Ciência

Os Icebergues Podem Ser Verde-Esmeralda. Agora Sabemos Porquê

Os “jade bergues”, que existem apenas na Antártida, fascinam as pessoas há décadas. Mas perceber a razão pela qual têm essa tonalidade, exigiu tempo e um pouco de sorte.Wednesday, March 27

Por Robin George Andrews
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Os icebergues, que podem ser vistos em imagens impressionantes, tanto do Polo Norte como do Polo Sul, são geralmente objetos esbranquiçados ou azulados. E tal como um artista disposto a experimentar quaisquer recursos disponíveis, também a natureza é capaz de criar icebergues surpreendentemente verdes, que só existem na Antártida.

Apesar da literatura científica estar repleta de descrições, algumas com mais de um século, desses blocos de gelo, ninguém conseguia explicar adequadamente a sua origem. Agora, uma equipa de investigadores pode ter deslindado finalmente o caso.

De acordo com a investigação, esta tonalidade incomum parece originar de uma combinação de dois processos distintos. Primeiro, os icebergues, sem bolhas de ar, precisam de se formar nas bases das plataformas de gelo que se soltam em direção ao Oceano Antártico. Depois, é necessária a presença de poeira glacial, de tons amarelos e avermelhados, com origem em terra firme da Antártida.

“É basicamente a versão Antártida de misturar tinta azul com tinta amarela, para obter a cor verde”, diz James Lea, glaciologista na Universidade de Liverpool, que não esteve envolvido na investigação.

CORES VERDADEIRAS REVELAM-SE

Muitos jornalistas norte-americanos gostam de chamar “icebergues esmeralda” a estas curiosidades, diz Steve Warren, professor emérito da Universidade de Washington, e apaixonado de longa data pela Antártida. Talvez os jornalistas estejam a relembrar o poema épico de 1798, A Balada do Velho Marinheiro, no qual o poeta Samuel Taylor descreve um marinheiro na Antártida a ver “gelo, mastro alto… tão verde quanto esmeralda”. Mas os cientistas que costumam detetar estas “anormalidades” na Antártida chamam-lhes jade bergues.

Independentemente do nome, os cientistas sabiam que a cor estaria relacionada com as propriedades físicas e químicas dos icebergues. O gelo glacial tende a ter uma tonalidade azulada porque absorve os comprimentos de onda de luz avermelhados mais longos, deixando os comprimentos de onda de luz azulados mais curtos livres para serem refletidos.

Mas se o gelo tiver bolhas de ar, a luz que o atravessa é forçada a mudar de direção, reaparecendo na superfície após um curto período de tempo. Isso reduz a absorção e produz um efeito de branqueamento. Contudo, em algumas zonas da Antártida, o gelo está tão comprimido que não tem quaisquer bolhas. Isso cria um caminho mais longo para a luz atravessar no gelo, criando tons azuis vibrantes muito claros.

De acordo com diversas descrições, os icebergues verdes também parecem ser extremamente translúcidos, sugerindo que não têm bolhas de ar, dando assim aos cientistas uma pista sobre a sua origem.

Embora o degelo seja uma preocupação constante, a água do mar também pode congelar nas plataformas de gelo da Antártida, criando uma camada espessa, conhecida por gelo marinho. Ao contrário do gelo que aprisiona o ar da superfície, o gelo marinho forma-se sob pressões mais elevadas, onde o ar é mais solúvel e, consequentemente, tende a não originar bolhas.

Portanto, os icebergues de cores verdes vibrantes devem ser forjados a partir de gelo marinho. Esta teoria foi quase provada na década de 1980, com amostras de núcleos de gelo recolhidas por Warren e pelos seus colegas, na Plataforma de Gelo Amery, na Antártida Oriental.

REABRINDO UM CASO GELADO

A equipa de Warren suspeitava que o carbono orgânico dissolvido (restos microscópicos de vida marinha) fosse a causa da coloração. Esse material é amarelado e, quando misturado com o gelo azul puro, poderia originar tons esverdeados. Na época, a equipa não foi capaz de quantificar o carbono orgânico dissolvido nos núcleos de gelo, mesmo com técnicas que o tornavam fluorescente, para tentar confirmar sua presença.

Os resultados do estudo, publicados em 1993, foram amplamente divulgados e bem recebidos, mas as razões para celebrar duraram pouco tempo. Em 1996, durante a segunda viagem de Warren ao gelo, com o Programa Antártico Australiano, a sua equipa encontrou muito mais gelo marinho de cor verde. Desta vez, podiam recolher adequadamente amostras de carbono orgânico dissolvido, e descobriram que as quantidades desse material, no gelo marinho azul e verde, não só eram semelhantes às recolhidas no passado, como também eram demasiado pequenas para ter qualquer tipo de influência sobre a aparência da cor.

“Não sabíamos o que fazer com esta informação, e não tínhamos dados suficientes para reconfirmar as análises”, diz Warren. “Por isso, não fizemos nada, não publicámos nada.”

Então, em 2016, um estudo conduzido pela física e oceanógrafa, Laura Herraiz-Borreguero – que na altura estava na Universidade da Tasmânia e agora está na Universidade de Southampton – encontrou, por acaso, a peça que faltava no puzzle. No interior de vários núcleos, recolhidos na Plataforma de Gelo Amery, o gelo marinho continha até 500 vezes mais compostos de ferro do que o gelo glacial que se encontra à superfície.

Os óxidos de ferro são um componente comum no solo e em rochas, e o estudo sugere este se vai erodindo à medida que o gelo flui sobre o leito rochoso da Antártida Oriental. O sedimento granuloso que resulta deste processo, a chamada farinha glacial, acaba eventualmente por chegar ao mar, onde esta substância ferrugenta começa a congelar, na base das plataformas de gelo, presa no gelo marinho, até que se quebra e forma icebergues. Curiosamente, estes óxidos de ferro costumam ser amarelos e avermelhados.

“O gelo filtra a luz vermelha, e os óxidos de ferro filtram a luz azul, originando a cor verde que é refratada pela luz solar no icebergue", explica Warren.

No seu estudo mais recente, publicado no Journal of Geophysical Research: Oceans, a equipa de Warren calculou a quantidade de ferro necessária para alterar a cor do gelo, de azul para verde, e concluiu que a quantidade presente no gelo marinho de Amery era suficiente.

ARTISTAS DO OCEANO ANTÁRTICO 

Embora isto seja, de certa forma, uma evidência indireta, é necessário mais trabalho para sustentar este modelo, e Lea acredita que esse mecanismo “é uma ideia bem conseguida e que explica os dados disponíveis”.

Esta corrente de icebergues verdes tem algumas consequências no ambiente, acrescenta Lea. As bases dos glaciares, onde se separam da rocha-mãe para flutuar no mar, têm vindo a recuar em torno da Antártida. Essa migração pode fazer com que as plataformas de gelo se desestabilizem e fragmentem, desencadeando potenciais frotas de jade bergues.

Apesar disso permitir, infelizmente, que o gelo terrestre caia no oceano e contribua para a subida do nível da água do mar, o estudo sugere que a criação dessa frota esmeralda, rica em ferro, “podia servir de banquete para as algas que anseiam por este nutriente, essencial à sua sobrevivência”.

Por outras palavras, as algas que rodeiam a Plataforma de Gelo Amery podem vir a ter o melhor serviço de comida takeaway de todo o Oceano Antártico.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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