Ciência

Porque Gostamos do que Gostamos: Descobertas Surpreendentes de Um Cientista

Os nossos genes, germes e o ambiente que nos rodeia podem influenciar as nossas preferências gastronómicas – bem como a escolha de parceiros e cores políticas.Tuesday, August 13, 2019

Por Bill Sullivan
Ilustração

Talvez não exista nada que nos defina melhor do que os nossos gostos. Seja na comida, no vinho, nos parceiros românticos ou nos candidatos políticos, as nossas preferências representam a nossa identidade. Por isso, para mim, fazia todo o sentido que as minhas opiniões fossem formadas por deliberações cuidadosas e por tomadas de decisões racionais – ou seja, através de escolhas onde eu exercia algum tipo de controlo.

Mas depois conheci o Toxoplasma gondii. Na minha investigação, na Faculdade de Medicina da Universidade do Indiana, observei como o parasita unicelular T. gondii consegue alterar o comportamento do hospedeiro que infeta. Este parasita pode fazer com que os ratos percam o medo de gatos, e alguns estudos mostram que pode provocar alterações de personalidade (como o aumento da ansiedade) em humanos.

Estes estudos levaram-me a indagar se estariam a acontecer outras coisas que moldassem quem somos, programando os nossos gostos e aversões. Ao investigar a literatura científica, descobri uma verdade espantosa e perturbadora: as nossas ações são regidas por forças biológicas ocultas – temos pouco ou nenhum controlo sobre os nossos gostos pessoais. Os nossos comportamentos e preferências são profundamente influenciados pela nossa composição genética, por fatores no ambiente que afetam os nossos genes e por outros genes introduzidos nos nossos sistemas através de inúmeros micróbios que habitam dentro dos nossos corpos.

Eu percebo que isto parece ridículo. Ensinam-nos que podemos ser o que quisermos, que podemos fazer o que quisermos. Intuitivamente, parece que escolhemos os alimentos de que gostamos, a quem damos o nosso coração ou quais os partidos em que votamos nas urnas. Sugerir que somos apenas robots de carne sob a influência de forças invisíveis é uma loucura!

Há muitos anos atrás eu teria concordado. Mas em inúmeros almoços e jantares, depois de ser confrontado com as razões pelas quais eu não gostava de vegetais que todas as pessoas parecem apreciar, comecei a pensar que existia algo de errado comigo. Fico cheio de inveja sempre que observo alguém a comer de boa vontade coisas como brócolos, por que se alguém me tenta passar os brócolos, o meu corpo retrai-se com o horror. Porque razão não consigo desfrutar de brócolos?

Eu não optei deliberadamente por detestar estes vegetais, por isso, decidi descobrir a razão da minha aversão. Felizmente, a ciência estava em cima da ocorrência. Investigadores descobriram que cerca de 25% das pessoas podem detestar brócolos pela mesma razão que eu. Essas pessoas – “a minha gente” – são chamadas de super-provadores. Temos variações nos genes que constroem as papilas gustativas. Um desses genes, o TAS2R38, reconhece substâncias químicas amargas, como a tioureia, abundantes em brócolos. O meu ADN faz com que eu tenha papilas gustativas que registam os compostos de tioureia como sendo brutalmente amargos. Esta pode ser uma forma do ADN me impedir de comer plantas nocivas. É exatamente o mesmo que a personagem de Seinfeld diz ao seu “aminimigo” Newman – “não comerias brócolos, nem que fossem fritos em molho de chocolate”.

Somos realmente apenas um monte de genes?
Tecnicamente, sim. Mas no nosso genoma existem diversas versões potenciais de nós próprios. A pessoa que vemos ao espelho é apenas uma dessas versões, filtrada por fatores exclusivos aos quais fomos expostos desde a gestação. A nova ciência de epigenética estuda a forma como as alterações químicas feitas no ADN, ou proteínas que interagem com o ADN, conseguem afetar a atividade genética. O ADN pode ser modificado por fatores ambientais que afetam profundamente o desenvolvimento e o comportamento. E também foi demonstrado recentemente que os micróbios no nosso corpo – também conhecido como o nosso microbioma – podem ser um fator ambiental significativo que afeta uma miríade de comportamentos, desde o comer em excesso à depressão. Em suma, somos os nossos genes, mas os nossos genes não podem ser avaliados fora do contexto do nosso ambiente. Os genes são as teclas do piano, mas é o ambiente que toca a música. – Bill Sullivan

Esta explicação, sobre a razão pela qual eu odeio brócolos, é gratificante e perturbadora ao mesmo tempo. Fico aliviado por não ser o culpado da minha aversão a vegetais crucíferos – antes de eu ser concebido, não me foi propriamente dado a escolher os genes que queria. Mas este alívio transforma-se rapidamente em alarme quando me interrogo: quais são os outros fatores, fora do meu controlo, que definem quem sou? Quanto de mim se deve realmente a mim?

E a minha preferência por mulheres? Certamente é algo sob o meu controlo. Vamos começar pelo básico: porque razão me sinto atraído por mulheres em vez de homens? Esta decisão não foi tomada conscientemente enquanto eu contemplava a vida numa praia à noite; eu nasci assim. Os componentes genéticos da sexualidade humana ainda não são completamente percetíveis, mas é óbvio que não são uma escolha.

Independentemente da nossa orientação sexual, parece que temos um senso inato sobre os atributos que definimos como desejáveis num parceiro. Características como uma boca bem delineada, olhos bonitos e cabelos sedosos são amplamente apreciados como atraentes. E os estudos demonstram que as pessoas mais atraentes têm mais propensão para conseguir um emprego, para ganhar mais dinheiro, para encontrar um parceiro – e até serem consideradas “inocentes” em casos de julgamento.

