Ciência

Assassinos de Drones: A Nova Guerra dos Céus

No futuro poderemos vir a testemunhar tecnologia de combate e de consumo de máquinas voadoras em constante evolução. Eis como poderá ser.segunda-feira, 24 de junho de 2019

Por Dominic Bliss
O Cabo Briar Purty, do Corpo de Fuzileiros dos EUA, testa o IXI Drone Killer durante um exercício em 2018, no Campo Base do Corpo de Fuzileiros em Pendleton, na Califórnia. As aplicações da tecnologia de interferência de veículos aéreos não tripulados, que visam impedir ataques aéreos remotos, são cada vez mais relevantes para combater drones disruptivos em espaços aéreos pouco ameaçadores.

Quantos drones aéreos cruzam neste momento os céus do nosso planeta? Centenas de milhares? Milhões, talvez? A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos prevê que até 2020, só na América, existam perto de 7 milhões de aeronaves em operações.

A grande maioria é inofensiva mas, nas mãos de operadores com segundas intenções, podem provocar ocasionalmente o caos – tal como aconteceu no Aeroporto de Gatwick em dezembro do ano passado quando cerca de 1.000 voos foram cancelados ou desviados durante vários dias.

Andy Morabe é o diretor da IXI Technology, uma empresa sedeada na Califórnia que fabrica um dispositivo de interferência de drones chamado Drone Killer. "Nós classificamos os operadores de drones como ignorantes, descuidados ou criminosos", diz Morabe, colocando os malfeitores de Gatwick na última categoria.

Morabe explica como a tecnologia de veículos aéreos não tripulados (UAV na sigla em inglês), nome pelo qual os drones são oficialmente conhecidos, deu um enorme salto evolutivo em anos recentes, com dispositivos mais pequenos, baratos e fáceis de usar. Caso um terrorista arme um drone com explosivos, ou armas químicas, pode obviamente provocar o caos. E uma pessoa que queira pregar uma partida a voar perto de um aeroporto, ou de um estádio desportivo, pode causar muitos problemas.

Recentemente, as perturbações provocadas pelo avistamento de drones no Aeroporto de Gatwick resultaram no adiamento de vários voos. Nesta imagem, vemos fotógrafos a observar o espaço aéreo sobre a pista de Gatwick, a 21 de dezembro de 2018. A caça aos responsáveis, para lidar com os níveis de interrupção e com o potencial de colisões devastadoras, envolveu a polícia e o exército. Foram efetuadas detenções, mas não foram feitas acusações.

“Imagine o que podia acontecer se um drone fosse sugado pela turbina de um avião na descolagem”, acrescenta Morabe. “Um drone pequeno pode destruir completamente o motor de um avião. Isso seria devastador. E as baterias de lítio usadas nos drones podem explodir.”

Testes recentes, feitos pelo governo do Reino Unido e pela Universidade de Dayton, no Ohio, provaram que até os drones mais pequenos conseguem penetrar nas estruturas das asas e nos para-brisas dos aviões.

Nos últimos anos, aconteceram algumas colisões entre aeronaves e drones (incluindo uma em Nova Iorque, uma no Québec e outra no aeroporto de Heathrow, em Londres – nenhuma foi fatal), mas dezenas estiveram perto de provocar acidentes.

Em 2018, o governo norte-americano estabeleceu novas restrições para drones voadores. Em finais deste ano, o governo do Reino Unido espera introduzir uma nova legislação para drones intrusivos.

Com os drones disponíveis no mercado de consumo – desde brinquedos a máquinas preparadas para fotografar e filmar – cabe aos utilizadores assegurar uma utilização consciente, e o seu policiamento é um enorme desafio.
Em 2018, no aeroporto de Gatwick, as autoridades estavam relutantes em dar luz verde às partidas e chegadas devido à ameaça de drones. Estas perturbações obrigaram ao cancelamento de mais de 1.000 voos.

“Grupos terroristas, como o ISIS e a Al-Qaeda, já conseguiram armar drones com sucesso várias vezes.”

O problema para as autoridades é que estes aparelhos estão classificados como aeronaves. A sua destruição a céu aberto necessita de uma autorização governamental superior, e pode provocar danos colaterais.

