Ciência

A Lua Liberta Quantidades Surpreendentes de Água Durante as Chuvas de Meteoros

Os dados da NASA sugerem que a nossa companheira lunar tem um reservatório ancestral de água, poucos centímetros abaixo da superfície.quarta-feira, 24 de abril de 2019

Por Shannon Stirone
Um ponto de luz brilhante, no lado esquerdo da lua, mostra o momento de impacto de um meteoro, durante um eclipse “lua de sangue”. Agora, os dados da NASA sugerem que esses impactos libertam uma quantidade surpreendente de água da superfície lunar.

O magnifico deserto lunar é muito mais húmido do que os cientistas imaginavam. Uma sonda da NASA, enviada para estudar a atmosfera e poeiras da Lua, também detetou sinais de água a ser libertada da sua superfície, quando esta é atingida por meteoros. Esta revelação sem precedentes, publicada na revista Nature Geoscience, mostra que os pequenos impactos libertam até 220 toneladas de água por ano – muito mais do que se julgava existir na superfície, tendo por base os sistemas de entrega previamente conhecidos.

"Havia tanta água que o instrumento da sonda agia como uma esponja, enquanto absorvia a água que se movia pela atmosfera", diz o líder do estudo, Mehdi Benna, cientista planetário no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA. “Quando ligámos o instrumento, o que descobrimos foi extremamente excitante.”

A descoberta oferece pistas frescas para a nossa compreensão de como a lua se formou, e aponta alvos tentadores para futuras missões humanas, que poderiam usar a generosa recompensa lunar para fins de hidratação e propulsão.

“Nós imaginamos sempre a lua como um lugar tranquilo e desolador”, diz Benna.  “E agora, com estes dados, percebemos que na realidade a lua está muito ativa e responsiva.”

CHUVA DE METEOROS

Há muito tempo que sabemos que existe alguma quantidade de água na lua, a maior parte está estanque, sob a forma de gelo, em crateras na escuridão ou escondidas muito abaixo da superfície. A água pode ser entregue à lua de duas formas – O hidrogénio dos ventos solares pode misturar-se com o oxigénio na superfície e formar um parente químico chamado hidroxilo, que por sua vez interage com as rochas lunares para criar minerais hidratados. Os cometas e os asteroides também podem depositar água na lua, quando embatem nela.

Mas os novos dados, recolhidos pela LADEE, uma sonda da NASA que agora está fora de atividade, revelaram algo de inesperado. Enquanto LADEE orbitou a lua, testemunhou chuvas de meteoros, tal como vemos na Terra. Em determinadas alturas do ano, o nosso sistema planetário atravessa órbitas de cometas, algumas das quais repletas de detritos. Grande parte desses detritos é queimada na nossa atmosfera, desencadeando os espetáculos anuais que chamamos de Geminídeos, Perseidas, Leónidas e mais. Contudo, na lua sem ar, estas chuvas de meteoros bombardeiam a superfície.

"Cada fluxo consiste em milhões de partículas, como uma chuva de pequenos detritos", diz Benna. "Observámos 29 fluxos conhecidos de meteoros, e cada fluxo está ligado a um cometa."

Quando estas pequenas partículas colidiram com a superfície lunar, levantaram a camada superior do solo fino, ou rególito, revelando muito mais água, a poucos centímetros de profundidade, do que a equipa esperava encontrar.

“Esta perda de água não é compensada pela implantação de hidrogénio dos ventos solares, ou pela água que vem com os micrometeoritos”, diz Benna. “Portanto, deve haver mais água no solo lunar que não é reabastecida por essas duas fontes conhecidas. A única forma de explicar isto é através da existência de um antigo reservatório de água, que basicamente se foi esgotando ao longo do tempo geológico.”

RESERVATÓRIO LUNAR

Benna e sua equipa estimam que a lua pode ter uma quantidade razoável de água, apenas a alguns centímetros abaixo da superfície. Isto significa que a lua contém mais água do que poderia ter recebido durante a sua vida, através de ventos solares ou cometas, representando um problema que os cientistas planetários tentam resolver há décadas.

Durante os dias iniciais da formação do nosso sistema solar, massas gigantescas de jovens planetas colidiram umas contra as outras, lançando detritos para o espaço. Todo o material que criou a Terra e a lua rodopiou numa dança cósmica. Resumindo, a lua e a Terra partilham um pouco de história em comum, mas tem sido difícil explicar por que razão a lua parecia ter tão pouca água, em relação às reservas da Terra. Embora não se saiba ao certo as ligações exatas, a quantidade de água na lua pode estar ligada à sua antiga história vulcânica, ou à troca de materiais entre a lua e a Terra nos primeiros dias do sistema solar.

"Este estudo é importante porque está a medir a libertação de água na atualidade", diz Carle Pieters, cientista planetário na Universidade Brown, que não esteve envolvido no estudo. “Eles começaram o debate com a pergunta adequada: Bem, o que se passa aqui? A água é recente? É antiga? Está relacionada com um processo de superfície ou é um reservatório antigo? São as perguntas certas”.

Os dados da equipa podem agora ajudar os cientistas que trabalham em teorias sobre a origem da lua e sobre a forma como esta pode ter obtido tanta água. Para além disso, enquanto a NASA se prepara para enviar humanos de regresso à sua superfície, algumas das missões serão inteiramente dedicadas ao mapeamento da água lunar, e dedicadas a descobrir como a lua poderá fornecer recursos necessários para a sobrevivência de futuros tripulantes.

“Isto é muito excitante porque eles estão a acompanhar todo este progresso – observando todo o movimento da água na exosfera, antes desta cair novamente na superfície ou de se perder no espaço”, diz Pieters. “Isto é realmente uma parte importante da história.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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