Ciência

Os Smartphones Revolucionam As Nossas Vidas – Mas a Que Custo?

Os computadores nas nossas mãos conseguem fazer coisas incríveis, mas novos estudos mostram o quão dramaticamente eles nos distraem.Monday, February 11, 2019

Por Yudhijit Bhattacharjee
Estudantes aguardam em frente à Academia de Arte de São Francisco.

Recentemente, como acontece quase todos os dias, recebi uma ligação por Skype no meu smartphone, do meu pai, que mora em Calcutá, na Índia. O meu pai tem 79 anos e não sai muito, está cada vez mais caseiro. Naquele dia, eu estava a viajar de comboio da Dinamarca para a Suécia. Enquanto falava com ele, segurei o telefone contra a janela, com a lente da câmara voltada para fora. Observámos os dois a paisagem sueca, enquanto o comboio saía de Malmo e disparava em direção a Lund. Por breves momentos, parecia que estávamos a viajar juntos.

Por este momento de conexão, e muitos outros como este, o meu telefone merece a minha gratidão. Mas este mesmo dispositivo tornou-se numa fonte de distração implacável na minha vida, atropelando a minha atenção com uma regularidade assustadora e diminuindo as minhas interações pessoais com a família e os amigos. Numa visita a Calcutá para ver o meu pai, dei por mim a pegar no telefone, durante a nossa conversa, para verificar o Facebook e para ver se uma foto que eu tinha publicado recentemente tinha atraído novos “gostos”. (Tinha! E comentários também!)

Durante a última década, os smartphones revolucionaram as nossas vidas de formas que vão muito para além do modo como comunicamos. Além de fazer chamadas, enviar mensagens e enviar e-mails, mais de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo usam estes dispositivos para navegar na internet, reservar táxis, comparar análises de produtos e preços, acompanhar as notícias, assistir a filmes, ouvir música, jogar, recordar as férias e, não menos importante, participar nas redes sociais.

É incontestável que a tecnologia dos smartphones trouxe muitos benefícios para a sociedade, tais como permitir que milhões de pessoas que não têm acesso a bancos realizem transações financeiras, ou permitir que equipas de salvamento numa zona de desastre consigam identificar com precisão o local onde a sua ajuda é necessária com maior urgência. Há aplicações disponíveis para utilizadores de smartphones que monitorizam as distâncias que percorrem durante o dia e o quão bem dormem durante a noite. Aparentemente, surgem todos os dias novas aplicações da tecnologia: o seu smartphone pode agora ajudá-lo a manter-se atualizado sobre a higiene dentária dos seus filhos, acompanhando o tempo que demoram a escovar os dentes com as suas escovas de dentes compatíveis com Bluetooth. (A minha esposa e eu decidimos que isso já era demasiado.)

No entanto, esses benefícios parecem ter um custo elevado na nossa vida mental e social. A conectividade constante e o acesso a informação que os smartphones permitem, transformaram os dispositivos numa espécie de droga para centenas de milhões de utilizadores. Os cientistas estão agora a começar a investigar este fenómeno, mas os seus estudos sugerem que estamos cada vez mais distraídos, passando cada vez menos tempo no mundo real e cada vez mais atraídos pelo mundo virtual.

O poder que detêm sobre nós é completamente evidente nos nossos hábitos e nos nossos comportamentos diários. Saber o caminho é coisa do passado: geralmente, confiamos nos nossos telefones para chegar a qualquer lugar, até mesmo para destinos que já visitámos inúmeras vezes. Os utilizadores mais compulsivos mantêm sempre os telefones a curta distância, alcançando-os mesmo quando acordam a meio da noite. Nos aeroportos, nas universidades, nos centros comerciais, nos semáforos – em quase todos os lugares públicos que possamos imaginar – a visão mais comum do nosso tempo é a de pessoas com as cabeças baixas, olhando atentamente para os telefones. Se vir alguém numa pastelaria a tomar café e a olhar pela janela, é pouco provável que essa pessoa esteja a desfrutar de um momento tranquilo, o mais provável é que o seu dispositivo tenha ficado sem bateria.

A nossa utilização de smartphones mudou efetivamente a geografia das nossas mentes, criando uma rampa de distração para cada pensamento que possamos ter por conta própria. "O que eu assisti nos últimos seis a oito anos é uma enorme mudança de paradigma – grande parte dos recursos de atenção, dedicados ao nosso ecossistema pessoal, foram transferidos para o que é virtual", diz Larry Rosen, reconhecido professor de psicologia na Universidade Estatal da Califórnia, em Dominguez Hills, e coautor do livro “The Distracted Mind: Ancient Brains in a Hi-Tech World”. “Isto significa que não presenciamos o que está à nossa frente. Nós observamos isto nos pais – não se concentram nos filhos. Nem se concentram no que estão a ver na televisão porque estão focados num segundo ecrã. Está a afetar todos os aspetos das nossas vidas e, infelizmente, acho que o pêndulo ainda não oscilou na totalidade.”

