Ciência

Novos Sensores Permitem Melhor Cuidado a Bebés Prematuros

“Sem estes fios todos, sinto que este é o meu pequeno humano que eu posso pegar ao colo e acarinhar”, diz uma mãe.Monday, March 18, 2019

Por Catherine Zuckerman
Vários fios ligam Riley, bebé prematura, à máquina que lhe mede os sinais vitais, na unidade de cuidados intensivos neonatais (UCIN), num hospital de Chicago. Mas os novos sensores, como o que podemos ver no seu peito, podem revolucionar os cuidados nas UCIN.

É um instinto básico: os pais querem pegar nos seus bebés assim que estes nascem. Depois de tantos meses de antecipação, existe um prazer enorme em poder finalmente embalar aquele corpinho minúsculo e acariciar aquela carinha.

Mas essa intimidade pode sair frustrada se um bebé nascer cedo demais. Os bebés prematuros são levados frequentemente para a unidade de cuidados intensivos neonatais (UCIN) mais próxima, onde estão ligados a uma série de máquinas que monitorizam os seus sinais vitais, entre outras tarefas. Embora este protocolo salve vidas, também cria uma distância física e emocional entre os pais e os seus bebés, inibindo a ligação crucial pele-com-pele.

Os bebés prematuros passam as primeiras semanas ou meses das suas vidas rodeados por máquinas, dificultando aos pais a prática crucial de cuidados pele-com-pele. Aqui, Gina Tesi cuida da sua filha, Riley, que nasceu com sete semanas de antecedência e ficou cerca de dois meses na UCIN.
Gina Tesi tem dificuldades em pegar na sua filha, Riley, no meio de um emaranhado de fios que monitorizam os seus sinais vitais como a temperatura corporal, o batimento cardíaco e os níveis de oxigénio no sangue. Novos sensores sem fios poderiam eliminar a necessidade de muitos destes cabos.

LIBERDADE

Agora, um par de sensores inovadores, sem fios, pode reduzir drasticamente essa barreira. A investigação, publicada recentemente na revista Science, pertence a uma equipa interdisciplinar de cientistas de materiais, dermatologistas, pediatras e estudantes afiliados à Universidade Northwestern. Se forem aprovados, os sensores podem avançar de forma significativa a tecnologia das UCIN, que “não mudou muito desde a década de 1960”, segundo o dermatologista e engenheiro médico Shuai (Steve) Xu, um dos coautores do estudo.

Nos Estados Unidos, o número de bebés nascidos prematuramente – até a trigésima sétima semana de gestação – tem aumentado nos últimos cinco anos. Os números mais recentes dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dizem que um em cada 10 bebés nasce prematuro. Esses bebés sofrem frequentemente de complicações que podem mantê-los na UCIN durante meses. Dependendo do tempo de prematuridade do bebé, os problemas podem incluir baixo peso, pulmões subdesenvolvidos e capacidade reduzida de sugar e mamar.

Os bebés na UCIN estão geralmente ligados a fios que monitorizam de forma continuada os seus sinais vitais, como a temperatura corporal, o batimento cardíaco, o oxigénio no sangue e muito mais. Mas se os novos sensores vierem a integrar o tratamento padrão, “essencialmente todos os fios desaparecem”, diz o líder do estudo John Rogers, engenheiro responsável pela tecnologia do dispositivo.

Esquerda: Os sensores, sem pilhas, que se assemelham a pele estão projetados para dar mais conforto aos bebés prematuros, assegurando que não se prendem demasiado à sua pele sensível. Direita: Um sensor fica no peito do bebé enquanto o outro fica enrolado no seu pé. A partir destas localizações, os sensores conseguem recolher uma variedade de sinais vitais.

UM EQUILÍBRIO DELICADO

Ultrafinos e macios, os sensores flexíveis não têm pilhas e são alimentados por uma antena colocada sob o colchão do bebé. Os sensores aderem delicadamente ao peito e ao pé do bebé, recolhendo e transmitindo continuamente os seus sinais vitais para um tablet, onde os dados podem ser lidos por enfermeiros e outros membros da equipa de cuidados.

