Ciência

O Nosso ADN Contém Linhagens de Antepassados Humanos Misteriosos

Amostras de ADN modernas sugerem que os hominídeos de Denisova eram surpreendentemente diversos – e podem ter sido os últimos humanos na Terra, em vez do Homo sapiens.sexta-feira, 26 de abril de 2019

Por Maya Wei-Haas
Estes olhos penetrantes pertencem à reconstrução de um Neandertal, um parente humano antigo que partilhou o planeta com os hominídeos de Denisova e com os humanos modernos. Investigações genéticas sugerem que os neandertais se extinguiram antes dos Denisova.

Há quase uma década, um fragmento de osso de um dedo mindinho, encontrado na Sibéria, introduziu o mundo a uma nova e surpreendente espécie de humano. Chamados de Denisova (nome da caverna onde o osso foi encontrado, nas montanhas Altai), estes parentes antigos dos neandertais habitaram a Ásia durante dezenas de milhares de anos. No entanto, não foram encontrados vestígios fósseis seus, exceto o osso, alguns dentes e um fragmento de crânio, todos na caverna Denisova.  

Um estudo publicado no dia 11 de abril, na página Cell, acrescenta uma reviravolta surpreendente a todo este mistério: amostras abrangentes de ADN, de habitantes vivos no Sudeste Asiático, sugerem que os hominídeos de Denisova podem não ser uma, mas sim três espécies distintas de humanos, uma das quais é quase tão diferente dos Denisova como estes eram dos neandertais.

Apesar dos Denisova terem vivido ao mesmo tempo que os humanos durante milénios, um dos grupos pode ter vivido mais tempo que os neandertais, que desapareceram há cerca de 40.000 anos. De acordo com o estudo, estes Denisova coexistiram e misturaram-se com os humanos modernos na Nova Guiné, até há cerca de 30.000 anos – talvez mesmo até há 15.000 anos – uma data que, a ser confirmada, significa que os Denisova foram os últimos humanos a caminhar pela Terra, para além de nós próprios.

Membros do povo Asmat, na Papua Ocidental, participam no festival de ressurreição Jipae. Os investigadores sugerem que os genomas destes habitantes modernos contêm traços de dois grupos distintos de antepassados Denisova. Esses enigmáticos hominídeos, parentes dos neandertais, são conhecidos por apenas alguns fósseis e pelo ADN que transmitiram ao longo de milhares de gerações.

Esta descoberta inesperada junta-se a várias descobertas recentes que continuam a apontar para uma diversidade estonteante de hominídeos na Ásia antiga, incluindo o anúncio de uma nova espécie, o Homo luzonensis, feito no dia 10 de abril, nas Filipinas.

"De repente, parece que ficou assente que o centro de diversidade para as populações arcaicas reside nas ilhas do Sudeste Asiático", diz o coautor do estudo Murray Cox, da Universidade Massey, na Nova Zelândia, referindo-se às Filipinas, Malásia e outros arquipélagos que compõem a vasta região marítima do subcontinente asiático.

Sharon Browning, da Universidade de Washington, expressa excitação e cautela acerca dos resultados e sobre o que estes podem significar. Em 2018, Browning e os seus colegas identificaram duas vagas de cruzamento de espécies entre hominídeos de Denisova e humanos modernos, algo que o novo estudo ajuda a sustentar.

“É apenas um pedacinho do enredo”, diz Browning sobre o novo trabalho. “Mas todos os pedacinhos que encontramos ajudam a compor a história.”

Os antepassados dos Denisova ter-se-ão separado dos seus parentes neandertais há pelo menos 400.000 anos. E embora os neandertais se tenham espalhado pela Europa e pelo Médio Oriente, os Denisova espalharam-se pela Ásia, procriando eventualmente com antepassados humanos de origem asiática. Ao fazê-lo, os Denisova deixaram as suas impressões digitais genéticas nas gerações vindouras de Homo sapiens – fornecendo pistas adicionais sobre o estudo da sua espécie.

 A SAÚDE HUMANA E A HISTÓRIA

Cox e os seus colegas não estavam inicialmente à procura da diversidade Denisova. Em vez disso, a equipa estava interessada em melhorar os cuidados de saúde na Indonésia e nos seus arquipélagos vizinhos do Sudeste Asiático. Uma compreensão mais aprofundada, sobre as variantes genéticas relacionadas com as doenças na região, poderia dar origem a tratamentos direcionados especificamente para essas populações.

“É muito importante para nós”, diz a autora do estudo, Herawati Sudoyo, investigadora sénior no Instituto Eijkman, na Indonésia, que neste trabalho mais recente fez parceria com uma equipa internacional. Apesar da Indonésia ser um país amplamente diverso que alberga pessoas geneticamente muito distintas, Sudoyo realça que “não estavam a ser feitos testes genéticos porque... a tecnologia ainda não existia aqui na Indonésia”.

Entre as diferenças genéticas, que distinguem os diversos grupos, estavam indícios de que a separação entre populações ocorreu num passado longínquo. O cruzamento de espécies entre o Homo sapiens, vindo do seu lar africano, e outros humanos ancestrais, inseriu vestígios de ADN nesses parentes arcaicos, vestígios passados de geração em geração, até ao presente. Atualmente, as populações não-africanas tem até 2% de ADN Neandertal, parte do qual é benéfico e ajuda o sistema imunitário a proteger-se contra doenças infecciosas.

A professora Maria Fransiska (Chika) Danuk, de 23 anos, prepara-se para o seu casamento. Originalmente da ilha vizinha Flores, Chika vive agora entre o povo Asmat, na Papua Ocidental. Os investigadores esperam conseguir aprender mais sobre os traços genéticos deixados pelos Denisova no ADN dos habitantes atuais da ilha, para os ajudar a ter uma vida mais saudável.

