Ciência

Fotos da Lua Dos Anos 1960 Foram “Reveladas” no Espaço – Eis Como

Para encontrar lugares seguros para os astronautas da Apollo aterrarem, a NASA projetou cinco satélites de pesquisa com tecnologia confidencial de defesa.Wednesday, April 3, 2019

Por Theresa Machemer
Para além das imagens das futuras zonas de aterragem da Apollo, os Orbitadores Lunares forneceram várias fotografias de tirar a respiração, que incluíam as características do lado lunar mais afastado e dados sobre a radiação e a gravidade da lua.

Antes que Neil Armstrong pudesse dar o seu primeiro passo histórico na Lua, a NASA precisava de saber exatamente onde é que a nave espacial Apollo 11 poderia aterrar em segurança. No início da década de 1960, os mapas da humanidade da superfície lunar baseavam-se em fotografias tiradas da Terra e de alguns satélites americanos e soviéticos, mas nenhuma delas conseguia captar a amplitude e os detalhes necessários para encontrar locais de aterragem livres de rochas e crateras perigosas.

Foi por essa razão que a agência espacial lançou o seu programa Orbitador Lunar, uma frota de cinco satélites semelhantes, do tamanho de uma carrinha, lançados em 1966 e 1967 para mapear a lua. O Orbitador Lunar 3, que tirou fotos entre 15 e 23 de fevereiro de 1967, confirmou locais seguros de aterragem para o programa Apollo, tendo enviado algumas das últimas fotografias tiradas da lua, antes de os humanos terem colocado os seus pés em solo lunar.

Esquerda: Em 2009, o Orbitador de Reconhecimento Lunar da NASA tirou fotografias do histórico local de aterragem da Apollo 11. A aterragem dessa missão em 1969 foi possível, em parte, devido ao programa Orbitador Lunar. Direita: Os Orbitadores Lunares também enviaram imagens do lado lunar mais distante, tal como esta fotografia tirada pelo Orbitador Lunar 3 em 1967.

Na era pré-digital, enviar fotografias do espaço para a Terra não era uma tarefa comum. Mas com uma engenharia de precisão – e uma tecnologia de reconhecimento ultrassecreta – os Orbitadores Lunares forneceram aos engenheiros e cientistas da NASA as imagens necessárias para que as aterragens da Apollo tivessem sido possíveis.

CÂMARAS NO ESPAÇO

Os Orbitadores Lunares não eram as primeiras naves com equipamento fotográfico destinado à observação da lua, mas eram únicos pelo equipamento que transportavam.

"Basicamente, pediram câmaras espiãs emprestadas ao Departamento de Defesa, ao seu programa de satélites", diz David Williams, chefe interino do Arquivo Coordenado de Dados do Espaço e Ciência da NASA. Na época, o Departamento de Defesa dos EUA estava a usar câmaras semelhantes no programa CORONA, conhecido pelo público como Discoverer, para tirar fotos de satélite da União Soviética.

Cada Orbitador Lunar tinha duas câmaras, uma com uma lente de alta resolução e outra com uma resolução média. Em vez do filme padrão de 35 milímetros, os satélites usavam 70 milímetros, o mesmo tamanho usado atualmente para fazer filmes IMAX.

Da esquerda para a direita, Cliff Nelson, Calvin Broome, Israel Taback e Joe Moorman, da NASA, a examinar o componente da câmara de um dos Orbitadores Lunares.

A algumas centenas de quilómetros acima da superfície da lua, os Orbitadores Lunares captaram características de até um metro de largura. Mas usar rolo fotográfico no espaço implicava um problema enorme.

"Depois de estarmos na lua, podemos tirar todas as fotografias que quisermos, mas não temos forma de enviar o rolo de regresso à Terra para ser revelado", diz Williams. “Por isso, eles tiveram de criar um sistema para que o rolo fosse revelado a bordo da nave.”

LABORATÓRIO FOTOGRÁFICO FLUTUANTE

A revelação de rolos fotográficos requer geralmente a lavagem de negativos com uma série de substâncias químicas líquidas, algo que provocaria danos dentro de um satélite em microgravidade. Em vez disso, os Orbitadores Lunares utilizaram o sistema de processamento de transferência Kodak BIMAT, sistema considerado confidencial pela CIA até 2001, pois tinha sido desenvolvido principalmente para operações de reconhecimento.

O rolo tinha de ser movido com precisão, primeiro da bobina de armazenamento para a lente, depois para uma área de espera, enquanto as restantes fotografias eram tiradas, e finalmente para o estágio de revelação, onde uma camada de infusão gelatinosa era pressionada contra o rolo. As tarefas eram executadas dentro de cubas de alumínio do tamanho de melancias. O desgaste de um único motor de movimento de rolo, como aconteceu com o Orbitador Lunar 3 depois de ter captado algumas centenas de imagens, era o suficiente para comprometer o sucesso de uma missão.

Quando olhamos para o interior de um satélite Orbitador Lunar, "é como espreitar de forma peculiar as relações durante a Guerra Fria", diz Matt Shindell, curador do Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian. "Vemos todo o hardware da Eastman Kodak que lá está... e vemos a câmara projetada pelos nossos serviços secretos, e depois todo o hardware da NASA à sua volta.”

Para enviar as fotografias de regresso à Terra, o programa CORONA enviava os rolos em cápsulas equipadas com escudos térmicos que as protegiam durante a reentrada na atmosfera. Estas cápsulas tinham propulsores de direção e estabilização, e paraquedas para retardar a sua queda. Foi construído um avião de recuperação para apanhar as cápsulas durante a descida de paraquedas mas, quando isso falhava, estas eram recuperadas por uma equipa de helicóptero, na água. No entanto, a NASA desenvolveu um sistema para enviar as fotografias através de rádio.

O foguetão que transportava o Orbitador Lunar 3 a descolar de Cabo Canaveral.

Nos Orbitadores Lunares, os rolos eram analisados por um scanner que registava os níveis de brilho de cada uma das suas minúsculas secções. Esses números eram depois enviados através de sinais de rádio para os centros de comunicação do espaço profundo da NASA em Espanha, na Austrália e nos EUA, onde as medições eram recebidas em fita magnética. Os processadores de imagens podiam então usar os números para recriar as exposições dos rolos na Terra e colar todas as tiras juntas, para revelar fotografias altamente detalhadas.

“Podemos pegar numa lupa para as observarmos cuidadosamente e vemos todos estes detalhes; é realmente inacreditável”, diz Williams. "Considerando que estávamos entre meados e finais dos anos 1960, foi realmente um feito incrível.”

EM NOME DA CIÊNCIA

Algumas das imagens obtidas, como a famosa fotografia da Terra atrás do horizonte lunar, tirada pelo Orbitador Lunar 1, mostram as linhas verticais do processo de reconstrução. Apesar de algumas teorias contrárias, é pouco provável que a NASA tenha interferido na qualidade das imagens antes de as divulgar ao público.

A Terra “ergue-se” sobre a lua na famosa fotografia tirada pelo Orbitador Lunar 1.

“Eles não foram tímidos em mostrar aquilo que achavam ser boas imagens representativas, para que as pessoas pudessem ver que o programa espacial dos EUA era capaz de realizar estes grandes feitos”, diz Shindell. Ao longo da missão, as imagens dos Orbitadores Lunares apareceram em jornais e revistas de todo o mundo.

“Mesmo que esta fosse uma corrida espacial e altamente competitiva”, diz Shindell, “ainda assim, havia uma espécie de atmosfera de que tudo isto estava a ser feito não apenas para o bem dos países envolvidos, mas sim para o bem de toda a ciência mundial."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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