ADN QUE DESAFIA A MORTE Durante a sua carreira de 50 anos de música heavy metal, Ozzy Osbourne ficou famoso pelos seus excessos no uso de álcool e drogas. Em 2010, para perceber o que permitiu a Ozzy sobreviver a um pequeno-almoço de cocaína e a quatro garrafas de conhaque por dia durante décadas, os cientistas analisaram o seu ADN. Descobriram uma mutação nunca antes observada num gene que assimila o álcool. Também descobriram variações em genes ligados à absorção de drogas, dependências e alcoolismo – variações que fazem com que Osbourne tenha 6 vezes mais propensão para desejar álcool e 1,3 vezes mais probabilidades de ser viciado em cocaína. – Bill Sullivan

Os psicólogos evolucionários lembram-nos que, no nosso âmago, virtualmente tudo o que fazemos emerge de uma vontade subconsciente de sobreviver e de reproduzir os nossos genes, ou de apoiar outras pessoas (como a nossa família) com genes semelhantes aos nossos. E também afirmam que muitas das características físicas que consideramos atraentes recaem sobre indícios de boa saúde e condição física – por outras palavras, bons genes para nadar na nossa piscina genética.

A ciência também oferece algum conforto sobre a razão pela qual os nossos esforços amorosos são por vezes rejeitados. Um estudo famoso fez com que mulheres cheirassem a zona das axilas de camisas usadas por homens, para classificar o odor. Quanto mais semelhantes eram os genes do sistema imunitário, pior a camisa cheirava para as mulheres. Existe uma explicação evolucionária sólida para isto: se os genes imunitários dos pais forem muito semelhantes, os seus descendentes não ficarão tão bem equipados para combater os agentes patogénicos. Neste caso, os genes usavam os recetores de odor como um indicador para avaliar se o ADN de um potencial parceiro pode ser uma boa combinação. Estudos como este afirmam que a química entre as pessoas é algo que realmente existe. Se calhar não devemos levar o desinteresse romântico de outras pessoas tão a peito, mas encarar isso como uma rejeição de um órgão.

Um pouco angustiado com o nível de controlo que os genes parecem exercer sobre as nossas escolhas de vida, investiguei uma área sobre a qual eu tinha a certeza de que o ADN não tinha alcance: a nossa preferência por líderes políticos. É fácil imaginar os genes a desempenharem um papel no facto de alguém ser destro ou canhoto, mas será que também fazem com que uma pessoa se incline politicamente para a direita ou para a esquerda? Eu achava que não. No entanto, por mais improvável que possa parecer, as urnas estão encerradas e o ADN conseguiu outra vitória.

Os cientistas descobriram traços distintos de personalidade que tendem a ser associados a pessoas em lados opostos do espectro político. Em geral, os liberais tendem a ter uma visão mais aberta, criativa e inovadora; os conservadores tendem a ser mais ordeiros e convencionais e preferem a estabilidade. Gémeos idênticos, separados à nascença e criados em ambientes diferentes, estão normalmente de acordo nas suas opiniões políticas quando se reúnem, sugerindo a existência de um componente genético para a nossa bússola política. Vários estudos sugerem que as variações no gene do recetor de dopamina D4 (DRD4) influenciam se votamos no vermelho ou no azul. A dopamina é um neurotransmissor fundamental no cérebro, associado ao nosso centro de recompensa e de prazer; e as variações no DRD4 têm sido associadas à procura de novas experiências, comportamentos normalmente associados aos liberais.

Outra investigação demonstrou que determinadas áreas do cérebro são diferentes nos liberais e nos conservadores, e isso pode afetar a forma como respondem a estímulos stressantes. Por exemplo, os conservadores tendem a ter uma amígdala maior, o centro do medo no cérebro, e têm reações fisiológicas mais fortes a fotografias ou a sons desagradáveis. Consideradas em conjunto, estas diferenças biológicas podem explicar parcialmente por que razão é tão difícil para um liberal, ou para um conservador, fazer o outro "ver a luz". Estamos a pedir às pessoas que mudem não só de ideias, mas também que lutem contra a sua biologia.

Estes exemplos são apenas a ponta do icebergue. A verdade é que todo o comportamento humano – incluindo dependências, atração e ansiedade – está ligado a uma âncora genética. Contudo, isto não significa que estamos destinados a ser escravos do nosso ADN. O ADN construiu nos humanos um cérebro tão magnífico que descortinou o funcionamento do próprio ADN. E com o advento da edição de genes, tornamo-nos na primeira espécie capaz de corrigir as nossas instruções genéticas.

A ciência mostrou que não somos quem pensamos ser. Existem elementos biológicos que conduzem todas as ações e traços de personalidade que presumimos ser da nossa vontade própria. Inicialmente, esta perceção é desanimadora, mas conhecimento é poder. Conhecer a base molecular dos nossos comportamentos adversos pode colocar-nos numa posição onde os podemos alterar ou remediar; aceitar que as outras pessoas não têm grandes opções na sua forma de ser deve servir como um catalisador para gerar mais empatia e compaixão. Pode ser que, com a noção de que não temos o controlo por completo, consigamos resistir à vontade de elogiar ou de culpar alguém e, em vez disso, procuremos uma compreensão maior.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 
Bill Sullivan é professor de farmacologia e microbiologia na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, onde estuda doenças infecciosas e genética. O seu livro Pleased to Meet Me: Genes, Germs, and the Curious Forces That Make Us Who We Are está disponível em livrarias e em shopng.com/books.
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