Ciência

Nasceu o Primeiro Primata Com Recurso à Criopreservação de Testículos

O novo estudo abre boas perspetivas para os homens que enfrentam a infertilidade enquanto efeito secundário de tratamentos contra o cancro.Thursday, April 4

Por Maya Wei-Haas
Injeção de esperma num óvulo durante um processo de fertilização in vitro. Apesar deste método ser agora comum no tratamento de casos de infertilidade, os homens que não conseguem produzir esperma devido a cancros na infância, ou outras doenças, ainda não têm opções de tratamento alternativas.

A 15 de janeiro de 2018, os médicos no Centro Nacional de Investigação de Primatas, em Oregon, fizeram um ultrassom de rotina a uma macaca-rhesus. Tudo parecia normal.

Contudo, esta cria era tudo menos normal: O bebé estava prestes a ser o primeiro primata a nascer de um procedimento de criopreservação de tecido testicular, retirado de um macaco pré-adolescente. Os investigadores retiraram um excerto do tecido sob a pele do hospedeiro, para amadurecer, e depois recorreram à fertilização in vitro para gerar a bebé macaca, que foi apelidada de Grady.

Anunciado no dia 21 de março, na revista Science, o feito abre uma janela de esperança para os homens que enfrentam a infertilidade enquanto efeito colateral da quimioterapia e radioterapia no tratamento de cancro infantil. Os homens adultos podem optar por congelar os seus espermatozoides, antes de iniciarem os tratamentos, devido ao potencial dano das gônadas. Mas para os rapazes, que ainda não começaram a produzir espermatozoides, as coisas são diferentes.

Grady, com duas semanas de idade, enrolada numa toalha, com os olhos bem abertos.

Com a taxa de sobrevivência ao cancro infantil acima dos 80%, a necessidade de assistência à fertilidade está a aumentar. Clínicas pelo mundo inteiro já estão a congelar tecido testicular de rapazes pré-adolescentes, de pelo menos mil pacientes, de acordo com as estimativas do autor do estudo, Kyle Orwig, investigador principal no Instituto de Investigação Magee-Womens, na Universidade de Medicina de Pittsburgh.

Apesar de existirem potenciais métodos para a utilização de tecido congelado nos processos de pesquisa, ainda nenhum está acessível aos pacientes. Agora, o nascimento de Grady indicia que as coisas podem mudar rapidamente.

“É um marco no desenvolvimento de futuras aplicações clínicas”, diz Christine Wyns, diretora do departamento de ginecologia e andrologia na Clínica Universitária de Saint-Luc, na Bélgica, que não esteve envolvida no estudo.

BIODIVERSIDADE DE ANIMAIS MODELO

Descritos pela primeira vez em 2002, os estudos que testam as variantes deste método têm-se acumulado ao longo dos anos, incluindo trabalhos com ratos, porcos, cabras, coelhos, hamsters, cães, gatos, cavalos, gado e outros macacos. Desta biodiversidade os investigadores recolheram tecidos testiculares imaturos e colocaram esses excertos debaixo da pele de ratos, para permitir o seu amadurecimento e produção de esperma.

No entanto, o nascimento de crias vivas tem sido pouco comum, e foram poucos os estudos que reimplantaram tecido testicular no mesmo animal hospedeiro, para amadurecimento.

A grande maioria destes estudos também recorreu a tecidos que nunca tinham sido congelados para preservação. Conhecida como criopreservação, esta etapa será vital para proteger a viabilidade dos tecidos de rapazes humanos e a sua fertilidade futura. Ainda mais importante: nenhum cientista tinha usado tecidos crio preservados, reimplantados no seu hospedeiro, para semear o nascimento de macacos bebé – os macacos são os animais mais próximos dos humanos na árvore evolucionária. Esta versão do método é a que será provavelmente usada em humanos, e é isso que a nova investigação aborda.