Os investigadores começaram a documentar o impacto dos smartphones na nossa capacidade de concentração. Num estudo, Adrian Ward, psicólogo da Universidade do Texas, em Austin, e os seus colegas deram a 800 participantes dois desafios mentais – resolver um problema de matemática enquanto memorizavam uma sequência aleatória de letras e selecionavam uma imagem com algumas opções para concluir um padrão visual. Alguns participantes foram convidados a deixar os seus smartphones noutra sala, enquanto outros foram autorizados a manter os seus smartphones nos bolsos. E outros participantes mantiveram os seus smartphones numa mesa à sua frente. Embora os telefones não desempenhassem um papel nos desafios, a sua acessibilidade afetou o desempenho dos participantes. Aqueles que tinham deixado os telefones noutra sala obtiveram os melhores resultados. Aqueles com os telefones à sua frente obtiveram os piores. Mas mesmo aqueles que colocaram os telefones nos bolsos demonstraram uma capacidade cognitiva reduzida.

Os investigadores temem que o vício dos smartphones possa diminuir a capacidade dos utilizadores jovens em ler e compreender textos o que, por sua vez, pode ter impactos adversos no seu pensamento crítico. Estas preocupações baseiam-se nos resultados de estudos, como o realizado pela psicóloga Anne Mangen e seus colegas da Universidade de Stavanger, na Noruega. Dividiram 72 alunos do décimo ano em dois grupos, pedindo a um grupo para ler dois textos em papel e ao outro para ler os mesmos textos em PDF num ecrã. No teste de compreensão de leitura, os leitores de textos impressos obtiveram resultados muito melhores do que os leitores digitais.

Outro estudo, conduzido na Universidade da Colúmbia Britânica, suporta o que muitos de nós concluímos em primeira mão: o uso de smartphones pode ter efeitos adversos nas interações sociais no mundo real. Os investigadores, liderados por Ryan Dwyer, um estudante de doutoramento em psicologia, pediram a mais de 300 participantes para fazer uma refeição num restaurante com amigos ou familiares, instruindo alguns para que mantivessem os seus telefones na mesa e outros para que os guardassem. Os que tinham os telefones à sua frente reportaram que se sentiram mais distraídos durante a conversa e que apreciaram menos a refeição do que os outros.

“Quando as pessoas tinham acesso aos seus telefones, também estavam mais entediadas, o que não era o que estávamos à espera”, diz Dwyer. Ter o telefone na mesa enquanto janta, acrescenta ele, “provavelmente não vai estragar a sua refeição, mas pode afetar a forma como a aprecia”. O preço exercido por este fenómeno nas relações familiares próximas é fácil de extrapolar.

A razão pela qual é tão difícil deixarmos de lado os nossos telefones, mesmo na hora das refeições, não é difícil de perceber. "É bem conhecido que, se quisermos manter uma pessoa ligada a algo, damos-lhe uma recompensa de forma alternada", explica Ethan Kross, psicólogo da Universidade de Michigan, em Ann Arbor. "Afinal, é exatamente isso que o e-mail ou as redes sociais fazem – não sabemos quando vamos receber outro “gosto” ou receber o próximo e-mail, e assim continuamos a verificar".

De acordo com um estudo feito por Rosen e seus colegas, no qual têm acompanhado o uso de smartphones por parte de estudantes do ensino secundário e de jovens adultos, a nossa compulsividade parece estar a piorar. Recorrendo a aplicações que contam o número de vezes que um telefone é desbloqueado, os investigadores descobriram que os participantes passaram de 56 desbloqueios por dia em 2016 para 73 em 2018. "Isto é um aumento considerável", diz Rosen.

Parte da culpa recai sobre as notificações, que podem ser desativadas. Outros fatores são "as ansiedades que estão na nossa cabeça", diz Rosen, e estas também podem ser tratadas com exercícios como a meditação ou o mindfulness. De acordo com Rosen, um terceiro fator, mais insidioso, é o modo como as empresas de tecnologia "orquestraram cuidadosamente as suas aplicações e as suas páginas de internet para conduzirem os nossos olhos até lá, mantê-los lá e fazerem-nos regressar".

Respondendo a estas críticas, os fabricantes de telefones desenvolveram aplicações para ajudar os utilizadores a monitorizar o tempo de ecrã do telefone. Mas não se sabe se as aplicações como a Screen Time da Apple ou a Digital Well Being da Google conseguirão ajudar os utilizadores a reduzir o tempo que perdem nos telefones. Num estudo feito com alunos do ensino secundário, Rosen e a sua equipa descobriram que os participantes verificavam as aplicações de monitorização ocasionalmente e descobriram que estavam a perder mais tempo nos telefones do que imaginavam. Mas determinaram que cerca de metade dos alunos não teve alterações de comportamento. (Os investigadores continuam a acompanhar os alunos para descobrir as mudanças nos outros.)

Rosen admite que também ele está dependente. Sendo viciado em notícias, está constantemente a abrir a Apple News no telefone. “Na maioria das vezes, não há nada de novo, mas de vez em quando, aparece uma história nova, dando-me um reforço positivo para o verificar com mais frequência”, diz.

Aprender a viver com a tecnologia sem nos rendermos a ela pode ser um dos maiores desafios que enfrentamos na era digital. “Estamos a tentar acompanhar”, diz Kross, que descreve o universo experimental aberto pelos smartphones como um novo ecossistema ao qual ainda nos estamos a adaptar. "Existem formas positivas ou negativas de navegar no mundo “offline”, e o mesmo se aplica no mundo digital.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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