Ciência

Os Primeiros Bebés Geneticamente Modificados Podem Estar em Risco de Morte

Em 2018, um investigador chinês chocou o mundo ao anunciar o nascimento de dois bebés geneticamente modificados. As mutações podem ter criado mais problemas do que soluções.Tuesday, June 11

Por Michael Greshko
Nesta imagem de microscópio, os cientistas examinam um embrião de blastocisto com cinco dias, para o gene da fibrose cística. Os investigadores estão a usar uma variedade de técnicas, incluindo edição genética, para abordar as raízes genéticas da doença. Mas, tal como demonstrado pelos trabalhos recentes, fazer alterações hereditárias no genoma humano pode acarretar riscos inesperados.

Em novembro de 2018, o investigador chinês Jiankui He chocou a comunidade médica ao anunciar o nascimento de dois bebés cujo ADN tinha sido modificado por ele – os primeiros humanos nascidos com alterações hereditárias nos seus genomas, usando uma técnica chamada Crispr-Cas9. Jiankui afirma que fez as mudanças para diminuir o risco de contração de HIV, mas a notícia suscitou imediatamente controvérsias do foro ético e médico sobre o seu trabalho, e sobre a edição de genes em humanos.

Agora, um estudo descobriu que as edições podem prejudicar a esperança média de vida dos bebés.

Segundo as informações publicadas no dia 3 de junho, na revista Nature Medicine, os investigadores analisaram um banco de dados genético do Reino Unido e descobriram que, quando as pessoas têm naturalmente uma característica semelhante àquela criada por Jiankui para o ADN dos bebés, as probabilidades de morte antes dos 76 anos de idade aumentam em 21%.

“Pode existir a perceção de que quando temos uma mutação, temos um efeito. Mas na realidade, uma mutação pode ter vários efeitos”, diz o coautor do estudo, Ramus Nielsen, biólogo na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

“Quando pensamos em engenharia genética em humanos, uma das muitas coisas que devemos considerar é que as consequências podem ser difíceis de prever – uma mutação benéfica num determinado contexto pode ser muito prejudicial noutros contextos”, diz Nielsen. (Descubra os primeiros embriões humanos “modificados” nos EUA.)

Risco elevado

Em 2018, no seu anúncio público, Jiankui disse que o objetivo era oferecer resistência ao HIV, ou vírus da imunodeficiência humana. Jiankui fê-lo através da edição de mutações no gene CCR5, que codifica um recetor do lado de fora das células do sistema imunológico, alterando de forma crucial o comportamento do sistema. Uma das variantes mais estudadas deste gene é a variante ∆32, que é mais curta que o normal e basicamente está fraturada. Esta quebra fornece proteção contra o HIV, uma vez que o vírus infeta as células do sistema imunológico ao ligar-se à proteína codificada pelo gene CCR5 funcional.

Mas os tratamentos para o HIV já progrediram muito, e muitos especialistas argumentaram na altura que esse procedimento era clinicamente desnecessário. Para além disso, existem outros patogénicos que prosperam quando o CCR5 está fraturado, criando outros fatores de risco. Por exemplo, um estudo de 2015 mostrou que ter uma ou duas cópias do CCR5-∆32 quase quadruplicou as probabilidades de uma pessoa morrer de gripe.

Embora as mutações criadas por Jiankui não sejam exatamente idênticas à variante ∆32, aparentemente os genes CCR5 dos bebés estão fraturados de forma semelhante. Para descobrir mais sobre o que isso pode significar, Nielsen e o investigador de pós-doutoramento, Xinzhu Wei, de Berkeley, perscrutaram quase 410.000 genomas do UK Biobank, um arquivo de ADN de voluntários, para descobrir o destino de pessoas que têm naturalmente duas cópias de CCR5-∆32.