Existem outros métodos para os neutralizar. Com o Drone Killer, podemos bloquear os seus sinais. Podemos fazer o que se chama de spoofing – enganar os seus recetores de GPS para indicar que estão num local diferente. Podemos usar lasers para desorientar as suas câmaras ópticas, com as quais os operadores os guiam. Podemos capturá-los com uma rede disparada por uma arma. E também podemos usar aves de rapina treinadas para os capturar. Contudo, como diz Morabe, “as hélices dos drones podem danificar as garras das aves”.

Andy Morabe diz preferir o método de interferência de sinal, incluída no seu Drone Killer. Desenvolvido há cerca de 3 anos, este aparelho portátil, movido a bateria, transmite ondas de rádio de baixa frequência, semelhantes às usadas pelos operadores de drones, para distorcer os dados recebidos pelas máquinas e, de acordo com a IXI Technology, forçar os drones a entrar no “modo de segurança” e a “regressar ao seu ponto de origem, ou aterrar lentamente”. O fabricante alega que as ondas de rádio têm um alcance de 1.000 metros e que não interferem com os sinais de banda larga, com os telemóveis e com outras frequências de rádio.

Os Drone Killers custam à volta de 30.000 euros a unidade. Atualmente, Morabe fatura cerca de 2 milhões de euros por ano, mas tem esperança de atingir os 100 milhões de euros anuais – o receio de ataques com drones suscita cada vez mais a sua procura por parte de aeroportos, estádios, centrais elétricas, entre outros.

A tendência para obter imagens como esta, sobre áreas urbanas, tem originado preocupações sobre segurança e privacidade – mas a legalidade dos drones ainda é uma área cinzenta em muitos países.

O Drone Killer já está a ser usado pelo Ministério da Defesa do Japão, pela Guarda Nacional da Índia, pela Força Aérea Tailandesa e por mais de uma dezena de agências da autoridade nos Estados Unidos – na Califórnia, no Arizona e no Nevada para proteger eventos desportivos e para dar apoio às autoridades na fronteira dos Estados Unidos com o México.

Por questões de segurança, Morabe não pode partilhar muitos detalhes, mas pinta um cenário muito negro sobre a forma como os terroristas podem armar drones com explosivos, ou com veneno.

“As autoridades estão preocupadas que os drones possam ser armados com um determinado tipo de opioide”, sugere Morabe. “Uma colher de chá pode matar uma sala cheia de pessoas. Um drone que transporte um quilo ou dois pode matar um estádio inteiro cheio de pessoas.”  

Morabe admite que o seu Drone Killer não é uma solução à prova de falhas, já que existem inúmeras frequências com as quais os drones podem operar, e é impossível bloquear todas elas.

“O problema para as autoridades é que estes aparelhos estão classificados como aeronaves. A sua destruição a céu aberto necessita de uma autorização governamental superior.”
O uso amador de drones sobre áreas urbanas é cada vez mais abrangente – com avistamentos de drones em espaços aéreos que provocam muitas perturbações, e os especialistas estão preocupados com os potenciais efeitos devastadores de um drone armado.
Muitos dos drones são controlados por telemóvel, permitindo ao operador “ver” o que o drone está a ver. As tecnologias de bloqueio de sinal interferem com a ligação entre o drone e o seu operador.

Por esse motivo, ele sugere que as zonas particularmente sensíveis, como os aeroportos ou as centrais nucleares, se protejam com uma diversidade de medidas anti-drone.

James Cross é o diretor de uma companhia chamada OpenWorks Engineering, sedeada em Northumberland, no Reino Unido, que fabrica dois modelos de armas de rede anti-drone, chamadas Skywall 100 (portátil) e Skywall 300 (montada em edifícios ou veículos). Estas armas utilizam ar comprimido para lançar uma cápsula de plástico que se abre para capturar o drone, abrindo um paraquedas que o arrasta em segurança até ao chão. A tecnologia de mira destas armas leva em consideração a velocidade de voo de um drone para intercetar a sua trajetória.

O modelo Skywall 300 ainda não está à venda, mas o modelo Skywall 100, lançado em 2016, já foi usado em 50 locais por todo o mundo. A sua estreia foi feita em novembro de 2016, quando a polícia federal alemã foi encarregue de proteger o presidente Barack Obama durante a sua visita de estado a Berlim.

“A arma foi ativada enquanto o presidente saía do avião presidencial, o Air Force One”, diz Cross. “E também a usaram pela cidade, nos telhados e nas traseiras de veículos.”

Vídeo: Veja um drone colidir com a asa de um avião numa experiência de laboratório

A arma também foi empregue no Festival Aéreo de Berlim, em abril de 2018; numa conferencia sobre segurança, em Hamburgo, em dezembro de 2016; e pela polícia, em Washington D.C., no Pentágono. E também tem sido usada durante outras visitas de chefes de estado, nos aeroportos e em centrais nucleares.

Cross espera vender os modelos Skywall 300, no final deste ano, às forças armadas dos Estados Unidos e a agências europeias. Por questões de segurança, Cross nem sequer pode revelar se algum dos paraquedas já foi ativado num ato de raiva.

Existem outras companhias britânicas a desenvolver tecnologias contra drones, incluindo aparelhos de interferência de sinal, como a DroneGun da Beechwood Equipment, a Sky Net da Kirintec e a AUDS (Sistema de Defesa Anti-UAV) da Chess Dynamics. Esta última está agora em atividade no Aeroporto de Gatwick, integrando um sistema de medidas anti-drone (no valor de 5 milhões de libras) instalado no rescaldo dos acontecimentos de dezembro.

Mas será que os nossos aeroportos conseguem ficar 100% imunes a drones? Morabe refere que os principais aeroportos mundiais cobrem áreas de superfície enormes e são impossíveis de proteger completamente dos ataques de drones. Gatwick, por exemplo, estende-se por 674 hectares de terra, com um perímetro de quase 10 km; Heathrow tem 1.214 hectares e cerca de 15 km de perímetro. Denver International, o segundo maior aeroporto do mundo em termos de área terrestre, cobre mais de 13.000 hectares.

Forças de segurança examinam provas de uma explosão originada por um drone, em Caracas, na Venezuela, em agosto de 2018, quando o presidente Nicolas Maduro foi alegadamente vítima de uma tentativa de homicídio por um aparelho voador, semelhante a um drone, com uma carga explosiva.

Morabe explica que, mesmo com centenas de medidas dispendiosas contra drones e equipas de segurança, irão sempre existir falhas na defesa – espaços onde os drones  mais pequenos conseguem passar. Morabe trabalhou 30 anos com a Marinha dos EUA a fazer trabalhos de consultoria em sistemas de armamento de defesa.

“Já trabalhei com muitas companhias de defesa”, diz. “Já trabalhei com a Lockheed Martin. Trabalhei com os sistemas de radar a bordo dos navios americanos, e temos sempre lacunas na nossa cobertura.”

O próprio governo do Reino Unido admite que não consegue garantir uma proteção infalível. Ben Wallace, Ministro da Segurança e Crime Económico, disse à National Geographic que "a evolução da tecnologia contra drones é um desafio complexo". "Existem muitos sistemas anti-drone a entrar no mercado, e estamos convictos de que não existe uma bala de prata contra todas as utilizações maliciosas e ilegais com drones".

O governo britânico está atualmente a debater uma legislação para drones, com um esquema de registo obrigatório para os operadores de drones que pode entrar em vigor até ao final deste ano. Contudo, talvez nenhuma destas medidas seja suficiente para deter os criminosos que queiram provocar o caos.

Um sistema de captura de veículos aéreos não tripulados a capturar um drone Phantom 3 na sua rede, a meio de um voo, na Área de Testes do Nevada, em 2016. A tecnologia anti-drone evolui ao mesmo tempo que os próprios drones.

Os culpados de Gatwick não provocaram realmente danos físicos – aparentemente, estavam na brincadeira. Mas os grupos terroristas, como o ISIS e a Al-Qaeda, já conseguiram armar drones com sucesso várias vezes. Num incidente separado, na Venezuela, em agosto do ano passado, foram detonados explosivos com drones perto do presidente Nicolas Maduro, num ato que foi considerado tentativa de homicídio pelo governo do país.

Tanto Morabe como Cross advertem que a tecnologia de drones está constantemente a evoluir, tornando as suas contra-medidas redundantes.

“À medida que as pessoas com más intenções melhoram a sua tecnologia de drones, também nós temos de evoluir as medidas de segurança”, diz Morabe. “É um jogo de guerrilha eletrónica. É uma corrida ao armamento.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

Continuar a Ler