Ciência

Dentes Antigos Sugerem a Existência de um Parente Humano Misterioso

A descoberta é mais uma a juntar ao crescente número de fósseis da China que não se encaixa na perfeição na atual árvore genealógica humana. Segunda-feira, 8 Abril

Por Maya Wei-Haas

Os cientistas estão surpreendidos com quatro dentes encontrados numa caverna no condado de Tongzi, no sul da China.

Em 1972 e 1983 os investigadores extraíram os dentes, com cerca de 200 mil anos,  dos sedimentos da caverna de Yanhui, rotulando-os inicialmente de Homo erectushominídeos que andam de pé e que se pensa terem sido os primeiros a abandonar África. Análises posteriores sugeriram que estes não se encaixavam perfeitamente na designação de Homo erectus, e desde essa altura o caso ficou adormecido, durante quase duas décadas.

Agora, um estudo publicado na página Journal of Human Evolutionrevela uma perspetiva diferente sobre esses dentes antigos, recorrendo a métodos modernos para examinar estes misteriosos restos mortais. A nova análise exclui a possibilidade dos dentes pertencerem ao Homo erectus, ou aos mais avançados neandertais, e a sua identidade permanece desconhecida.

"É estranho. Não sabemos como os catalogar”, diz o autor do estudo, Song Xing, do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados, em Pequim.

Os quatro dentes juntam-se a um crescente número de descobertas na China que não se encaixam perfeitamente nos ramos conhecidos da árvore evolutiva humana, insinuando que nesta região existe algo mais na história da humanidade.

“Pensamos sempre em África como o 'berço da humanidade'”, diz a autora do estudo, María Martinón-Torres, diretora do Centro Nacional de Investigação sobre a Evolução Humana, em Espanha. “Eu diria que é um berço de provavelmente uma das espécies humanas, que é o Homo sapiens.” Mas já caminharam pela Terra muitas espécies humanas, e o que está a acontecer na Ásia, diz, é provavelmente “crucial para termos uma visão mais abrangente”.

INVESTIGAÇÃO DENTÁRIA

Nos últimos anos a história da humanidade tem ficado cada vez mais complexa, com cada vez mais capítulos e personagens adicionados ao enredo. A migração de hominídeos do tipo Homo erectus começou há cerca de dois milhões de anos, como é evidenciado pelas ferramentas incrivelmente antigas recuperadas recentemente na China central. Nas próximas centenas de milhares de anos, outros grupos continuarão a fazer a sua jornada e a espalhar os seus restos mortais pelo mundo.

À medida que esses primeiros aventureiros chegavam a terras e climas estrangeiros, diversificavam-se em várias populações. Os precursores neandertais espalharam-se pela Europa e pelo Médio Oriente. Outros hominídeos dirigiram-se para o sudeste da Ásia, dando origem ao Homo floresiensis, de estatura baixa, onde fica atualmente a Indonésia, e aos utilizadores de ferramentas de pedra das Filipinas.

Portanto, onde pertencem os dentes encontrados em Tongzi? “Temos um número muito reduzido destes materiais”, diz cautelosamente Xing. “Mas agora podemos dar largas à nossa imaginação.”

O estudo mais recente aborda as estruturas e padrões dos dentes de Tongzi, detalhando as suas superfícies e entranhas usando um método conhecido como microtomografia. A equipa comparou os seus dados com amostras de dentes antigas e outras mais modernas de África, da Ásia Oriental, da Ásia Ocidental e da Europa.

Descobriram que os dentes de Tongzi são uma manta de retalhos com traços antigos e modernos. Mais especificamente, o tecido por baixo do esmalte, conhecido como dentina, não apresenta as rugas relevantes que se encontram nos dentes do Homo erectus. Em vez disso, muitos dos dentes apresentam uma simplicidade notável que se acredita ser semelhante à das espécies Homo posteriores, como os neandertais. Mas, no seu todo, as características do dente acabam por não encaixar em nenhuma das categorias.

