Ciência

Estes Macacos Estão Há 3000 Anos na Sua Própria ‘Idade da Pedra’

Os macacos-prego podem não vir a usar ferramentas como nós o fazemos, pelo menos no imediato, mas a espécie tem agora “o seu próprio registo arqueológico”, dizem os cientistas.Monday, July 1, 2019

Por Michael Greshko
Os macacos-prego na Serra da Capivara, no Brasil, fazem ferramentas de pedra há pelo menos 3000 anos, e a sua tecnologia tem-se alterado com o tempo, informam os cientistas.

Para os macacos-prego no Parque Nacional Serra da Capivara, o uso de ferramentas é uma tradição que remonta a milénios: um novo estudo descobriu que, nos últimos 3000 anos, estes primatas usaram ferramentas de pedra para processar os seus alimentos, fazendo deste o sítio não humano mais antigo do seu tipo fora de África.

O sítio, descrito no dia 24 de junho na Nature Ecology & Evolution, contém camadas de pedras arredondadas produzidas ao longo do tempo pelos macacos-prego da região para abrir sementes e nozes. Já foram documentados outros sítios com ferramentas não humanas dentro e fora de África; o mais antigo que se conhece, uma zona de chimpanzés na Costa do Marfim, tem mais de 4000 anos. Mas as ferramentas na Serra da Capivara mostram variações a longo prazo, um marco para a arqueologia fora da linhagem humana. Aqui, as ferramentas de pedra variam de tamanho ao longo do tempo, sugerindo que os macacos-prego da área podem estar a adaptar o uso de ferramentas para ingerir alimentos de consistências diferentes.

“O que é realmente interessante sobre a capacidade de conduzir escavações arqueológicas em sítios com ferramentas de primatas é que nós, enquanto espécie, não somos os únicos a ter um registo arqueológico detalhado e minucioso”, diz o coautor do estudo, Tomos Proffitt, investigador de pós-doutoramento na University College de Londres. “Esta escavação revela que esta espécie de primatas no Brasil tem o seu o próprio registo arqueológico individual; tem a sua própria ancestralidade no uso de ferramentas.”

Compreender a forma como os macacos-prego usam as ferramentas pode ajudar a revelar as origens da prática noutros grupos de primatas, incluindo os primeiros membros da linhagem humana. As ferramentas de pedra mais antigas que se conhecem – lâminas lascadas deliberadamente – datam de há 3.3 milhões de anos e são atribuídas ao Australopithecus afarensis ou ao Kenyanthropus platyops, duas espécies antigas de parentes humanos.

O sítio arqueológico dos macacos-prego fica na Serra da Capivara, um parque nacional no Brasil onde os macacos usam atualmente pedras para abrir castanhas de caju.

Mas antes de os hominídeos primitivos lascarem intencionalmente pedaços de pedra para serem usados como ferramentas, acredita-se que usavam pedra arredondada não modificada para processar os alimentos, muito semelhante com o que acontece atualmente com os macacos-prego na Serra da Capivara. Ao estudar a forma como estes macacos usam as ferramentas, os investigadores têm agora uma visão mais clara sobre o que procurar noutros locais mais antigos.

"Fico sempre entusiasmada quando surgem novas evidências da complexidade do comportamento animal", diz Erin Marie Williams-Hatala, antropóloga evolucionária na Universidade de Chatham, que estuda a biomecânica do uso precoce de ferramentas de pedra. "Eu penso que estivemos distraídos durante muitos anos – durante décadas – criando falsas narrativas sobre o que nos distingue dos outros primatas."

Golpes percussivos
Durante muito tempo, o uso de ferramentas foi considerada uma atividade essencialmente humana, mas décadas de investigação expuseram essa linha de pensamento como sendo falsa. Várias espécies de aves usam paus e galhos como ferramentas; os chimpanzés conseguem criar “lanças” para caçar mamíferos. Os orangotangos encontraram uma solução engenhosa para a hidratação: mastigam matéria vegetal e usam-na como se fosse uma esponja, absorvendo água de difícil acesso para depois a espremerem na boca.

Esquerda: Para abrir os cajus, os macacos-prego usam pedras arredondadas que variam entre 25 milímetros e 10 centímetros de largura. Os macacos usam todo o seu corpo nesse empreendimento, um pouco como os ferreiros humanos. Direita: Os macacos-prego esmagam castanhas de caju contra as "bigornas" de pedra que têm cerca de vinte centímetros de diâmetro, ou nas raízes dos cajueiros.

Portanto, acontece o mesmo com os macacos-prego na Serra da Capivara, que ainda hoje abrem as duras cascas de castanha de caju com pedras de quartzito arredondadas, que variam de tamanho entre 25 milímetros e 10 centímetros de largura. O ato de bater nas castanhas de caju com as pedras – seja contra as raízes dos cajueiros ou sobre "bigornas" de pedra – deixa marcas visíveis e manchas castanhas das cascas de caju, evidências dos golpes percussivos.

