Ciência

Promessas de Intimidade da Indústria Asiática de Live-Streaming e a Solidão dos Utilizadores

As celebridades da internet fazem transmissões onde cantam, comem e dormem – por dinheiro. segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Por Claire Wolters
Fotografias Por Jerome Gence
Lala, 35 anos, a fazer um live stream a partir de um quarto de hotel, em Kaohsiung, Taiwan. Lala é uma live streamer independente que cultivou cerca de 75.000 seguidores na aplicação LiveAF, gerida pela 17 Media. Quando sai para trabalhar, Lala deixa a sua filha pequena, Mong Mong, no seu apartamento. Lala trabalha sentada, sozinha, em vários quartos de hotel, onde envia sorrisos para os fãs esperançosos que assistem nos telemóveis.

Com o cair da noite sobre a cidade de Taipei, a imagem de uma mulher chamada Lala ilumina o céu noturno. Lala é uma das live streamers mais famosas de Taiwan – um grupo de celebridades que ganha a sua fama em frente a câmaras de vídeo. O seu rosto está num cartaz com 30 metros de altura com vista sobre Taipei.

Por toda a Ásia, existem inúmeras outras transmissões ao vivo onde os streamers brincam, comem e dormem, enquanto são vigiados por milhares de pessoas em telemóveis e monitores de computador. Os mais bem sucedidos conseguem amealhar fortunas que dão para comprar as suas próprias ilhas. Mas a promessa de intimidade oferecida por esta indústria pode alimentar uma existência solitária, tanto para as estrelas, como para os fãs.

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Depois de um longo dia de trabalho, numa fábrica de tecidos, Junji Chen passa o pouco tempo que tem a admirar os olhos de Yutong, a sua streamer preferida. Junji Chen, de 42 anos, veio da sua aldeia para trabalhar na cidade de Taipei e tem pouca vida social. A maior parte dos relacionamentos que tem é feita com amigos no Facebook, muitos dos quais nunca conheceu pessoalmente – e com live streamers.

Yutong não consegue ver nem ouvir Junji, mas para ele, a ligação entre ambos parece real, talvez até reciproca. Para prolongar esse sentimento, só precisa de tocar com o dedo no ecrã. Na secção de comentários, Junji pode elogiá-la e enviar-lhe dinheiro sob a forma de autocolantes virtuais.

Um autocolante pode custar milhares de euros, um valor muito elevado para um trabalhador fabril num país onde o ordenado mínimo está abaixo dos €5 à hora. Mas para os espetadores solitários como Junji, que gasta um terço do seu salário em autocolantes virtuais, a companhia vale o dinheiro.

No Distrito de Da'an, no centro de Taipei, a empresa 17 Media possui um cartaz publicitário com 30 metros de altura, por cima de uma loja da Rolex. No cartaz, quatro live streamers posam com uma frase que apela às almas mais solitárias da cidade: “Eu quero estar contigo.”

As aplicações de live streaming foram lançadas na Coreia do Sul em 2006, sob a forma de plataformas onde as personalidades da internet podiam falar, comer, dançar e até dormir em frente a uma câmara. A popularidade destas aplicações abrange agora a Coreia do Sul, o Japão, a China e Taiwan. Plataformas como a 17 Media, fundada em Taiwan em 2015, têm mais de 30 milhões de utilizadores globais e produzem diariamente mais de 10.000 horas de conteúdos. Com mais de 10 milhões de downloads nos primeiros 250 dias do seu lançamento, a taxa inicial de crescimento da 17 Media ultrapassou a do Instagram e do Facebook.

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Quando viajava à boleia pela China, Chi Hui Lin abriu pela primeira vez uma transmissão em live stream. Tendo crescido em Taiwan, Chi Hui Lin testemunhou o crescimento da indústria. A publicidade começou a inundar as grandes cidades e os nomes das plataformas começaram a fazer parte das conversas casuais. Mas Chi nunca se tinha sentido tentada a abrir uma aplicação.

Esquerda: Huh Mino prepara-se para comer ao vivo no seu apartamento, em Seul, na Coreia do Sul. Huh Mino ganha entre €400 e €800 por sessão. Quanto mais comida come, dependendo da rapidez com que come, mais dinheiro ganha. Objetivo do dia: 10 hambúrgueres em 10 minutos. Direita: Huh Mino fala com os fãs online e ajusta a qualidade do seu microfone para melhorar a qualidade das sessões, ganhando assim mais autocolantes virtuais.