Levando em consideração a parcialidade geográfica das amostras, Nielsen e Wei compararam milhares de subconjuntos de dados gerados aleatoriamente entre si. Ao fazerem-no, descobriram que, no geral, ter duas cópias de CCR5-∆32 aumenta o perigo de morte, antes dos 76 anos de idade, em 3% a 46%, com uma média de aumento de risco na ordem dos 21%.

Nielsen e Wei advertem que o seu trabalho não deve ser considerado absoluto, em parte porque os bancos de dados de ADN da atualidade são parciais em termos geográficos. A investigação de ambos é baseada nos genomas de voluntários do Reino Unido, não de chineses. Preconceitos semelhantes atormentam a investigação que Jiankui usou para tentar justificar a edição do ADN dos bebés: estudos anteriores encontraram sinais dos efeitos protetores do CCR5-∆32 contra o HIV em populações europeias e não em populações da Ásia Oriental.

“Gostaria de deixar bem claro que o efeito da mutação depende dos antepassados genéticos e dos ambientes, e não temos informações para especular sobre os seus efeitos nas pessoas da Ásia Oriental”, disse Wei, o autor principal do estudo, por email.

Efeitos duradouros

As novas descobertas podem redirecionar a atenção para os dilemas éticos levantados pela investigação de Jiankui. Antes do anúncio de Jiankui, investigadores de todo o mundo já tinham pedido uma moratória sobre as edições hereditárias do genoma humano. Em maio, num ensaio publicado na Nature, um grupo proeminente de bioéticos chineses denunciou Jiankui e pediu uma reformulação total na liderança ética das investigações na China. Em janeiro, Jiankui foi demitido da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, em Shenzhen, na China.

Os investigadores têm o cuidado de salientar que o debate sobre o trabalho de Jiankui não deve desconsiderar o potencial médico transformador da técnica Crispr, já que esta técnica de edição de genes não faz alterações hereditárias em muitas das aplicações terapêuticas. Por exemplo, para tratar uma doença genética os cientistas podem recolher células de um órgão de uma pessoa, reparar os genes dessas células com a Crispr, e reintroduzir as células modificadas nesse órgão para o repovoarem. Da mesma forma, os investigadores poderiam usar o CCR5-∆32 para ajudar a tratar o HIV, modificando as células do sistema imunológico de alguém que já tem HIV, para as tornar mais resistentes ao vírus.

Contudo, quando Jiankui editou os genomas das bebés, fê-lo quando elas eram apenas óvulos fertilizados – o que significa que as suas edições estão presentes em quase todas as células dos seus corpos, incluindo os seus óvulos. Se esses bebés, apelidados de Lulu e Nana, um dia mais tarde decidirem ter filhos com seus óvulos inalterados, os seus filhos terão pelo menos uma cópia fraturada do CCR5.

“A diferença é semelhante a modificar todo o sistema operativo de um computador, em vez de modificarmos apenas um pedaço único de software que foi instalado para desempenhar uma tarefa em particular”, diz Wei por email. “Na maioria das vezes, penso eu, as pessoas que se deparam com um problema no seu computador não o resolvem com outro sistema operativo, sobretudo quando este pode ser resolvido com outras alternativas.”

A técnica Crispr também não é 100% infalível, sendo possível que outros genes nos bebés tenham sido alterados, com consequências pouco óbvias e não intencionais. As reações em Lulu e Nana podem levar décadas. Na Nature, o grupo bioético chinês argumentou que devem existir procedimentos para monitorizar e cuidar das crianças o resto das suas vidas.

Atualmente, os bebés servem de alerta profundo para uma cautela global, escreveu Jennifer Doudna (geneticista na Universidade da Califórnia), na edição de abril da revista TIME.

"Apesar da comunidade científica trabalhar agora para estabelecer salvaguardas mais fortes", escreveu Doudna, "a decisão fatídica de Jiankui, que ignorou as bases do mantra da medicina (não colocar em perigo a vida humana), pode ter consequências não intencionais que serão lembradas como uma das aplicações mais chocantes, feita de forma errada, de qualquer ferramenta científica da nossa história.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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