Fósseis Podem Conter Vestígios do Dia em que os Dinossauros Morreram

Relatos sobre um local deslumbrante no Dakota do Norte estão a criar ondas de choque entre os paleontólogos, que estão ansiosos para saber mais.quinta-feira, 11 de abril de 2019

Camadas de rocha, no oeste dos EUA, conhecidas como Formação de Hell Creek, preservam o último ...
Camadas de rocha, no oeste dos EUA, conhecidas como Formação de Hell Creek, preservam o último milénio da era dos dinossauros. Próximo deste local, uma zona chamada Tanis, no Dakota do Norte, pode conter sedimentos que foram depositados – minutos ou horas – após o impacto do asteroide que desencadeou uma extinção em massa, há 66 milhões de anos.
Fotografia de Danita Delimont / Alamy Stock Photo

Poucos minutos depois de um asteroide, com quilómetros de extensão, ter atingido a Terra, há 66 milhões de anos, uma tempestade de minúsculas esferas de vidro caiu sobre um estuário inundado, onde atualmente fica o Dakota do Norte. À medida que as ondas sísmicas do impacto atingiam a água, plantas e animais foram misturados e enterrados em sedimentos movediços, preservando o rescaldo do acontecimento durante milénios.

Agora, os investigadores dizem que este local – recém-descrito num artigo na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) – representa uma imagem extremamente rara do momento que marcou o desaparecimento dos dinossauros. Já foram descobertos fósseis noutros locais que também capturam esse momento no registo geológico, conhecido como limite K-Pg. Mas o local no Dakota do Norte representa potencialmente todo um ecossistema afetado pela catástrofe.

"Essencialmente, o que temos ali é o equivalente geológico de um filme de alta velocidade dos primeiros momentos após o impacto", diz o principal autor do estudo, Robert DePalma, estudante de doutoramento na Universidade do Kansas e curador do Museu de História Natural de Palm Beach.

"Poder ver os organismos afetados pelo evento no final do Cretáceo é simplesmente impressionante", acrescenta o coautor do estudo, Philip Manning, paleontólogo na Universidade de Manchester.

No dia 29 de março, a revista New Yorker publicou um artigo descrevendo o local – com alguns detalhes que o próprio estudo não fornece. De acordo com DePalma, o novo artigo da PNAS será apenas o primeiro de vários estudos científicos que preencherão os detalhes sobre esse achado notável.

Portanto, o que revelam realmente os dados publicados até agora? E que mais poderá conter o local para os paleontólogos? Nós temos as respostas.

CHUVA DE VIDRO

O local, no Dakota do Norte, apelidado de Tanis em honra à antiga cidade "perdida" do Egito, fica situado em terrenos privados, dentro da Formação de Hell Creek – uma série de camadas rochosas que registam centenas de milénios de história, até à extinção dos dinossauros.

DePalma ouviu falar pela primeira vez do local através um comerciante de fósseis, que tinha feito prospeção na zona e encontrado poucas coisas de valor para vender. Baseado no peixe lá encontrado, o comerciante pensou que o local era apenas um depósito de um lago que se formou vários milhares de anos antes do limite K-Pg. Mas quanto mais DePalma mapeava o local, mais reconsiderava a sua importância. E se o local fosse de facto a parte mais baixa do vale de um rio?

Tal como é descrito no artigo, DePalma encontrou indícios do impacto do K-Pg nos sedimentos, incluindo pedaços de quartzo chocados sob a imensa pressão do impacto, e muitos outros detritos.

Quando o asteroide colidiu com a Terra, abriu um buraco na crosta terrestre com cerca de 80 quilómetros de largura e 28 quilómetros de profundidade, cuspindo pedaços de terra derretida a uma velocidade brutal. No alto da atmosfera, os destroços aglutinaram-se em minúsculas gotas de vidro, muitas delas com menos de um milímetro de largura. Essas partículas, chamadas de tectitos, começaram a chover, cerca de 15 minutos após o impacto, numa torrente de vidro que se manteve durante 45 minutos.

Em muitos locais do K-Pg, os tectitos formam uma camada discreta – mas não em Tanis. As várias camadas de sedimentos no local estão cheias de tectitos, que os investigadores interpretam como um sinal de água a fluir para a frente e para trás, enquanto os tectitos caíam. A resina das árvores no local captou alguns tectitos, antes de fossilizar sob a forma de âmbar. A equipa de DePalma afirma ter encontrado um tectito enterrado num buraco com 5 centímetros de profundidade, que foi perfurado nos sedimentos quando caiu do céu. Depois de ser cuspido para terra, um aglomerado de peixes foi enterrado de uma só vez, e os seus corpos foram tão bem preservados que ainda têm as guelras congestionadas com detritos do impacto.

“Basicamente, a zona armazenou coisas raras na formação rochosa, num depósito que podemos estudar durante décadas – e isso sem incluir o cenário de impacto”, diz DePalma.

“Eu estava a encarar o estudo com algum ceticismo, mas para dizer a verdade, depois de o ler, tenho sérias dificuldades em encontrar explicações alternativas”, diz Victoria Arbour, curadora de paleontologia no Museu Real da Colúmbia Britânica, que não esteve envolvida no estudo.

Ken Lacovara, um paleontólogo da Universidade de Rowan, que também não integrou a equipa do estudo, destaca que mais de 350 locais em todo o mundo preservam o limite do K-Pg, e alguns desses locais também possuem fósseis. Em 1987, os paleontólogos descreveram dentes de tubarão e conchas de amêijoa num local do K-Pg, na Polónia. Em 2013, investigadores na Dinamarca encontraram dentes de tubarão isolados dentro de argila criada pela precipitação do impacto. Mas Manning e outros investigadores, que observaram os fósseis de perto, dizem que Tanis é um lugar distinto.

"É simplesmente desconcertante", diz o paleobiólogo Greg Erickson, da Universidade Estadual da Flórida, que não faz parte da equipa, mas que viu os fósseis dos peixes em pessoa quando visitou o laboratório de DePalma há algumas semanas. "Eu nunca vi nada assim, e existem montes de coisas destas!"

AGITAÇÃO SÍSMICA

Embora DePalma e os seus colegas designem o local como sendo um estuário no vale de um rio, existem sinais de criaturas em Tanis que normalmente vivem no mar. O estudo documenta alguns fósseis marinhos fragmentados, incluindo dentes de antigos tubarões, répteis aquáticos chamados mosassauros e um tipo extinto de molusco chamado amonite. DePalma e as suas equipas dizem que a mistura de animais terrestres e oceânicos pode ter sido provocada pelas águas de um mar interior que derramou as suas entranhas nas margens dos rios em Tanis.

"A presença de amonite é muito estranha... é como colocar uma lula a montante do Rio Potomac", diz Kirk Johnson, diretor do Museu Nacional de História Natural Smithsonian e especialista na Formação de Hell Creek. Johnson acrescenta que, se se confirmar que o dente de mosassauro tem a mesma idade que o resto do local, podemos estar perante o material mosassauro mais jovem alguma vez encontrado.

Os sedimentos presentes no local também sugerem que este foi subitamente inundado por uma corrente de água. Os investigadores pensavam que o dilúvio tinha sido provocado pelo tsunami pós impacto, vindo do Mar Interior Ocidental – um corpo de água da era dos dinossauros que se estendia do Golfo do México ao noroeste da América do Norte. Mas a cronologia não batia certo: o tsunami demoraria entre 8 a 16 horas a chegar a Tanis, e a inundação do local deve ter ocorrido durante a primeira hora a seguir ao impacto.

Em vez disso, a equipa acredita que as inundações foram provocadas por ondas seicha, vagas de inundação causadas por terramotos de magnitude 10 ou 11, desencadeadas pelo impacto. Tal como os passos do T. Rex sacudiam os copos de água no filme Parque Jurássico, o impacto do asteroide pode ter gerado ondulações de massas de água que se estenderam pelo mundo inteiro.

AFIRMAÇÕES EXTRAORDINÁRIAS

Até ao momento, vários geólogos e paleontólogos receberam de braços abertos as ideias expressas no estudo sobre o impacto do asteroide.

“A beleza do estudo – que é um trabalho magnifico – é a de apresentar aquilo que é expectável: Rocha gigante colide com a Terra e acontecem coisas”, diz Paul Renne, geocronologista na Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estudou a cronologia detalhada do fim do Cretáceo.

