suas pragas, na Universidade da Califórnia, em Davis, tem questões próprias, em particular, sobre as vantagens evolutivas da resposta das plantas ao som.

"Pode ser possível que as plantas sejam capazes de detetar quimicamente os seus vizinhos e avaliar se outras plantas à sua volta estão fertilizadas", diz Karban. "Não existem provas de que estas coisas estejam a acontecer, mas [este estudo] deu o primeiro passo".

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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