Quando finalmente o fez, não achou a transmissão particularmente interessante. A indústria consiste predominantemente – mas não exclusivamente – em live streamers femininas que transmitem para fãs masculinos. Ainda assim, despertou a curiosidade de Chi.

Jerome Gence, fotógrafo e companheiro de viagem de Chi, também estava curioso. Jerome ficou fascinado pela relação entre os humanos e a tecnologia quando trabalhava como analista de rede, em França, mas nunca tido sido exposto a este fenómeno. Chi e Jerome decidiram fotografar os live streamers e os fãs por toda a Ásia.

Q Jiang, um live streamer canino muito famoso, num encontro com os fãs em Kaohsiung, Taiwan. Q Jiang fica sentado num carro elétrico enquanto o seu dono responde às perguntas dos fãs.

Durante mais de 7 meses, Chi e Jerome conheceram as estrelas desta indústria: um homem bem constituído que come enormes quantidades de comida; uma jovem magra que altera a forma do rosto com filtros de uma aplicação; um cão que anda num carrinho elétrico. E também descobriram que as cadeiras maravilhosas e os fundos vibrantes que aparecem por trás da maioria dos live streamers não são o que parecem. "Temos este fundo colorido e incrível", diz Jerome. "Mas à sua frente, nem sequer têm uma janela."

Atrás dos ecrãs
Dentro da indústria de live streaming, cada país tem um conjunto de regras diferente.

A primeira paragem de Chi e Jerome foi na Redu Media, uma agência chinesa de live streaming com instalações em Xi'an e Pequim. A China vigia todos os live streamers de perto e proíbe-os de falar sobre política durante as transmissões. Nesta empresa, a dupla conheceu live streamers que viviam em pequenas instalações com muitas restrições.

Em Taiwan, conheceram os live streamers nas suas próprias casas. Depois, visitaram os apresentadores da Afreeca.tv, a maior empresa de live stream da Coreia do Sul. Em Taiwan, no Japão e na Coreia do Sul, os live streamers podem participar em debates políticos e trabalhar em casa, em vez de estar numa agência.

O trabalho pode provocar danos físicos e mentais. As horas de pico acontecem a altas horas da noite, dando origem a períodos de sono irregulares e fadiga. Alguns streamers isolam-se dos amigos e da família, ou ficam com depressões. Na Coreia, os live streamers que comem enormes quantidades de comida em frente às câmaras – atividade conhecida por Mukbang – são propensos à obesidade. Alguns acabam por rejeitar a comida após as sessões de excesso e podem ter problemas de saúde e insuficiência cardíaca.

Lala, 35 anos, tira uma selfie com os fãs numa sessão de autógrafos de um dos seus livros de fotografias, num centro comercial em Kaohsiung, Taiwan. Lala e os outros live streamers famosos raramente se encontram com os fãs, a não ser que envolva dinheiro.
Esquerda: Mong Mong, filha de Lala, vê a mãe na televisão. Devido às horas que trabalha, Lala raramente está em casa. Mong Mong já se habituou à sua ausência. Direita: Mong Mong esconde os olhos, enquanto a mãe, Lala, faz um live stream a ajudar os sem-abrigo na associação local de Kaohsiung.

Quando Lala, uma das live streamers mais famosas de Taiwan, vai trabalhar, deixa a sua filha de 5 anos, Mong Mong, em casa. A mãe de Lala disse a Chi e a Jerome que temia que a sua filha não tivesse um relacionamento autêntico fora da indústria – apesar de ter quase 75.000 seguidores na LiveAf, uma aplicação produzida pela 17 Media.

O sucesso de um live streamer depende da sua popularidade digital e para agradar aos fãs podem ter comportamentos que prejudicam a sua saúde. E quando a intimidade se perde, a fonte de rendimento desaparece.

Chi diz que, “neste trabalho, os live streamers sofrem de inseguranças porque não sabem quanto tempo é que os fãs vão gostar deles. Aos fãs, basta tocar com um dedo no ecrã para mudar de sessão, para outro live streamer.”

Financeiramente, poucos conseguem viver só da indústria. De acordo com os dados de 2016 do WeChat, uma aplicação social chinesa, mais de 90% dos live streamers tem outro emprego e apenas 17% fica no setor durante mais de dois anos.

Independentemente disso, empresas como a 17 Media conseguem os seus lucros. “Eventualmente, o vencedor é a plataforma”, acrescenta Chi.