Uma possibilidade tentadora é a de que os dentes possam pertencer ao enigmático grupo hominídeo conhecido por Denisova, que se acredita ter-se separado dos neandertais há pelo menos 400 mil anos. Conhecido apenas por três molares, um dedo mindinho e um fragmento de crânio recuperado numa caverna siberiana, o grupo é facilmente reconhecido pelas suas impressões digitais genéticas. Indícios do ADN do hominídeo de Denisova ainda permanecem nas pessoas modernas por toda a Ásia, sobretudo nas populações da Oceânia.

Um dos problemas reside no facto dos dentes de Tongzi e de Denisova não poderem ser diretamente comparados, porque não são da mesma posição na boca, diz o paleoantropólogo Bence Viola, da Universidade de Toronto, que revelou o fragmento de crânio de Denisova, em finais de março, num encontro de antropologia, em Ohio. Apesar dos dentes parecerem bastante grandes – uma característica notável nos hominídeos de Denisova – os escassos restos físicos dificultam a afirmação de algo mais definitivo, sem provas genéticas. E preservar a delicada estrutura de ADN no calor e humidade do sul da China é um desafio.

“Estamos claramente perante uma população distinta. Não sabemos em definitivo se pertence à mesma população de Denisova”, diz Viola, que também integra a Academia Russa de Ciências na Sibéria.

Shara Bailey, paleantropologista dentária na Universidade de Nova Iorque, está cética em relação à afinidade desta amostra em particular com a população de Denisova. "Tenho a certeza de que existe material de Denisova por aí", diz. "O problema é, até que tenhamos bons materiais comparativos, cranianos e mandibulares, só podemos especular."

DESFILE DA ANTIGUIDADE

Outra possibilidade é a de que os novos fósseis chineses pertencem a uma linhagem híbrida. Durante aquele período de tempo, vários grupos terão provavelmente cruzado caminhos, e sempre que os hominídeos se misturavam, aparentemente reproduziam-se. No ano passado, cientistas identificaram um fragmento de osso de uma adolescente que tinha uma mãe neandertal e um pai de Denisova.

Por exemplo, quando os ancestrais de Denisova se aventuraram pela Ásia, podem ter encontrado a população que já lá estava, o Homo erectus, fazendo um cruzamento de espécies e criando um grupo capaz de produzir os dentes de Tongzi, diz Viola. Um mistério no ADN de Denisova poderia sustentar esta teoria: análises genéticas anteriores sugeriam que uma pequena percentagem do ADN de Denisova pertencia a um hominídeo desconhecido e extremamente antigo. Mas sem o ADN dos fósseis de Tongzi, os cientistas continuam apenas a especular.

De momento, o estudo representa um passo importante na revelação, em toda a sua extensão, da história humana. Apesar dos investigadores estudarem há muito os fósseis chineses, os resultados não são muitas vezes traduzidos para inglês, limitando a sua integração no quadro mais amplo, diz Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres. Além disso, diz Bailey, o acesso aos fósseis chineses tem sido limitado, restringindo a compreensão científica.

Mas isso agora está a mudar, e quanto mais os cientistas observam, mais complexidade parecem encontrar. Uma variedade de outros fósseis chineses, que data entre 360 mil e 100 mil anos de idade, também não se encaixa em nenhuma das designações. Estes incluem dentes com características surpreendentemente avançadas, encontrados em Panxian Dadong, no sul da China, e dentes robustos encontrados em Xujiayao, no norte da China.

Depois, temos os fragmentos de crânio. Uma das amostras particularmente intrigantes é um crânio completo de Harbin, na China. Embora este ainda não tenha sido descrito cientificamente, os seus traços retratam um rosto mais antigo que o dos neandertais, podendo pertencer a um grupo que se ramificou dessa linhagem desde muito cedo, diz Stringer.

“Eu acredito que existe algo separado na China – mesmo sem ADN, penso que o podemos afirmar”, diz Stringer. Mas para termos certezas, os cientistas precisam de obter mais provas.

Como diz por email Kristin Krueger, da Universidade de Loyola, o estudo “exibe uma mudança de paradigma na paleoantropologia – uma mudança que reconhece que a nossa história é muito mais intrincada e complexa do que pensávamos – e que a nossa história está constantemente a mudar”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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