Ciência

Antiga Criatura Marinha Fossilizada em Âmbar. Como?

Naquela que pode ser a primeira descoberta do seu género, um pedaço de âmbar preservou uma concha de amonite, e outras formas de vida costeiras, com detalhes impressionantes.segunda-feira, 20 de maio de 2019

Por Michael Greshko
Há muito tempo, no período cretáceo, esta concha pertencia a um tipo de molusco marinho chamado amonite. De alguma forma, a concha da criatura acabou sepultada em resina de árvore, que se fossilizou num pedaço de âmbar excecionalmente raro.

Há 99 milhões de anos, onde hoje fica a Birmânia, um pedaço de resina escorria para uma praia. Hoje, o pedaço de âmbar fossilizado resultante desse processo está a oferecer aos cientistas um vislumbre surpreendente da vida costeira no Cretáceo.

Num estudo publicado no dia 13 de maio, na revista PNAS, investigadores liderados pelo paleontólogo chinês, Tingting Yu, revelaram algo que pode ser o primeiro registo conhecido de uma amonite encontrada em âmbar. Esses moluscos marinhos extintos eram parentes antigos de polvos e de lulas e não se aventuravam em terra. Portanto, encontrar uma concha de amonite num fóssil formado em terra é algo estranho – é como encontrar restos de dinossauros no fundo de um antigo leito marinho.

"O âmbar – resina antiga das árvores – costuma prender apenas alguns insetos, plantas ou animais terrestres", diz o coautor do estudo, Bo Wang, paleontólogo no Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanquim. "É muito raro encontrar animais marinhos em âmbar."

Os investigadores suspeitam que esta resina veio de uma árvore costeira, apanhando assim uma concha de amonite descartada, e outros detritos, ao cair na areia. O fóssil também contém outras formas de vida aquática – búzios e parentes dos insetos da atualidade – bem como habitantes da floresta costeira, incluindo ácaros, moscas, besouros, uma aranha, uma vespa parasita, um milípede e uma barata.

“Este conjunto extraordinário – um momento verdadeiro e belo de uma praia no Cretáceo – é impressionante”, diz Jann Vendetti, paleontóloga no Museu de História Natural do Condado de Los Angeles que não participou no estudo. Apesar de aparentemente a amonite ser a descoberta mais surpreendente, o verdadeiro tesouro pode estar em toda a diversidade de vida presente numa amostra única deste período.

"A ideia de que existe uma comunidade inteira de organismos associados é algo que, a longo prazo, pode vir a revelar-se mais importante ", acrescenta o coautor do estudo, David Dilcher, paleontólogo e professor emérito na Universidade de Indiana, em Bloomington.

Descoberta do Cretáceo
Este estudo é o mais recente a trazer para as luzes da ribalta as amonites, um grupo de moluscos com conchas que viveu durante a era dos dinossauros, com raízes que remontam até há mais de 400 milhões de anos. O grupo morreu há 66 milhões de anos, juntamente com os dinossauros não-aviários, mas por essa altura já tinha conseguido uma distribuição global e era extraordinariamente diversificado. Tal como os seus primos moluscos modernos, as espécies de amonite adaptaram-se provavelmente a viver em profundidades diferentes – e existiam em vários tamanhos. Algumas ficaram com apenas um centímetro de comprimento, enquanto que outras cresceram para mais de dois metros.

Se tivéssemos equipamento de mergulho e uma máquina do tempo, poderíamos ver amonites em todas as águas do Cretáceo, balançando-se em antigos recifes de coral, ao lado de peixes e de répteis marinhos, como os ictiossauros parecidos com os golfinhos e os grandes mosassauros.

“Se mergulhássemos num ambiente marinho pouco profundo, iríamos certamente encontrar amonites”, diz Jocelyn Sessa, paleontóloga especializada em moluscos fósseis na Universidade Drexel. "Seria tão normal como ver caracóis a rastejar por aí".

Imagens de alta-resolução revelaram a estrutura interna da amonite. Os investigadores pensam que a amonite pertence ao subgénero Puzosia (Bhimaites), que surgiu há mais de 100 milhões de anos e viveu até há pelo menos 93 milhões de anos.

Com base na sua estrutura interna, a amonite envolta em âmbar é um juvenil que pertence ao subgénero Puzosia (Bhimaites), algo que faz todo o sentido em âmbar com 99 milhões de anos, diz Wang. Este subgénero surgiu pela primeira vez há mais de 100 milhões de anos e viveu até há pelo menos 93 milhões de anos; os cientistas conseguem usar a presença deste fóssil para calcular a idade dos sedimentos marinhos.

Mas, apesar de séculos de investigação, as amonites ainda estão envoltas em mistério. Por um lado, existem poucos fósseis de amonite que preservem os traços dos seus tecidos moles, dificultando a reconstrução dos seus corpos. Mas, agora que sabemos que as suas conchas descartadas se podem fossilizar em âmbar, os investigadores podem manter a esperança em encontrar algo ainda mais improvável: uma amonite completa, presa em resina e preservada para a eternidade.

