Ciência

Encontrado ADN Surpreendente nos Antigos Povos da Península Ibérica

Um estudo sobre 8 mil anos de genética, de Portugal e Espanha, revela uma imagem inesperadamente complexa dos nossos antepassados. Quinta-feira, 28 Março

Por Erin Blakemore

Desde o início das migrações humanas que a Península Ibérica tem sido um local onde as culturas africana, europeia e mediterrânica se misturam.

Num artigo publicado recentemente na revista Science, um grupo de 111 geneticistas populacionais e arqueólogos mapearam 8 mil anos de genética nesta região. Eles chegaram a uma conclusão que revela uma vasta complexidade genética, mas que também sugere uma migração singular e misteriosa, há cerca de 4500 anos, que abanou profundamente o ADN ibérico da antiguidade.

A equipa investigou amostras de ADN para perceber quando e como é que as várias populações se juntaram ao fundo genético da Península Ibérica. Sequenciaram os genomas de 271 ibéricos antigos, e combinaram essa informação com dados, publicados anteriormente, de outros 132 habitantes antigos da Península.

O resultado foi mais complexo do que esperavam.

OS HOMENS DAS ESTEPES

A composição genética da área mudou drasticamente desde a Idade do Bronze. A partir de 2500 a.C. podem ser detetados, no fundo genético ibérico, genes associados a povos das estepes, das zonas dos mares Negro e Cáspio, onde fica a Rússia atualmente. E a partir dessa época, grande parte do ADN da população foi substituído pelo do povo estepe.

A “Hipótese Kurgan” sustenta que esse grupo se dispersou para este e para oeste (para a Ásia e para a Europa), aproximadamente na mesma altura – e o estudo atual revela que também chegaram à Península Ibérica. Embora 60% do ADN total da região tenha permanecido inalterado, por volta de 2000 a.C os cromossomas Y dos habitantes foram substituídos quase na sua totalidade. Isso sugere um fluxo massivo de homens das estepes, já que os cromossomas Y só se encontram nos homens.

“Parece que a influência foi predominantemente masculina”, diz Miguel Vilar, antropólogo geneticista que desempenha funções de gestor de projeto para a National Geographic Society.

Quem eram estes homens – e vinham em paz? Vilar, que não esteve envolvido no estudo, especula que os homens das estepes podem ter chegado a cavalo, com armas de bronze, conduzindo assim a região à Idade do Bronze. Vilar compara esta migração à que os povos ameríndios enfrentaram, quando os primeiros europeus chegaram às Américas, em 1490.

“Isso demonstra que podemos estar perante uma migração que atravessou todo o continente europeu e, ainda assim, teve uma influência forte neste extremo mais ocidental”, diz.

Apesar da Idade do Bronze ter chegado à Península Ibérica na mesma altura, não foram encontrados outros vestígios distintos da cultura estepe. O estudo mostra que o povo basco da atualidade – que fala a única língua da Europa Ocidental que não é indo-europeia – contém marcadores genéticos muito próximos dos do povo das estepes. Ao contrário dos hispânicos modernos, os bascos atuais não mostram sinais da mistura genética que aconteceu na península durante séculos.

A equipa também encontrou um individuo único com ADN africano, numa região no centro da Península. Os seus ossos datam de cerca de 2500 a.C.

“Ao início pensei que fosse um erro”, diz Iñigo Olalde, geneticista populacional que liderou o estudo.

Quando Olalde replicou o trabalho, os resultados batiam certo. A presença daquele africano solitário sugere um intercâmbio precoce e esporádico entre a Pen DiversidaIbérica nos últimos 2.o, bateu certo..  conduzindo assim a regieceita durante os primeiros quatro meses do projeto. a ínsula Ibérica e o norte de África, explicando assim as descobertas arqueológicas de marfim africano nas escavações ibéricas da Idade do Cobre. Mas a equipa acredita que a ascendência norte-africana só se difundiu na Península Ibérica nos últimos 2000 anos.

DIVERSIDADE DA IDADE DO GELO

O estudo revela uma imagem complexa da história genética de Espanha – reforçada por um estudo adicional, publicado na revista Current Biology. Nesse estudo, investigadores espanhóis e alemães descobriram que os caçadores-coletores e os agricultores, que viviam na Península Ibérica, também eram geneticamente mais diversos do que se pensava anteriormente. Encontraram evidências de que as diferentes culturas de caçadores-coletores se misturavam nesta região quente, usada como refúgio durante a Idade do Gelo, há 19 mil anos. Os agricultores mais recentes na zona misturaram-se com os caçadores-coletores mais tarde.

"O ADN foi uma surpresa", diz a aluna de doutoramento Vanessa Villalba-Mouco, arqueóloga geneticista que liderou a investigação do Instituto Max Planck, na Alemanha, e da Universidade de Saragoça, em Espanha. “As pistas sobre o que aconteceu naquele momento ajudam-nos a compreender a evolução do período seguinte. Precisamos de estudar mais amostras para conhecer a história com maior precisão.”

O trabalho com ADN antigo “está a ajudar-nos a desconstruir a noção que temos de  populações geográficas distintas, como africanos, asiáticos ou europeus”, diz Vilar. “Não só as pessoas que vivem em regiões como a Península Ibérica são heterogéneas, como são um produto das próprias vagas de migração.”

Para Olalde, este trabalho foi uma oportunidade sem precedentes para explorar a história genética do lugar a que chama casa. “Para mim, ter a possibilidade de conduzir este estudo foi um sonho concretizado”, diz.

E trabalhar com amostras tão grandes – acontecimento raro em estudos que dependem de ADN extraído de ossos com milhares de anos de idade – foi particularmente estimulante para Olalde, que trabalha no Laboratório David Reich, na Escola de Medicina de Harvard. “Ser capaz de analisar quase 400 indivíduos é uma loucura. Graças a eles, temos agora uma imagem muito mais rica de todos os diferentes povos que habitaram a Península Ibérica, e de como moldaram as populações atuais”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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