Ciência

Árvore Pré-histórica é a Primeira Deste Tipo Encontrada Abaixo do Equador

Novos fósseis sugerem que as árvores chinquapin, encontradas atualmente em partes da Ásia, ganharam primeiro raízes no Hemisfério Sul.Wednesday, June 19, 2019

Por Catherine Zuckerman
Uma árvore Castanopsis, com 400 anos, em Xuancheng, na China.

Há milhões de anos, um vulcão entrou em erupção na região da Patagónia, no sul da Argentina, deixando no seu rescaldo uma enorme caldeira. A água acumulada na cratera acabou por se transformar num lago repleto de inúmeras plantas, insetos e outras formas de vida. Com o passar do tempo, essas criaturas fossilizaram-se nas profundezas das camadas de lama e cinzas do lago, criando uma espécie de jackpot geológico para os paleontólogos da atualidade.

Agora, o antigo lago produziu um tesouro particularmente interessante: fósseis de uma árvore com 52 milhões de anos, a primeira deste tipo encontrada no Hemisfério Sul, sugerindo que a planta evoluiu nessa região.

Uma imagem aproximada mostra o fóssil de uma espiga madura de Castanopsis, com quatro nozes, escura e transformada em carvão, em estruturas escamosas chamadas cúpulas. A cúpula no topo estava a dividir-se em duas.

Os fósseis de frutas e folhas encontrados no local, chamado Laguna del Hunco, pertencem a um tipo de árvore que ainda existe atualmente, chamado Castanopsis, ou chinquapin, e que hoje se encontra em grande parte das florestas tropicais do Sudeste Asiático. A Castanopsis é muito semelhante ao seu parente próximo, a Castanea, ou castanheira, e produz nozes comestíveis e "picos incríveis de flores espetaculares", diz o paleobotânico Peter Wilf, da Universidade da Pensilvânia, que integra a equipa que descreveu o achado, no dia 6 de junho, na revista Science.

Esta descoberta ajuda os cientistas a compreenderem melhor a história de vida de um grupo de plantas muito importante em termos económicos e ecológicos: a Castanopsis faz parte das fagáceas, uma família de plantas que também inclui as faias e os carvalhos.

“Estas são as árvores que definem as estruturas florestais de todo o Hemisfério Norte e dos trópicos asiáticos. São completamente dominantes”, diz Wilf, que conduziu a investigação em colaboração com a Universidade de Cornell e o Museu Paleontológico Egidio Feruglio, na Argentina. Para além de serem uma fonte de madeira, estas árvores também são um “ponto central na cadeia alimentar”, diz Wilf, pois fornecem nutrição não apenas aos roedores, mas também aos humanos e a outros mamíferos, e também aos pássaros e aos insetos.

"Estou animada por ver a sua importância nos registos paleolíticos, já que do ponto de vista ecológico e económico estas árvores são fundamentais", diz por email Meg Lowman, bióloga de árvores. Lowman, que não esteve envolvida no estudo, também é uma Exploradora National Geographic e diretora da organização sem fins lucrativos Tree Foundation.

Árvore obstinada
Portanto, o que faz uma árvore de florestas tropicais do Sudeste Asiático na Patagónia? A resposta encontra-se nas alterações do clima e no movimento dos continentes.

Quando os fósseis do lago se estavam a formar, o mundo estava na época do Eoceno, um período quente no qual a América do Sul, a Antártida e a Austrália ainda estavam próximas, pouco antes da rutura final do Gonduana, o antigo supercontinente do sul. A região na Patagónia que agora está fria e seca era na altura uma floresta tropical húmida e fresca. Este clima era semelhante ao das atuais montanhas do Bornéu e da Nova Guiné, os lugares mais próximos de Laguna del Hunco, onde a Castanopsis cresce atualmente, e que ficam a quase 13.000 km do local.

Estas folhas pertencem à Castanopsis javanica, ou castanheira-de-Java.

"Este estudo traz para as luzes da ribalta a importância das fagáceas, bem documentadas pelo seu papel (para além de económico e ecológico) enquanto elo de ligação fundamental aos registos botânicos de Gonduana", diz Lowman.

Basicamente, encontrar fósseis tão longe do habitat atual das árvores significa que estamos perante uma história de sobrevivência que abrange milénios.

"Estas plantas sobreviveram às alterações climáticas globais, ao colapso do Gonduana e aos movimentos dos continentes, durante dezenas de milhões de anos – elas encontraram o seu habitat preferido", diz Wilf. A esperança, claro, é a de que a história não termine com a sua iminente extinção. À medida que as atividades humanas, como a desflorestação, continuam a um ritmo acelerado, a Castanopsis enfrenta agora a ameaça de extinção, observa Wilf.

"Estas plantas não se conseguem adaptar – elas não têm o mesmo tempo e espaço geológico para se adaptarem", diz. Mas este tipo de descoberta pode aumentar a consciência do público e inspirar esforços de conservação, acrescenta Wilf, que faz escavações em Laguna del Hunco há mais de 20 anos e planeia continuar a trabalhar no local.

"A paleontologia dita a conservação", diz. "Começamos a ver a história antiga destes habitats e o quão importante é a sua manutenção – porque se os perdermos já não os conseguimos recuperar".
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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