A equipa removeu um dos testículos a cinco macacos pré-adolescentes, cortaram-nos em pequenas partes e recorreram à criopreservação, durante 5 a 7 meses, enquanto os macacos se aproximavam da puberdade. Os cientistas removeram então o segundo testículo e cortaram-no. Depois, enxertaram os pequenos pedaços de tecido testicular, tanto frescos como crio preservados, debaixo da pele de cada macaco hospedeiro.

"O objetivo aqui não é ligá-los ao canal normal ou restaurar a espermatogénese normal", diz Orwig. Em vez disso, a devolução do tecido ao seu hospedeiro serve para amadurecer com as hormonas naturais do seu corpo. Nos 12 meses seguintes a equipa removeu com sucesso 39 enxertos – todos desenvolvidos o suficiente para produzir espermatozoides. Depois, recuperaram espermatozoides da maioria dos enxertos removidos.

“É aqui que muitos estudos param e dizem algo do género... pronto, já temos esperma”, diz Orwig. “Mas a existência de esperma não significa obrigatoriamente que este consiga fertilizar ou gerar um bebé.”

Os investigadores no centro de primatas em Oregon usaram depois o esperma da experiência para fertilizar óvulos de macaco, e implantaram 11 embriões em desenvolvimento em seis macacas adultas. Uma deu à luz uma bebé saudável: Grady.

FERTILIDADE FUTURA

Embora os resultados tenham gerado muita excitação, também existe muita cautela sobre quando é que os humanos devem entrar na equação. O método não funcionaria em todos os rapazes. Crianças com cancros que podem formar células malignas nos seus testículos, por exemplo, não devem ter esse tecido novamente enxertado no corpo, razão pela qual estão a ser desenvolvidos outros métodos para abordar esta questão.

Para além disso, ainda existem preocupações persistentes sobre os efeitos que poderá ter na criança nascida através deste procedimento. Nos meses seguintes ao seu nascimento, Grady comportou-se e cresceu normalmente, mas Wyns enfatiza a necessidade de avaliar completamente os cromossomas do esperma para garantir que o método não interfere involuntariamente com os genes ou com a sua expressão – um passo que Orwig afirma ser desafiador, mas concorda que vale a pena prosseguir com os estudos de acompanhamento.

Por outro lado, existem macacos que não têm testículos. Por diversas razões, os animais foram castrados em estudos anteriores, incluindo neste estudo mais recente. Mas os potenciais pacientes humanos ainda terão provavelmente os seus testículos intactos, diz Susan Taymans, diretora do programa de fertilidade e infertilidade do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano Eunice Kennedy Shriver, que ajudou a financiar este trabalho. Orwig e os seus colegas reconhecem a necessidade de efetuar mais experiências em macacos para testar como isso pode influenciar os resultados.

“Apesar de continuarmos a precisar de aprofundar os estudos”, diz Orwig, “acredito que esta técnica já está pronta para avançar nas clínicas”.

Agora talvez seja realmente o momento de fazermos testes clínicos, concordam Nina Neuhaus e Stefan Schlatt, do Centro de Medicina Reprodutiva e Andrologia, na Alemanha, num artigo da News and Views que acompanha o estudo. A fertilização in vitro já é comum nos humanos, dizem Nina e Stefan, e as taxas de nascimento serão provavelmente mais elevadas do que as apresentadas nos testes com macacos.

“É algo que devemos a esses pacientes, trazer inovações para a clínica – desde que fique demonstrado que são seguras e viáveis – o mais rápido possível”, diz Orwig, realçando que esta é a sua perspetiva pessoal e que nem todas as pessoas na sua área possam concordar.

Entretanto, Orwig enfatiza a necessidade de aconselhar os pacientes jovens e as suas famílias sobre os impactos iminentes dos tratamentos cancerígenos na sua fertilidade futura.

Se não o fizermos, diz, “estamos a roubar-lhes todo o potencial de vida que esperam ter... eu acredito profundamente que esta é uma coisa importante a fazer, e os pacientes de cancro, os sobreviventes e as suas famílias também o desejam muito”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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