No entanto, quase todos os paleontólogos contactados pela National Geographic (que não fazem parte da equipa envolvida no estudo) levantaram questões sobre a publicação da descoberta, e algumas dessas questões estendem-se a antevisões apresentadas por DePalma em conferências feitas em 2013 e em 2016. Alguns investigadores ficaram tão chocados com as suas alegações que até se questionaram sobre a autenticidade do local.

Alguns dos primeiros trabalhos de DePalma também foram alvo de preocupações, incluindo um erro de alto perfil. Em 2015, DePalma revelou uma nova espécie de dinossauro chamada Dakotaraptor, mas um estudo conduzido por Arbour, em 2016, revelou que DePalma havia acidentalmente incluído ossos fósseis de tartaruga na reconstrução do esqueleto de Dakotaraptor. Ainda assim, os colegas de DePalma defendem vigorosamente o seu trabalho em Tanis.

“Não existe uma única pessoa que a determinado momento não tenha cometido um erro”, diz Manning. “Ele fez um estudo notável.”

Também existem preocupações relativamente à falta de visibilidade do trabalho. O estudo e o seu suplemento de 69 páginas estavam formalmente agendados para serem publicados online, mas o artigo da New Yorker foi publicado dias antes. A National Geographic obteve ambos os documentos e forneceu-os a investigadores externos para saber as suas opiniões.

De acordo com a New Yorker, a zona de Tanis é rica em fósseis, incluindo dentes, ossos e restos de quase todos os grupos de dinossauros conhecidos da Formação de Hell Creek. O artigo também relata a presença de penas com 30 centímetros de comprimento, possivelmente de dinossauros, restos de pterossauros e um ovo não eclodido, de espécie indeterminada, com um embrião preservado no interior.

No entanto, nenhum destes detalhes aparece no estudo. Não é mencionado nenhum osso de dinossauro no estudo principal, e o suplemento realça apenas um fragmento de osso pélvico de um dinossauro com chifres, semelhante ao Triceratops, encontrado com “impressões associadas de tecido” (a New Yorker alega que um bocado de pele fossilizada, do tamanho de uma mala, está ligado ao fragmento ósseo.)

“O mais estranho é que DePalma tem sido muito exagerado e enigmático nos últimos seis anos”, diz Johnson, do Smithsonian, que também foi entrevistado para a reportagem da New Yorker. “O artigo não tem nada de mal, e podemos falar sobre o seu significado, mas quando o observamos lado-a-lado com o artigo da New Yorker, este último tem muito mais detalhes e conclusões. Isso deixa-nos um bocado preocupados.”

Steve Brusatte, paleontólogo na Universidade de Edimburgo e bolseiro da National Geographic, também expressa alguma consternação: “Neste momento, tenho mais perguntas do que respostas... parece estranho.”

Para confirmar as alegações do estudo, os paleontólogos dizem que DePalma deve ampliar o acesso ao local e aos materiais nele contidos.

“É um caso de afirmações extraordinárias que requer provas extraordinárias; não existem certezas enquanto não forem verificadas por outras pessoas”, diz Kevin Padian, paleontólogo na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

“Se eu estivesse na situação de DePalma, acho que precisaria de colocar a minha ‘armadura de ciência’ e preparar-me para receber muitas críticas – e penso que isso não tem nada de mal”, diz Arbour. “A natureza da ciência é a de que as pessoas devem abordá-la de diferentes formas e perspetivas.”

DePalma diz que o novo estudo é suposto ser uma introdução geológica a Tanis, não uma descrição completa, e que a equipa está a trabalhar em publicações de acompanhamento. Além disso, os fósseis escavados estão a entrar em coleções de museus, ficando disponíveis para estudos mais amplos. O osso de dinossauro com chifres, por exemplo, reside agora na Universidade Atlântica da Flórida.

Os investigadores acrescentam que estão a decorrer conversações com o proprietário do terreno sobre a melhor forma de proteger Tanis para a posterioridade. Entretanto, o local continua a revelar os seus segredos.

“Praticamente, cada dia que escavam no local, encontram algo que nunca tinham visto antes”, diz o coautor do estudo, Mark Richards, geofísico na Universidade de Washington, que visitou o local em 2017. “Podemos passar dias ou meses num local de escavações sem encontrar nada de interessante, e DePalma encontra coisas literalmente de hora em hora. É inacreditável.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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