Há séculos que os habitantes e visitantes do Brasil contam histórias sobre os macacos-prego, e há décadas que os cientistas sabem que estes macacos conseguem usar ferramentas em cativeiro e em testes laboratoriais. Mas até 2004, esse comportamento ainda não tinha sido formalmente documentado na natureza.

“Os moradores locais sabiam disto há muito tempo”, diz o autor do estudo, Tiago Falótico, primatologista na Universidade de São Paulo.

Há cerca de uma década, a equipa de investigação responsável por este novo estudo começou a escavar zonas na Serra da Capivara, numa tentativa de descobrir há quanto tempo as ferramentas eram usadas. Em 2016, os investigadores revelaram que, numa das zonas, existem evidências inequívocas de ferramentas de pedra dos macacos-prego que datam até há 700 anos. Mas não haviam razões para que não existissem materiais ainda mais antigos, e a equipa continuou a escavar.

Alterações na dieta?
Depois de quatro fases de escavação, a equipa tinha desenterrado cerca de 3000 anos de sedimentos, com base na datação por radiocarbono do carvão vegetal presente nas camadas do solo – e ainda estavam a encontrar indícios de ferramentas de macacos-prego. Curiosamente, a equipa de Tiago e Proffitt também reparou em mudanças na utilização da ferramenta. Até há cerca de 560 anos, os macacos-prego usavam pedras arredondadas, relativamente pequenas, que sofriam danos de impactos fortes – um sinal de que muitas vezes os macacos não acertavam nos alvos. Os investigadores acreditam que, na época, os macacos-prego comiam alimentos mais pequenos.

Desde então, os macacos na Serra da Capivara usam pedras maiores, sugerindo que estão a recolher alimentos mais rijos. E nos últimos 300 anos, as escavações de Tiago mostraram que os macacos-prego se ficaram pelo tamanho das ferramentas agora familiares, consistente com a sua estratégia atual para partir as duras cascas de caju.

Porque razão os macacos desta zona mudaram a sua alimentação? Proffitt e Tiago não sabem ao certo. Talvez grupos diferentes de macacos-prego, cada um com os seus próprios gostos distintos, tenham vivido nesta região ao longo de milénios. Também é possível que as alterações reflitam apenas mudanças na comunidade de plantas do local.

Marie Williams-Hatala, que não esteve envolvida neste estudo, salienta que ainda não sabemos exatamente qual era a alimentação dos macacos-prego. As ferramentas mais antigas não têm resíduos de castanhas de caju, podendo significar que aqueles macacos não comiam cajus, ou que os resíduos simplesmente desapareceram com o tempo. Marie também acrescenta que a estratégia geral, no uso destas ferramentas – percussão – não se alterou significativamente ao longo do tempo, advertindo contra uma leitura excessiva das variações no local.

"Um objeto percutido muda com o passar do tempo, mas se isso constitui uma mudança na função da própria ferramenta, ou uma variação comportamental, eu diria que não", diz Marie.

Proffitt e Tiago têm mais estudos na agenda, incluindo um olhar mais amplo sobre a forma de distinguir os diferentes tipos de ferramentas de pedra não humanas. Dessa forma, os investigadores conseguem atribuir mais rapidamente as ferramentas de pedra, em diferentes locais, aos seus utilizadores – e entender os fundamentos evolutivos do uso de ferramentas entre os primatas. E nem todos os grupos de macacos-prego usam ferramentas de pedra – então, porque razão os macacos da Serra da Capivara e dos locais no Panamá as utilizam?

"Na história evolutiva, na ecologia e nos sistemas sociais destas populações de macacos-prego existe algo que separa 38 milhões de anos de ancestralidade comum com os humanos", diz Brendan Barrett, investigador de pós-doutoramento em antropologia evolucionária no Instituto Max Planck. "É provável que isto seja uma evolução independente."

Acima de tudo, os investigadores enfatizam a enorme variedade no uso de ferramentas de primatas – e não a inevitabilidade da evolução dos macacos-prego como os humanos antigos. Por exemplo, por vezes estes macacos quebram lascas de pedra, por acidente, enquanto partem castanhas de caju, mas nunca foram observados na natureza a usar essas lascas como ferramentas de corte, um passo fundamental na evolução humana.

"Se definirmos 'Idade da Pedra' como um período de tempo em que os indivíduos usam pedras como ferramentas, então estes macacos estão na sua própria Idade da Pedra, e isso não é problemático", diz Proffitt. "Saber se esta Idade da Pedra pode evoluir para algo muito mais complexo, não faço ideia."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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