Alvos fáceis
Kongto, um fã de 32 anos, vive na casa dos pais em Miaoli, Taiwan, e nunca beijou uma rapariga. Sente-se mais à vontade a expressar o seu amor a uma live streamer na internet do que a uma mulher na vida real. Kongto assiste à sua live streamer preferida, Yutong, em privado, temendo que os pais descubram o seu hábito.

Kongto é um dos muitos solteiros que assistem a live streams para combater a solidão. Isto acontece de forma mais predominante nos países asiáticos, onde é suposto muitos dos jovens abandonarem as suas aldeias para trabalhar nas fábricas da cidade. Sem um rosto familiar a quilómetros de distância, recorrem aos live streams para lutar contra a solidão do seu novo ambiente.

Hanse espreita pela janela do seu carro luxuoso, em Seul. “Às vezes, durante a noite, tenho pesadelos onde já ninguém segue os meus live streams”, diz. Apesar de ter acumulado uma fortuna com o seu trabalho, Hanse diz que nunca chorou tanto na vida como agora.

Esta geração tem “mais facilidade a relacionar-se nas plataformas de streaming”, diz Nan Zhang, da empresa de marketing Metis International, que investiga a indústria de live stream na China desde 2016. “Com os pais, os irmãos ou com os colegas, podem não conseguir ser genuínos ou abrir a boca”.

A mudança rápida da China, de uma sociedade coletivista para uma individualista, desempenha um papel fundamental no facto dos jovens assistirem a live streams, acrescenta Zhang. Para além disso, a política de filho único da China, adotada pela primeira vez em 1980, dá preferência aos rapazes. Atualmente, milhões de homens de vinte e poucos anos lidam com a falta de companhia feminina assistindo a live streams.

Bem-me-quer, malmequer
Os fãs de live streaming podem manifestar “relações parassociais”, amizades unilaterais que parecem reciprocas, com os seus live streamers preferidos. Para uma pessoa com poucas capacidades de interação social, as relações parassociais conseguem criar uma ilusão de companhia quando, na realidade, a outra pessoa oferece muito pouco, ou nada, em troca.

Kostadin Kushlev, professor assistente de psicologia na Universidade de Georgetown, investigou o impacto que o tempo de exposição a um ecrã pode ter no nosso bem-estar. Kushlev descobriu que as interações através de telemóveis, ou de outros dispositivos tecnológicos, não conseguem ter os mesmos benefícios que as relações do mundo real.

Esquerda: Kongto no seu quarto a assistir a um live stream de Yutong, a sua streamer favorita. Nos últimos 32 anos, o quarto, a mobília e o facto de nunca ter beijado uma rapariga mantêm-se inalterados. Online, Kongto tem a confiança que lhe falta no mundo real. Direita: Junji, 42 anos, está numa loja de Taipei à procura de uma prenda para Ciaoyo, uma das suas live streamers preferidas. Junji nunca conheceu Ciaoya, mas espera poder oferecer-lhe um presente no futuro. Para além dos autocolantes virtuais, os fãs também podem oferecer presentes físicos aos live streamers – como bonecos de peluche, almofadas personalizadas e até gás pimenta para proteção. Alguns live streamers organizam eventos onde conhecem os fãs e recebem as ofertas.
Junji sente que não tem amigos em Taipei, cidade para onde se mudou para trabalhar numa fábrica de tecidos. As live streamers fazem-lhe companhia, e ele paga essa companhia enviando-lhes autocolantes virtuais. Todos os meses, Junji gasta cerca de um terço do seu salário a comprar autocolantes.

"Em teoria, estes dispositivos têm a capacidade de nos ligar", diz Kushlev. "Mas quando começamos a substituir as interações cara a cara por interações digitais, acabamos por cair num ciclo interminável onde temos a necessidade de nos conectar uns aos outros, mas não conseguimos".

Os fãs acreditam que são realmente apreciados, diz Jerome, mas “ao final do dia, o streamer acaba por ficar com o dinheiro e o fã fica apenas ainda mais solitário”. Mesmo assim, acrescenta Jerome, alguns fãs ainda afirmam que os vídeos ajudam a cultivar a amizade e até mesmo o amor. "Alguns fãs dizem-nos: 'Eu sigo os live streamers porque são os únicos que sabem o meu nome.'"

Desde que terminaram o projeto, os fotógrafos descobriram que Junji Chen, o fã de live streams de Taiwan, tinha parado de ver a sua adorada Yutong. Junji acabou por admitir a Chi que as live streamers nunca iriam retribuir o seu amor, e diz que se quer focar em cuidar melhor de si próprio.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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