Ciência

Imagens Extraordinárias Revelam Mundo Oculto da Vida Microscópica

Ampliada cerca de cem vezes, uma larva-da-farinha passa de repugnante a interessante numa série de retratos fora do normal.Wednesday, February 20

Por Catherine Zuckerman
Fotografias Por Jannicke Wiik-Nielsen
O rosto ampliado de uma larva-da-farinha revela "olhos" expressivos e partes bocais. As larvas-da-farinha são a forma larval do escaravelho amarelo da farinha e são geralmente usadas como alimento rico em proteínas para os animais.

Contorcendo-se na terra, uma larva-da-farinha pode parecer insignificante. Mas se os nossos olhos conseguissem ampliar esta larva de escaravelho cerca de cem vezes, o seu rosto extraordinário revelar-se-ia. Veríamos características em miniatura tão expressivas que poderíamos cair na tentação de a antropomorfizar.

Este é um território familiar para a fotógrafa Jannicke Wiik-Nielsen. Os seus retratos de insetos, parasitas, bactérias e outras formas de vida excecionalmente pequenas – parte de uma coleção chamada Mundo Oculto – exibem estas criaturas de forma a parecerem-se menos com “rastejantes assustadores”, como ela os chama, e mais com personagens. Jannicke consegue este efeito através de microscopia eletrónica de varrimento, uma técnica que produz imagens de alta resolução através do uso de eletrões em vez de fotões.

Esquerda: São visíveis alguns grãos de pólen dispersos neste detalhe de um olho de mosca-das-flores. "O olho é composto por inúmeras facetas", diz Wiik-Nielsen, "cada uma delas contém uma lente" que, juntas, ajudam o inseto a orientar-se e a detetar movimentos. Direita: Com antenas duplas e boquiaberta, uma mosca-das-flores (também conhecida por sirfídeo) parece cheia de personalidade, quando vista de perto. As moscas-das-flores, comuns em todo o mundo, alimentam-se de pólen e néctar, diz Wiik-Nielsen. "Apesar da sua aparência, semelhante à das vespas e das abelhas, são inofensivas para os humanos."
ver galeria

“Os eletrões têm comprimentos de onda muito menores do que as ondas de luz”, diz, “o que [permite] uma resolução muito melhor do que um microscópio de luz comum”.

Na microscopia eletrónica de varrimento, um feixe de eletrões centralizado capta uma imagem de alta resolução em escala de cinza, fazendo o varrimento da superfície de um espécime. Como o feixe é sensível a poeira e água, este varrimento é feito dentro de uma câmara de vácuo. Depois de Wiik-Nielsen recolher uma amostra, coloca-a num soluto que ajuda a manter a sua estrutura. Depois, seca minuciosamente a amostra e aplica uma cobertura fina de metal. Isto ajuda a manter a amostra intacta durante todo o processo de criação de imagens, processo que demora apenas alguns minutos. Quando uma imagem está pronta, Wiik-Nielsen recorre ao Photoshop para a colorir.

"Dependendo do objetivo da fotografia", diz, as cores são manipuladas para replicar o que ela é capaz de ver com os seus próprios olhos, ou, noutros casos, "as cores podem ser manipuladas de forma artística" ou mantidas a preto-e-branco.

Esquerda: "As formigas formam colónias descritas como superorganismos", diz Wiik-Nielsen, "porque parecem funcionar como uma entidade única, trabalhando coletivamente para sustentar a colónia". Direita: Wiik-Nielsen encontrou esta lagarta, ampliada cerca de cem vezes, comendo brócolos no seu jardim.
Esquerda: Os zangões "são polinizadores agrícolas importantes", diz Wiik-Nielsen. O zangão nesta imagem está ampliado cerca de 40 vezes. Direita: De perto, um bicho-de-conta – que Wiik-Nielsen apanhou no seu jardim – parece uma personagem de um filme de ficção científica. "Os bichos-de-conta respiram através de guelras, estando por isso restritos a áreas com muita humidade, seja debaixo de rochas ou troncos, ou em folhas ou fendas", diz Wiik-Nielsen. "Alimentam-se de matéria vegetal e animal em decomposição, desempenhando um papel vital no ciclo de decomposição."

A paixão de Wiik-Nielsen pela microscopia eletrónica despontou há seis anos. Enquanto investigadora do Instituto Norueguês de Veterinária, estudava ovas de peixe que haviam sido infetadas por um fungo e uma ameba que provoca uma doença nas guelras dos salmões de viveiro. As suas fotografias da ameba chamaram a atenção dos biólogos e aquicultores do instituto, diz, “que puderam finalmente ver o parasita que estavam a tentar combater”. Wiik-Nielsen ficou fascinada com a capacidade do microscópio em ampliar os organismos até 200.000 vezes, tornando-se rapidamente na sua ferramenta de investigação preferida.

Os seus espécimes favoritos são parasitas. Embora pareçam repugnantes a muitas pessoas, diz Wiik-Nielsen, coisas como ténias e lombrigas tornam-se incríveis quando ampliadas por um microscópio eletrónico. As imagens revelam as características físicas das criaturas – partes bocais, por exemplo, ou as minúsculas protuberâncias chamadas microvilosidades – com detalhes selvagens.

Esquerda: Um hidroide (Echtopleura larynx), pertencente ao mesmo filo de corais, anémonas do mar e medusas, pode parecer "delicado e macio. Mas cuidado", diz Wiik-Nielsen. Estes organismos, encontrados frequentemente presos a cordas submarinas, boias, mexilhões e algas marinhas, têm dois anéis de tentáculos que são usados na captura e subjugação de presas. Direita: Nesta imagem, um hidroide usa os seus tentáculos para proteger os seus brotos sexuais (chamados gonóforos) de ameaças externas.

Até os carrapatos de veados que sugam sangue (e são propagadores da doença de Lyme) cativam Wiik-Nielsen. Numa ode a um carrapato que ela encontrou e depois fotografou, escreveu: “Fiquei enojada quando pousaste no meu ombro. Pensaste que eu era um veado que podia salvar a tua vida. Em vez disso, eu era um humano que podia acabar com ela. Agora, olhando para o teu rosto, sinto tudo menos nojo”.

Além de usar o microscópio eletrónico na recolha de imagens de espécimes para investigação, Wiik-Nielsen utiliza-o também – com a permissão e o apoio da instituição – para recolher imagens de coisas que encontra no seu jardim ou que encontra enquanto explora a natureza com as suas duas filhas pequenas.

"Encontramos crustáceos nas águas das marés, pólen de plantas e árvores", diz. “Estamos limitadas apenas pela nossa fantasia!”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler