Ciência

Inédito: Ave Fóssil Encontrada Com Um Ovo Dentro de Si

“Eu nem sequer conseguia dormir de noite”, diz a paleontologista-chefe sobre a sua reação à descoberta. Quinta-feira, 4 Abril

Por Michael Greshko

Há cerca de 115 milhões de anos, onde agora fica o noroeste da China, uma ave estava prestes a ser mãe. Por razões que se desconhecem, a sua vida na margem de um antigo lago sofreu alterações traumáticas, despoletando uma complicação na gravidez que matou o ovo que se formava dentro si – podendo até ter provocado a sua morte.

Sepultada desde então, esta ave mãe é agora um marco na paleontologia: com o nome de Avimaia schweitzerae, esta espécie recém-descrita é a primeira ave fóssil conhecida pela ciência com um ovo por eclodir.

"Não tínhamos expectativas nenhumas, mas afinal estávamos perante a primeira ave fóssil encontrada com um ovo dentro do seu corpo", diz a principal autora do estudo, Alida Bailleul, investigadora de pós-doutoramento no Instituto de Paleontologia e Paleantropologia de Vertebrados da China (IVPP). "Para mim, isso foi o mais engraçado.”

Descrito recentemente na Nature Communications, o ovo pode esclarecer algumas dúvidas sobre distúrbios reprodutivos em aves antigas. Se os seus pigmentos estiverem preservados, o fóssil poderá revelar mais sobre a forma como os pássaros antigos nidificavam. Pelas investigações anteriores já se sabia que as cores e manchas nas cascas dos ovos de dinossauro podem variar consoante o comportamento de nidificação de cada animal – dependendo se a espécie enterra ou choca os ovos. Esse padrão aplica-se aos únicos dinossauros vivos atualmente: os pássaros.

A descoberta é mais uma contribuição para o crescente número de aves fósseis espetaculares, reveladas nos últimos meses. Em janeiro de 2019, uma equipa liderada pelo paleontologista Jingmai O'Connor – supervisor e coautor de Bailleul – revelou uma pata de ave, com 99 milhões de anos, preservada em âmbar. Quase três meses antes, uma equipa liderada pela paleontologista Julia Clarke havia descoberto um novo pássaro fóssil; estava tão bem preservado que os padrões das suas penas ainda eram visíveis.

E em dezembro, O'Connor revelou outra ave antiga, com o que se julga ser um osso medular, um tipo especial de osso encontrado apenas em aves fêmeas reprodutivamente ativas. Acredita-se também que a espécie Avimaia agora encontrada ainda preserve o osso medular. Se assim for, seria o primeiro fóssil encontrado com este tipo de osso e um ovo, fornecendo um exemplo único da ligação entre o osso medular e a reprodução aviária.

Este método de investigação já tem mais de uma década, altura em que um artigo pioneiro de 2005, da paleontologista Mary Schweitzer, encontrou sinais de osso medular no Tyrannosaurus rex. Para honrar as contribuições de Schweitzer à paleontologia, Bailleul nomeou o novo fóssil com o seu nome.

“É a coisa mais fixe de sempre, certo? Fiquei tão surpreendida – é uma honra enorme”, diz Schweitzer.

TROPEÇANDO EM CASCAS DE OVO

O caminho de Avimaia até às luzes da ribalta demorou mais de uma década. Em meados da década de 2000, os paleontologistas da IVPP descobriram fósseis na Formação Xiagou, no noroeste da China, que contém vários fósseis de um extinto grupo de aves chamado enantiornitina. Na época, os investigadores, incluindo O'Connor, repararam que um dos fósseis tinha uma estrutura estranha, semelhante a uma membrana. Mas a equipa continuou com outros estudos e manteve o fóssil armazenado.

Em 2018, Bailleul chegou ao IVPP à procura de um primeiro projeto. Sendo especialista em tecidos macios, ela e O’Connor vasculharam o armazém do instituto à procura de espécimes para estudar.

“Estávamos a remexer em caixas e O’Connor disse, olha para isto, eu lembro-me deste fóssil!” diz Bailleul. Ela e a sua colega, Shukang Zhang, começaram então a analisar o fóssil e, para alegria da equipa, perceberam que o enigmático “tecido macio” no fóssil era na realidade casca de ovo.

“Eu nem sequer conseguia dormir de noite... estava do género, meu deus, isto é um ovo”, diz Bailleul.

Algumas partes do ovo tinham até seis camadas – um indício do que poderá ter provocado a morte da mãe. Nos pássaros vivos, um evento traumático pode fazer com que uma fêmea prolongue a permanência de um ovo dentro de si, envolvendo-o em várias camadas de casca extra. Esta “guarnição de ovo” não só sufoca o embrião em desenvolvimento, que os investigadores não encontraram no fóssil, como pode também, em casos extremos, matar a mãe.

SEGREDOS ENORMES EM ESCALA REDUZIDA

As secções transversais dos ossos de Avimaia também podem mostrar a forma como a ave construiu o ovo.

Para ajudar a gerar as suas cascas de ovos, as aves modernas, reprodutivamente ativas, enchem os seus esqueletos com um reservatório de cálcio chamado osso medular. Além do T. Rex, estudos anteriores também encontraram o que parece ser osso medular em fósseis de pterossauros. Mas identificar com sucesso osso medular fóssil é complicado; é uma estrutura temporária e algumas doenças ósseas podem produzir tecidos semelhantes. Portanto, saber com exatidão se algo que se parece com osso medular antigo está realmente ligado à reprodução, é muito difícil.

Em Avimaia a equipa de Bailleul encontrou camadas ósseas medulares exatamente onde os cientistas esperariam que o osso medular estivesse, e as superfícies ósseas não pareciam ter padecido de doenças. E mais importante, graças ao ovo, o estatuto reprodutivo da ave é indiscutível.

Schweitzer diz que o caso de Bailleul é convincente: “Neste momento, o que mais poderia ser? Eu gostava de ver análises químicas, e eventualmente serão feitas... mas a preponderância da evidência suporta que seja osso medular".

O ovo de Avimaia pode conter mais segredos moleculares, acrescenta a paleontologista Jasmina Wiemann, estudante de doutoramento em Yale. Por exemplo, os cristais minúsculos, encontrados na amostra pela equipa de Bailleul, podem ter dado à casca do ovo um brilho polido, como acontece atualmente com os ovos de tinamu, diz.

Além do brilho, os estudos químicos também revelaram sombras. No seu trabalho anterior, Wiemann reconstruiu as cores e manchas de ovos de dinossauro, que provavelmente correspondem a estratégias de nidificação. Se o ovo de Avimaia preservar pigmentos, os testes poderão revelar como é que a ave nidificava – e até mesmo como criava as suas crias.

“Este é um fóssil espetacular, com um potencial enorme para as futuras investigações de paleobiologia”, diz Wiemann por email.  “Eu adorava poder analisar os pigmentos contidos nesta casca de ovo!”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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