Ciência

Meteoro Interestelar Pode Ter Atingido a Terra

A ser confirmado, a bola de fogo que atravessou a nossa atmosfera em 2014 pode ser o segundo visitante conhecido para além do nosso sistema solar.quarta-feira, 24 de abril de 2019

Por Nadia Drake
O asteroide de formato estranho 'Oumuamua, visto aqui numa ilustração, foi a primeira rocha espacial conhecida de outro sistema estelar. Agora, os astrónomos suspeitam que uma bola de fogo, que atravessou nossa atmosfera em 2014, é o segundo visitante interestelar registado.

Por vezes, uma jornada de milhares de anos-luz termina em chamas. Poucos minutos depois das 3 da manhã, no dia 9 de janeiro de 2014, uma bola de fogo rasgou os céus na costa nordeste da Papua Nova Guiné – era um meteoro a desintegrar-se na atmosfera terrestre, tal como muitos meteoros o fazem.

Se for confirmado, o meteoro será apenas o segundo objeto com essas características a ser avistado por humanos. O primeiro, uma rocha espacial com uma forma bizarra, agora denominada ’Oumuamua, passou pelo nosso sistema solar em 2017 e está agora de regresso às estrelas. No sentido oposto, o meteoro de 2014 terminou a sua viagem no nosso planeta, sendo possivelmente a primeira rocha conhecida, para além do nosso sistema solar, a colidir com a atmosfera terrestre.

“Eu fiquei muito surpreendido. Não esperava algo assim. Pensei que não íamos ver nada”, diz Avi Loeb, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, que descreve a descoberta num artigo submetido à Astrophysical Journal Letters. “Mas, olhando em retrospetiva, tal como com qualquer descoberta, dizemos, sim, claro. Como pude ser tão tolo e não investiguei logo isso?”

ORIGEM ALIENÍGENA

Loeb e Amir Siraj, um estudante de Harvard, descobriram o meteoro num catálogo compilado pelo Centro de Estudos de Objetos Próximos da Terra, que é mantido pelo Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. Esse catálogo contém um registo das horas, datas, locais e velocidades dos meteoros que se aproximam.

No início deste ano, enquanto examinavam os registos do catálogo sobre bolas de fogo meteóricas, conhecidas como bólides, Siraj reparou numa que tinha uma velocidade excepcionalmente alta. Viajando a quase 60 quilómetros por segundo, em relação aos movimentos do Sol e da Terra, a bola de fogo movia-se demasiado depressa para se conseguir ligar gravitacionalmente à nossa estrela natal. Suspeitando que poderiam estar perante outro objeto interestelar, Siraj e Loeb usaram as informações do catálogo para calcular uma órbita para o excêntrico meteoro.

“Nós conhecemos o movimento da Terra e fazemos correções – pela gravidade da Terra e do sol, e pela gravidade de todos os outros planetas”, diz Loeb. Usando essa informação, os detetives cósmicos podiam traçar o caminho provável do meteoro.

Eventualmente, calcularam que o meteoro do Pacífico Sul não tinha obtido ajudas de velocidade, como o efeito de fisga em torno de outros planetas no nosso sistema solar, um truque que a NASA costuma usar para enviar naves a grandes distâncias. Também descobriram que o meteoro estava numa órbita hiperbólica não ligada, prova definitiva de que não originava do interior do nosso sistema solar. Em vez disso, a equipa suspeita que vem do interior profundo de outro sistema estelar, talvez de uma população que está a envelhecer na Via Láctea, conhecida como estrelas de discos espessos.

"Creio que é razoável concluir que esse impacto de alta velocidade pertence a uma população de objetos interestelares", diz Kat Volk, da Universidade do Arizona, que estuda como os objetos se misturam, rodopiam e percorrem o nosso sistema solar. "Espero que os objetos interestelares sejam bastante comuns – não só pelas considerações teóricas, como pelas implicações do 'Oumuamua – razão pela qual a origem interestelar seja a explicação mais simples para este bólide."

UMA "BOLA DE PRAIA" EXTREMAMENTE PESADA

Com algumas centenas de metros de diâmetro, e com um comportamento fora do normal, o asteroide interestelar inicial, o 'Oumuamua, estimulou alguns estudos de acompanhamento e até originou algumas especulações, inclusive de Loeb, sobre se este poderia ser de origem artificial. Mas esse não é o caso com esta rocha espacial recém-identificada.

Com cerca de um metro de largura e pesando cerca de 45 quilos, o meteoro era uma pequena fração do tamanho do ‘Oumuamua. Isso significa que não tinha dimensões minimamente suficientes para sobreviver à jornada de entrada na atmosfera da Terra – desintegrando-se completamente nos céus a norte da Ilha Manus, sendo por isso demasiado tarde para estudar o objeto e tentar determinar a sua composição.

Loeb diz que tais objetos serão provavelmente numerosos, com números astronómicos de rochas de tamanhos semelhantes a serem cuspidas por uma única estrela. Se os astrónomos conseguirem encontrar outro objeto semelhante, antes deste colidir com a nossa atmosfera, poderão reunir informações científicas ainda mais valiosas observando a sua morte em chamas.

“Se identificássemos algo assim em tempo real”, diz Loeb, “poderíamos fazer uma análise de espectro e perceber a sua composição”, enquanto ardia na atmosfera terrestre.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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