Continente Perdido Revelado Através de Reconstrução Geológica

Uma recriação altamente detalhada dos últimos 240 milhões de anos revela a história conturbada de um antigo continente chamado Grande Adria.sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Por Robin George Andrews

FAÇA UMA CAMINHADA pelas cordilheiras de montanhas do Mar Adriático e pode dar consigo a subir pelos destroços amontoados de um continente há muito perdido.

De acordo com o trabalho apresentado na revista Gondwana Research, esta amálgama de rochas representa as ruínas de um pedaço de crosta continental, do tamanho da Gronelândia, que foi demolida há milhões de anos. A saga do desaparecimento deste continente faz parte de um novo relatório que recria com detalhes sem precedentes os últimos 240 milhões de anos da história tectónica do Mediterrâneo.

O modelo mostra como o continente se separou da região onde atualmente fica a Espanha, o sul de França e o norte de África, formando uma massa de terra separada que a equipa apelidou formalmente de Grande Adria. Mas com os movimentos continuados das placas rochosas do planeta, este continente desmoronou-se em várias zonas de subducção – as mandíbulas de destruição geológica da Terra.

Enquanto mergulhava nas profundezas do manto terrestre, a camada superior do continente começou a soltar-se, como se um titã estivesse a descascar uma maçã de proporções colossais. Estes destroços assentaram nas placas sobrepostas, prontos para formar as futuras montanhas de Itália, Turquia, Grécia, Alpes e Balcãs.

Durante o lento processo de subdução, muitas lascas do continente conseguiram escapar da obliteração. Estas relíquias imaculadas do Grande Adria podem ser hoje encontradas no calcanhar da bota de Itália, espalhadas de Veneza a Turim, e na região Ístria da Croácia – o que significa que podemos passar férias nos fragmentos de um continente perdido.

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Reconstruir esta fatia do nosso passado geológico é essencial para compreender o presente, diz o líder do estudo, Douwe van Hinsbergen, especialista em tectónica e geografia antiga na Universidade de Utrecht.

"Tudo o que vemos à nossa volta que não seja de madeira ou tecido foi encontrado por um geólogo numa montanha", diz van Hinsbergen. Os minérios e metais que agora são vitais para a civilização encontram-se nestes cumes.

Com o passar do tempo, partes interligadas do continente foram sendo fragmentadas pelo pandemónio gerado pelas placas tectónicas.

Modelos como o do novo estudo permitem-nos viajar no tempo e observar esse processo. Por exemplo, se encontrarmos um depósito de cobre num determinado país, estas reconstruções permitem-nos descobrir o paradeiro dos seus fragmentos, criando mapas do tesouro da era moderna.

Rebobinar o quebra-cabeças
Recriar a evolução geológica do Mediterrâneo desde o período Triássico não foi uma tarefa fácil. Os cientistas já possuíam um vasto conhecimento sobre a história tectónica da região, mas este labiríntico quebra-cabeças geológico fez com que as análises mais detalhadas fossem muito difíceis de realizar.

"O Mediterrâneo parece os restos do pequeno-almoço de um cão", diz Robert Stern, especialista em placas tectónicas na Universidade do Texas, em Dallas, que não esteve envolvido neste trabalho.

Nesta região caótica, muitos geólogos já tinham encontrado indícios da existência de um continente perdido, mas os principais detalhes da sua história continuavam a escapar aos cientistas. Os destroços estão espalhados por cerca de 30 países, e cada país tem os seus próprios modelos, mapas, técnicas de investigação e terminologias. E na literatura o continente também tinha vários nomes.

Para obter resultados, a equipa passou 10 anos a recolher um dilúvio de dados geológicos e geofísicos de toda a região, ligando-os ao seu modelo com um software chamado GPlates. Nos últimos 15 anos, este software, que van Hinsbergen afirma ser "relativamente à prova de idiotas", permitiu visualizar e ajustar mais detalhadamente os sistemas das placas tectónicas. O processo meticuloso seguido pela equipa revelou os mistérios da história deste continente perdido.

Há cerca de 240 milhões de anos, o Grande Adria fazia parte do supercontinente Pangeia, onde atualmente fica o norte de África, a Espanha e o sul de França. 20 milhões de anos depois, o continente separou-se de África, e 40 milhões de anos mais tarde separou-se de França e Espanha, para se tornar um continente isolado.

Embora de momento a sua geografia ainda seja uma incerteza, provavelmente era semelhante ao continente parcialmente submerso da Zelândia (neste caso, Nova Zelândia e Nova Caledónia), com pedaços de terra a saírem do mar. Ou pode ter sido como as Florida Keys, um arquipélago de ilhas não vulcânicas.

Empreendimento monumental
A destruição do Grande Adria começou há 100 milhões de anos, quando o continente encontrou o sul da Europa da atualidade, e partes mergulharam debaixo de uma série de placas de toda a região. Esta subducção dispersa do continente significa que "cada bocado tem a sua própria história", diz van Hinsbergen. "É assim que obtemos o caos geológico chamado Mediterrâneo."

Contudo, “quando os continentes desaparecem, costumam deixar marcas da sua existência”, diz van Hinsbergen, e isso inclui as cicatrizes das construções de montanhas.

A colisão entre dois continentes pode criar montanhas, como aconteceu com a cordilheira dos Himalaias. Mas as montanhas também se podem formar sem zonas de colisão. A placa superior pode raspar as camadas mais elevadas da zona de subducção, diz Stern, e os fragmentos deste processo podem amontoar-se para formar montanhas. (Descubra como a placa tectónica ao largo de Portugal pode estar em rutura.)

Este princípio foi vital na reconstrução do passado do Mediterrâneo, diz van Hinsbergen. Os geólogos conseguem fazer a correlação entre a quantidade de destroços deixados pela construção das montanhas que temos hoje com o comprimento da secção da placa original, engolida pelo manto subjacente, permitindo modelar com precisão as peças do antigo quebra-cabeças.

“Este trabalho foi claramente um empreendimento monumental", diz o geofísico Dietmar Müller, um dos responsáveis pelo projeto EarthByte na Universidade de Sydney – o grupo de investigação que desenvolveu o GPlates. O esforço realizado é comparável ao que foi feito pelo EarthByte na recriação da história tectónica de todo o planeta – mas o que este novo trabalho perde em grande escala, diz Müller, ganha em detalhes de cortar a respiração.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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