Para além disso, os sensores são suaves na pele frágil dos recém-nascidos. Um bebé que nasça demasiado cedo é "essencialmente uma ferida gigante", diz Xu. A camada externa da pele não está totalmente desenvolvida, pelo que o menor puxão ou arranhão pode provocar dor e possivelmente uma infeção. "Esta tecnologia tem milhares de vezes menos força de descamação" do que os adesivos tradicionais usados nas UCIN, diz Xu.

MAIS CARINHO, MENOS ANSIEDADE

Para este estudo, realizado no Hospital Prentice Women e no Hospital Infantil Ann e Robert H. Lurie, em Chicago, foram monitorizados 21 bebés com fios tradicionais e, ao mesmo tempo, com os novos sensores. Estes, não só conseguiram captar toda a informação importante, como também conseguiram captar as estimativas da pressão arterial. Isso é fundamental, diz Rogers, porque tradicionalmente nas UCIN, as medições da pressão arterial exigem o uso de uma braçadeira que pode causar hematomas, ou são feitas por um procedimento ainda mais doloroso e invasivo chamado de linha arterial.

 

A bebé Genesis nasceu no Hospital Infantil Ann e Robert H. Lurie, em Chicago, com 11 semanas de antecedência e usou os novos sensores. Estes dois dispositivos juntos recolhem mais dados do que os sistemas tradicionais de monitorização das UCIN.

“Isto permite-nos ir mais longe do que os padrões clínicos”, diz Rogers, “e ir mais longe é o futuro das UCIN”.

Gina Tesi, que foi mãe recentemente, conseguiu testar os novos sensores enquanto a sua filha, Riley, estava na UCIN do Hospital Lurie. Riley e sua irmã gémea, Regan, nasceram com sete semanas de antecedência, mas como Riley desenvolveu complicações graves, precisou ficar na UCIN durante dois meses. Os fios complicam tudo e reforçam o facto perturbador de que a bebé é um paciente hospitalizado, diz Tesi.

“Sem estes fios todos, sinto que este é o meu pequeno humano que eu posso pegar ao colo e acarinhar”, diz Tesi.

FACTOS SOBRE A GRAVIDEZ

Existem alguns fios que não podem ser eliminados pelos sensores. Muitos dos bebés nas UCIN precisam não só de tubos e de outros fios, como de sistemas de suporte de oxigénio chamados CPAP, que ajudam na respiração. Para Andreas Fiebig, dentista em Genebra, na Suíça, o CPAP foi o maior inibidor de contacto próximo com o seu filho Yanis, que nasceu prematuramente.

“Acredito que este novo sensor faça toda a diferença em bebés que não necessitem de ajudas respiratórias ou de tubos de alimentação”, escreve Fiebig por email.

Os sensores também podem criar um ambiente mais tranquilo se vibrarem em vez de emitir um sinal sonoro, como fazem os dispositivos de monitorização tradicionais, diz Manuela Filippa, investigadora de desenvolvimento de cuidados nas universidades de Valle d'Aosta e de Genebra, que não está afiliada ao estudo.

“Os alarmes de alto nível aumentam geralmente a ansiedade dos pais e sobrecarregam os bebés prematuros”, escreve Filippa por email. "Muitos pais afirmam que o som dos alarmes continua a ecoar nas suas cabeças, mesmo depois da hospitalização".

OLHAR PARA A FRENTE

Os sensores ainda não foram aprovados pela agência Food and Drug Administration dos EUA, embora Xu e Rogers acreditem que, supondo que todas as barreiras regulatórias sejam ultrapassadas, estes possam ser implementados em alguns hospitais, em apenas dois anos. E isso seria uma grande vantagem para os pais que enfrentam esta situação difícil, diz Bobbi Pineda, um terapeuta neonatal e professor assistente da Escola de Medicina da Universidade de Washington, que não esteve envolvido no estudo.

“Se estes novos sensores forem seguros e de confiança, podem transformar a experiência de ter uma criança de alto risco na UCIN”, diz Pineda por email.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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