Ciência

Descoberta Nova Espécie de Dinossauro com Asas de Morcego

O fóssil raro, encontrado na China, é o exemplo mais bem preservado deste estranho grupo de dinossauros.Thursday, May 16, 2019

Por Michael Greshko
Esta ilustração descreve o Ambopteryx longibrachium, uma espécie recém-descoberta de dinossauros terópodes não-aviários que tinham asas semelhantes às dos morcegos. A espécie viveu há cerca de 163 milhões de anos, onde atualmente fica a China.

Há mais de 160 milhões de anos, as florestas da antiga China eram o lar de um predador bizarro: um dinossauro minúsculo que planava de árvore em árvore, com asas parecidas com as dos morcegos. O recém-descoberto fóssil, revelado na revista Nature, pertence ao segundo dinossauro emplumado encontrado com sinais de enormes membranas que agiam como asas. Portanto, é adequado que o género recém-atribuído ao animal seja Ambopteryx: latim para “ambas as asas”.

"Para mim, o mais interessante é que isto revela que alguns dinossauros desenvolveram estruturas muito diferentes para se tornarem volantes", ou capazes de voar, diz o principal autor do estudo, Min Wang, paleontólogo no Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China (IPPV).

O Ambopteryx é agora o fóssil mais conhecido do Scansoriopterygidae, um grupo excêntrico de dinossauros não-aviários que inclui o Yi qi, o primeiro dinossauro encontrado com asas semelhantes às de um morcego. Esse achado fóssil – anunciado em 2015 pelo coautor do estudo Xing Xu, vice-diretor do IPPV – reformulou a perspetiva com que os cientistas olham para a evolução do voo.

"Antes da descoberta de Yi qi, tentávamos encaixar todos os dinossauros voadores que encontrávamos numa linhagem evolutiva aproximada das aves", diz o coautor do estudo, Jingmai O'Connor, paleontólogo no IPPV e especializado em aves antigas. "O Yi qi desfez esse conceito."

Alguns investigadores acreditam agora que o voo surgiu pelo menos quatro vezes separadas nos dinossauros, inclusive entre os Scansoriopterygidae. Mas o ceticismo saudável em torno de Yi qi não desapareceu. O animal tem ossos estranhos em forma de bastão, chamados elementos estiliformes que se projetam dos seus pulsos, e os paleontólogos julgavam que estes serviam para ajudar a sustentar uma membrana lateral enorme. Mas nenhum outro dinossauro, vivo ou morto, tinha esses ossos – até que surgiu o Ambopteryx.

O fóssil recém-descoberto não só tem os elementos estiliformes, como também preserva uma película acastanhada numa asa – um material que se acredita ser um vestígio da membrana da asa. Para além disso, o Ambopteryx possui penas fossilizadas e um pigóstilo, um grupo de vértebras caudais fundidas que serve de âncora para as penas da cauda das aves.

UM ‘ESQUILO-DINOSSAURO’ VOADOR
O fóssil Ambopteryx foi encontrado por um agricultor em 2017, nos arredores de uma aldeia perto de Lingyuan, uma cidade na província de Liaoning, no nordeste da China. Quando o IPPV adquiriu o fóssil pela primeira vez, os investigadores pensaram que se poderia tratar de um dos primeiros pássaros, fazendo com que Wang – especialista na evolução inicial das aves – assumisse a liderança. Mas como os preparadores removeram minuciosamente todo o excesso de rocha do fóssil, Wang percebeu imediatamente que o animal não era de todo uma ave.

Totalmente exposto, o fóssil preserva com grande detalhe a vida do Ambopteryx. Provavelmente era um omnívoro oportunista: o seu estômago contém gastrólitos semelhantes aos dos pássaros carnívoros da atualidade, mas também tem fragmentos de ossos, sinais de que a criatura desfrutou de um petisco de carne pouco antes de morrer. O animal adulto devia pesar algumas centenas de gramas, mais ou menos.

Os investigadores ainda estão a tentar perceber as suas capacidades de voo – mas aparentemente estava bem equipado para planar entre árvores. As suas patas sugerem que a espécie evoluiu para se pendurar nas árvores, e não de forma passeriforme – a equipa acredita que o seu comportamento era parecido com o dos esquilos-voadores e petauros-do-açúcar.

“Provavelmente andava a subir às árvores – como se fosse um pequeno ‘esquilo-dinossauro’ de ar assustador – e depois planava de ramo em ramo”, diz O’Connor.

“Se pensarmos no conceito de um terópode planador, seria um animal muito estranho, e seria muito provavelmente parecido com o Ambopteryx”, diz o paleontólogo da Universidade do Sul da Califórnia, Mike Habib, especialista em biomecânica que estuda o voo de Yi qi. 

VOAR PELO DESCONHECIDO
Os cientistas anseiam encontrar mais indícios de tecidos moles no Ambopteryx, algo que as novas técnicas de imagem podem ajudar a concretizar. Por exemplo, o paleontólogo Michael Pittman, da Universidade de Hong Kong, usou lasers para revelar vestígios de tecidos moles nos fósseis do dinossauro emplumado Anchiornis.

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Pittman conhece bem o grupo Scansoriopterygidae. Na reunião de 2018 da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, o aluno de doutoramento de Pittman, Arindam Roy, apresentou os primeiros resultados das análises a laser feitas a Yi qi. Wang e Pittman estão em conversações para fazerem uma análise semelhante ao Ambopteryx.

Para obter respostas mais claras, os paleontologistas dizem que o ideal seria encontrar um parente mais bem preservado do Ambopteryx. Isso é pedir muito – mas os locais na China preservam dinossauros emplumados com detalhes espantosos. Talvez uma criatura com asas de morcego ainda mais primitiva esteja à espera de ser desenterrada.

“Estamos tão habituados a bons fosseis chineses que começamos a pedir demais, do género, porque não encontrámos um fóssil com todos os detalhes preservados de forma perfeita?” brinca Habib. “O nível do que se considera ser um bom fóssil já está muito elevado.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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