Mas os neandertais não foram o único parente humano com quem o Homo sapiens fez cruzamento de espécies, após ter saído de África há cerca de 64.000 anos. A maior parte das pessoas com descendência asiática tem alguma parte de ADN de Denisova, sobretudo os melanésios, cujos genomas têm até 6% de ADN de Denisova. Acredita-se que os antepassados dos melanésios modernos conheceram e procriaram com estes seres antigos a caminho da sua ilha natal.

Para mergulhar mais aprofundadamente neste legado, Cox e a sua equipa sequenciaram 161 genomas de 14 grupos de ilhas da Indonésia e Nova Guiné. Depois, combinaram esses dados com 317 genomas de todo o mundo e compararam-nos com os genomas dos neandertais e dos Denisova de Altai. Quando a equipa alinhou o ADN de Denisova antigo com os pedaços de Denisova dos papuas modernos, esperava encontrar um pico singular. Em vez disso, encontraram dois picos separados e completamente distintos.

“Das duas uma, ou isto era o artefacto mais aborrecido do mundo, ou então ia ser algo muito, muito fixe”, diz Cox.

Esquerda: A caverna Denisova, mostrada aqui, é o único lugar do mundo onde até agora foram encontrados fósseis do hominídeo de Denisova. Mas as inúmeras descobertas sobre as suas impressões digitais genéticas nas populações modernas sugerem que há algo mais para desvendar. Direita: Os Denisova são conhecidos através de poucos restos mortais – três dentes, um osso de um dedo mindinho e um fragmento de crânio. Os dentes robustos são uma das suas características surpreendentes, como este molar encontrado na caverna Denisova.

INTERPRETAR A MISTURA GENÉTICA

De acordo com o novo estudo, os dois picos são na realidade fixes: Provavelmente representam dois grupos distintos de Denisova na Nova Guiné, e geneticamente são muito diferentes dos Denisova da montanha Altai.

Um grupo, que se misturou com os humanos modernos que agora vivem no Sudeste Asiático e na Índia, separou-se dos Denisova de Altai há cerca de 363.000 anos – quase 50.000 anos depois da linhagem Neandertal se ter separado do seu antepassado comum.

“Estou completamente de acordo com isso”, diz Bence Viola, paleoantropólogo na Universidade de Toronto e o maior perito, no pouco que se sabe, sobre morfologia fóssil de Denisova. Viola diz que em 2010, altura em que ele e a sua equipa descreveram pela primeira vez os achados de Denisova, os cientistas já tinham reparado que o ADN dos antepassados hominídeos dos melanésios modernos era distinto do ADN extraído do osso e dente da caverna Denisova. Em 2014, Viola e os seus colegas estimaram que as populações de Denisova se separaram entre 276.000 a 403.000 anos atrás, assentando na nova data agora proposta.

Mas o verdadeiro quebra-cabeças deste novo estudo é o suposto terceiro grupo de Denisova, que parece ter feito cruzamento de espécies exclusivamente com o grupo de antepassados dos habitantes agora na Nova Guiné, misturando-se possivelmente com estas populações milhares de anos depois dos Denisova e dos neandertais terem desaparecido.

Este resultado está a surpreender os cientistas. Para começar, os autores do estudo propõem que isso significa que os Denisova encontraram uma forma de atravessar águas profundas de correntes fortes – um obstáculo que os cientistas acreditam há muito ser transponível apenas pelos humanos modernos, com barcos para navegar. Mas várias descobertas feitos neste século desafiam essa teoria: o Homo floresiensis de baixa-estatura, da Indonésia, que habitou a ilha Flores provavelmente até há 700.000 anos; as ferramentas de pedra com 118.000 a 194.000 anos na ilha Indonésia Celebes; e mais recentemente, o recém-nomeado Homo luzonensis, de 50.000 anos, nas Filipinas.

Mas ainda não se sabe concretamente se isto é verdade para os hominídeos de Denisova.

“O problema passa simplesmente por não termos provas arqueológicas ou fósseis de humanos pré-modernos na Nova Guiné ou na Austrália”, diz Viola. Isso não quer dizer que não existam, diz, mas “existe ali muita coisa que não sabemos”.

Benjamin Verenot, geneticista evolucionário que desenvolveu alguns dos métodos usados nesta análise recente, tem preocupações adicionais sobre a forma como os dados foram analisados. Embora a equipa tenha identificado pedaços grandes e pequenos de ADN de Denisova nos genomas modernos, a sua análise limitou-se aos segmentos de ADN mais longos, identificados como sendo de Denisova, para assegurar de forma fidedigna que a sua identificação estava correta.

Apesar de Vernot concordar com este tipo de abordagem, diz: “Suspeito sempre quando os resultados nos obrigam a fazer mais análises, obrigam a identificar dezenas de milhares de coisas, e depois pegar em 500 dessas coisas e fazer mais análises.”

Ainda assim, Vernot e outros investigadores estão otimistas em relação ao que se pode recolher dos novos conjuntos de dados genéticos, que podem ser descarregados e estudados exaustivamente. “É assim que funciona a ciência”, diz.

Cox, Sudoyo e as suas equipas estão neste momento a tentar compreender a forma como os vestígios de ADN de Denisova influenciam a saúde humana moderna. Embora necessitem de fazer muito mais trabalho, as pistas que encontraram revelam indícios prometedores sobre o papel central desempenhado por este ADN no sistema imunitário e no metabolismo lipídico. E Cox está entusiasmada em relação ao que o futuro reserva para a investigação indonésia.

“O meu palpite é o de que vão surgir mais histórias interessantes desta região.”

 

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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