“Meu Deus – provavelmente eu diria que isso não pode acontecer, porque o âmbar vem das árvores. Como é que isso entra num ambiente marinho para sepultar um cefalópode vivo e em movimento? Mas eu não sei!” diz Vendetti. “Este artigo força-nos, enquanto paleontólogos, a abrirmos as nossas mentes para as possibilidades de fossilização que não esperávamos, certo? Os fósseis são raros, mas o tempo é longo – e nesse sentido, as coisas raras acontecem a toda a hora.”

Devia Estar Num Museu
A descoberta é apenas a mais recente vinda do Vale de Hukawng, no norte da Birmânia, onde se extrai âmbar há pelo menos 2000 anos. Na última década, o vale transformou-se num oásis paleontológico, pois os cientistas descobriram caudas de dinossauro emplumadas, bem como crias de aves inteiras e cobras presas no seu âmbar.

Descoberto Fóssil de Cobra Bebé Com 99 Milhões de Anos em Âmbar - O Primeiro Deste Tipo
Descoberto Fóssil de Cobra Bebé Com 99 Milhões de Anos em Âmbar - O Primeiro Deste Tipo
18 de julho de 2018 - Um fóssil de cobra bebé com 99 milhões de anos foi encontrado preservado em âmbar - o primeiro deste tipo. O fóssil tem cerca de 5 cm de comprimento e 97 vértebras preservadas. É o primeiro fóssil de cobra bebé já descoberto e a primeira cobra encontrada em âmbar. Os investigadores também acreditam que encontraram um pedaço de pele de uma cobra adulta numa outra peça.

Mas trabalhar com âmbar birmanês é difícil, para não dizer perigoso. As minas estão localizadas no estado de Kachin, na Birmânia, que durante décadas testemunhou o conflito entre o governo do país e o Exército pela Independência Kachin. Este grupo luta pela independência Kachin, a minoria étnica local, e os rebeldes dependem dos recursos da área, incluindo as minas de âmbar do Vale de Hukawng, para obter financiamento.

Muitos espécimes de âmbar cientificamente valiosos só veem a luz do dia devido ao comércio privado, depois dos fósseis já terem sido cortados e polidos. Portanto, os investigadores ou percorrem eles próprios os mercados de âmbar da Birmânia, ou trabalham com espécimes de colecionadores privados – tal como aconteceu com a recém-descoberta amonite. 

Quando o fóssil foi encontrado, os comerciantes locais pensavam que a concha de amonite era apenas um grande caracol, diz Wang. O seu amigo, Huabao Dong, um comerciante de âmbar, tentou vender o fóssil a muitos colecionadores, mas não o conseguiu fazer, talvez por causa do seu tamanho enorme e aparente falta de novidade. Mas quando o colecionador de âmbar, Fangyuan Xia, de Xangai, viu uma imagem do fóssil, percebeu que este poderia conter uma amonite. Xia comprou imediatamente o espécime para o Museu de Âmbar Lingpoge, um museu particular dirigido por ele em Xangai.

“Ele não queria saber do preço, isso não importava”, diz Wang. “Se fosse de facto uma amonite, ele ficava feliz.”

Xia está profundamente envolvido na recolha e no estudo de âmbar: colabora com Wang há anos e é coautor de vários artigos científicos sobre fósseis de âmbar, incluindo o novo estudo da PNAS. Em 2018, investigadores, incluindo Wang, nomearam um género de insetos fósseis com o seu nome. Xia disponibiliza fósseis do museu a outros paleontólogos mas, atualmente, o Museu de Âmbar Lingpoge não tem uma grande presença pública. Os investigadores externos têm de pedir diretamente a Wang ou a Xia para ver os fósseis.

Lida Xing, paleontólogo na Universidade de Geociências da China, em Pequim, especializado em âmbar birmanês, diz que a ascensão dos museus privados de âmbar chinês é uma tendência fascinante – ainda que complicada. As amostras de âmbar mais raras e interessantes são tão caras que estão para além do orçamento de algumas instituições de investigação, diz.

"Ao mesmo tempo, alguns colecionadores também esperam poder salvar essas amostras", diz Xing por email. “O desenvolvimento de museus privados na China é rápido, mas ainda existe muito por onde melhorar.”

Wang diz que estão mais descobertas a caminho – incluindo mais amonites em âmbar. Na semana passada, um conhecido seu mostrou-lhe fotografias de uma segunda amonite em âmbar birmanês. Ele acrescenta que a coleção de Xia e de outros museus privados contêm mais achados cientificamente inestimáveis, que estão em vias de ser publicados.

“É muito importante”, diz Wang. “A maior parte dos espécimes já foi ou será descrita, não há problema.”


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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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