Ciência

Fóssil de Baleia-Azul de 25 Metros é o Maior Encontrado Até Agora

Este gigante marinho viveu há cerca de 1500 milhões de anos, sugerindo que as baleias começaram a aumentar de tamanho muito mais cedo do que se pensava. Quarta-feira, 15 Maio

Por Tim Vernimmen

A baleia-azul não só é o maior animal vivo da atualidade, como também pode ser o maior animal que alguma vez existiu. Agora, a análise de um fóssil encontrado nas margens de um lago italiano indica quando, e talvez como, é que a baleia-azul se transformou num gigante destas proporções.

O enorme crânio do animal, descrito em finais de abril na revista Biology Letters, confirma que esta antiga baleia-azul é a maior alguma vez encontrada nos registos fósseis, alcançando uns incríveis 25 metros de comprimento. O seu tamanho estava muito perto do das baleias-azuis modernas, que atingem os 30 metros. No entanto, para os cientistas, o mais surpreendente é o facto de uma baleia desse tamanho ter nadado nos mares há cerca de 1500 milhões de anos, durante o início do Pleistoceno – muito mais cedo do que se pensava anteriormente.

"O facto de uma baleia tão grande existir na antiguidade sugere que estas baleias já existiam há muito tempo", diz o coautor do estudo, Felix Marx, paleontólogo no Instituto Real de Ciências Naturais da Bélgica, em Bruxelas. "Não acredito que as espécies consigam evoluir para um tamanho tão grande num curto espaço de tempo."

ACHADO DE PROPORÇÕES ÉPICAS
Descobrir como é que as baleias-azuis se tornaram tão grandes tem sido um desafio, já que os grandes fósseis de baleias dos últimos 2500 milhões de anos são muito raros. A sua raridade pode dever-se ao facto do planeta ter passado por uma série de eras glaciares durante esse período, quando a abundância de água congelou e os níveis do mar caíram drasticamente. Os restos mortais das baleias que morreram nesses tempos, mesmo que estejam encalhados em terra, podem agora estar a muitas dezenas de metros abaixo do nível do mar.

Em 2006, perto da cidade de Matera, no sul de Itália, um agricultor viu algumas vértebras enormes em terreno argiloso, na margem de um lago que ele usa para irrigar os seus campos de cultivo. Ao longo de três temporadas outonais, época em que é possível reduzir o nível da água sem arruinar as colheitas, o paleontólogo italiano Giovanni Bianucci, da Universidade de Pisa, e sua equipa escavaram os restos mortais.

Na altura, a equipa pensava que os fósseis podiam pertencer a uma baleia-azul, ideia agora comprovada pelos novos estudos anatómicos.

O novo fóssil também pode vir a revelar que a ascensão de baleias gigantes aconteceu de forma mais gradual do que se pensava anteriormente, argumenta Marx. Em 2017, um estudo que analisava o tamanho do corpo de todas as espécies de baleias conhecidas, muitas delas conhecidas apenas a partir de fósseis, sugeriu que o aumento no tamanho corporal pode ter ocorrido repentinamente, provavelmente há cerca de 300 mil anos, mas pode ter acontecido até há cerca de  4500 milhões de anos.

Contudo, quando Marx incluiu o novo fóssil nesta análise, “a data mais provável foi empurrada para trás, até aos 3600 milhões de anos, ou até mais, podendo chegar aos 6000 milhões de anos”.

EXCEDENTE DE FÓSSEIS PEQUENOS
Graham Slater, da Universidade de Chicago, que fez a análise original, diz que os 3600 milhões de anos ainda se encaixam na enorme janela temporal encontrada por ele. E mesmo que a data provável para o aumento do tamanho possa ser ainda mais antiga, diz Slater, a data revista de 3600 milhões de anos faz sentido.

Naquela época, uma redução global na temperatura oceânica terá provavelmente alterado a disponibilidade de alimentos para as baleias, criando manchas de alta densidade de presas onde havia ressurgência de água fria nas profundezas, algo que ele acredita ser "importante para sustentar baleias realmente grandes". Em relação ao facto da nova análise favorecer uma origem ainda mais antiga para o tamanho da baleia-azul, Slater não concorda com Marx.

É verdade que a análise, como está, não confirma diretamente esse cenário, admite Marx. Mas o seu ponto de vista é baseado naquilo que ele acredita estar ainda por descobrir. Como os fósseis de baleias grandes são difíceis de recolher, de estudar e de descrever, a nossa visão da evolução do tamanho do corpo das baleias pode estar distorcida. Marx está envolvido num projeto, no Peru, que encontrou vários fósseis de baleias que ainda não foram recuperados. Embora os dados sejam preliminares, incluí-los na análise enfraquece ainda mais a noção de uma alteração repentina.

"Estou ciente da existência de várias baleias enormes, com pelo menos a mesma idade, que ainda não foram descritas na literatura científica”, diz Marx. “Cada fóssil novo de baleia que encontramos e documentamos pode vir a sustentar a ideia de uma mudança gradual.”

O paleontólogo Cheng-Hsiu Tsai, da Universidade Nacional de Taiwan, descreveu os restos mortais de algo que poderá ser a segunda maior baleia fóssil encontrada até agora, uma baleia-comum da Califórnia. Tsai argumenta há alguns anos que as baleias se tornaram grandes muito mais cedo do que se pensava e concorda, em grande parte, com as conclusões de Marx.

“Sinceramente, este fóssil não me surpreende de todo”, diz Tsai. “Acho que vamos encontrar rapidamente algo maior e geologicamente mais velho.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler