Ciência

Rios Podem Ter Existido em Marte Durante Mais Tempo do que Pensado

Uma nova análise das características da superfície levanta questões sobre quando e porque razão jorrava água no planeta vermelho.Tuesday, April 9

Por Maya Wei-Haas
O rover Mars 2020 da NASA está programado para pousar na cratera de Jezero, uma depressão com 45 quilómetros que os cientistas acreditam ter abrigado um lago. Esta fotomontagem, captada usando dois instrumentos no Orbitador de Reconhecimento de Marte da NASA, mostra o antigo delta do rio Jezero, que os investigadores aguardam ansiosamente para explorar em busca de sinais de vida microbiana do passado.

A superfície atual de Marte é uma memória ressequida de água. O pouco que resta do líquido da vida goteja em infiltrações sazonais, esvai-se em lagos subterrâneos, ou permanece congelado em lençóis de gelo.

No entanto, as rochas oxidadas do planeta confirmam um passado cheio de água; vales profundos esculpem uma paisagem salpicada por leitos de lagos secos, leques aluviais e seixos lisos. Apesar dos cientistas acreditarem há muito que o período quente e húmido do planeta tenha sido relativamente curto, um estudo publicado na Science Advances sugere que esses rios podem ter existido durante muito mais tempo do que se pensava anteriormente.

De acordo com a nova análise, esses canais antigos são mais amplos do que os canais semelhantes que existem atualmente na Terra. Para além disso, a água correu através desta paisagem de características pesadas, em torno do planeta, entre 3,4 e 2 mil milhões de anos atrás. Isso assenta num período tardio da história líquida de Marte, um período em que muitos cientistas acreditam que o planeta vermelho já estava a dessecar.

“A narrativa tradicional da história climática de Marte é a de que este costumava ser quente e húmido, e agora está frio e seco. Mas as evidências sugerem que a evolução climática de Marte é bem mais complicada do que isso”, disse por email Kathryn Steakley, do Centro de Modelos Climáticos de Marte da NASA, que não esteve envolvida neste trabalho.

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“Isso faz com que o mistério que permitiu a Marte da antiguidade ser quente e húmido – algo que já é difícil de descortinar – seja ainda mais complexo”, diz o autor do estudo Edwin Kite, cientista planetário na Universidade de Chicago.

RIOS E LAGOS

Apesar da atmosfera atual de Marte ser demasiado fina para aprisionar o calor do sol, muitos cientistas concordam que uma versão mais espessa dessa atmosfera terá provavelmente coberto o planeta vermelho, fomentando um mundo mais húmido. Mesmo assim, Marte não era um paraíso tropical. O antigo sol era 25% a 30% mais fraco do que é atualmente, o que significa que o terreno rochoso de Marte foi aquecido por uma radiação solar muito inferior.

"Os fatores estavam quase sempre no limite de permitir que a água fluísse pela superfície", diz Alan Howard, do Instituto de Ciência Planetária, em Tucson, no Arizona, que não esteve envolvido no trabalho.

Alguns elementos podem ter ajudado a atenuar esse enigma líquido. Na Terra, o conturbado núcleo externo cria um campo magnético protetor que impede que a nossa atmosfera, relativamente espessa, seja destruída pelos ventos solares. Pode ter acontecido o mesmo na antiguidade de Marte. E talvez a mistura de gases na atmosfera da altura diferisse da que se encontra atualmente no planeta. Por exemplo, alguns especialistas sugerem que os vulcões, outrora em erupção, já emitiam gases de efeito estufa no céu marciano.

Independentemente da forma como aconteceu, esse período quente e húmido não durou muito tempo. A antiga atmosfera parece ter se desgastado, e com ela desapareceram muitos dos lagos e rios de Marte. Kite e os seus colegas pensavam que após esse período (como os rios permaneciam na maior parte das vezes a baixas altitudes) as águas impetuosas transformavam-se lentamente em fios de água.

“Essa era a hipótese”, diz Kite. “E nós estávamos errados.”

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Revigorados pela impressionante resolução de imagens dos instrumentos que orbitam Marte, como o HiRISE, os investigadores analisaram as dimensões de mais de 200 antigos leitos de rios. Com base nos tamanhos dos canais e nas idades relativas dos terrenos circundantes, a equipa encontrou o que parece ser um período curiosamente persistente e tardio de escoamento líquido.

O que alimentava esse fluxo numa época tão inesperada ainda é um mistério. Alguns investigadores, incluindo Kite e a sua equipa, estão a estudar se as nuvens de água-gelo conseguem desenvolver-se em pressões atmosféricas baixas. Essas nuvens ainda pairam atualmente sobre Marte e, caso fossem mais espessas, conseguiriam reter calor suficiente para derreter neve e gelo. Ou talvez as datas de formação dos rios estejam erradas, o que significaria que os canais se formaram durante um período ainda mais antigo, quando uma atmosfera mais espessa aqueceu a camada de neve marciana.

Kite reconhece que sem estimativas mais rigorosas sobre a profundidade dos canais, ou sobre o tamanho dos seus sedimentos, é difícil dizer com precisão a quantidade de água que passava por aqui. As medições só nos levam até certo ponto, concorda Howard, observando que essas medidas podem inflacionar um pouco as estimativas, já que o fluxo de qualquer rio pode não abranger todo o canal.

Mesmo assim, baseado nas informações disponíveis, “as premissas e conclusões básicas que estão a fazer – de que existiam descargas de água consideráveis – parecem-me realistas”, diz Howard.

Os cientistas podem obter mais pistas em breve: o rover Mars 2020 está programado para pousar na cratera de Jezero, que contém um desses deltas de rio em estágio avançado, diz Kite. O rover pode tirar fotos dos sedimentos, algo que ajudaria os cientistas a determinar a quantidade de água derramada na cratera. Mas a única solução definitiva, embora não realista, seria enviar um orbitador ao passado para analisar a superfície do planeta vermelho.

“Isso destruiria toda a controvérsia e interesse em tentar desvendar todo este enigma com as poucas provas que temos atualmente. E a ciência seria menos interessante”, diz Howard com uma gargalhada.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com