Ciência

Crânio “Inédito” Revela Rosto de Antepassado Humano

O espantoso fóssil oferece uma visão dos primórdios da evolução humana. “É o crânio pelo qual estávamos à espera”, diz uma cientista.quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Por Michael Greshko
Com a designação formal de MRD-VP-1/1, este crânio recém-descoberto pertence a um antepassado humano primitivo chamado “Australopithecus anamensis”.

Uma descoberta fortuita, feita num cercado de cabras, na Etiópia, revelou um fóssil único: o crânio quase completo de um antepassado humano que morreu há 3.8 milhões de anos.

O novo espécime – descrito no dia 28 de agosto na revista Nature – é o crânio mais antigo de um australopitecídeo, um grupo importante de antepassados humanos que viveu entre 1.5 e 4 milhões de anos atrás. E também é o primeiro crânio alguma vez encontrado de um Australopithecus anamensis, um dos primeiros membros deste género.

"Isto leva-nos até há cerca de 3.8 milhões de anos e revela como eram os nossos antepassados naquela altura", diz o principal autor do estudo, Yohannes Haile-Selassie, paleoantropólogo no Museu de História Natural de Cleveland. "É um momento verdadeiramente emocionante."

O paleoartista John Gurche reconstruiu a face do “Australopithecus anamensis” através do mapeamento em 3D do crânio recém-descoberto.

Esta descoberta pode preencher várias lacunas importantes no estudo da evolução humana. Os fósseis de hominídeos antigos, ou de antepassados humanos, são extremamente raros e geralmente não passam de fragmentos de ossos. Mas este crânio recém-descoberto está quase completo, algo que pode revelar muitos dos detalhes sobre a forma como os nossos antepassados viveram e evoluíram.

"É o crânio pelo qual estávamos à espera", diz Carol Ward, paleoantropóloga na Universidade do Missouri, que não participou neste estudo. “Os crânios de hominídeos são tesouros excecionalmente raros, e encontrar um tão antigo e quase completo é praticamente inédito.”

“Tinha as mãos a tremer”
O emaranhado de raízes da árvore genealógica humana remonta a África, há mais de 4 milhões de anos, até uma variedade de primatas antigos como os Ardipithecus e os Sahelanthropus. Só há cerca de 3 milhões de anos é que o nosso género Homo surgiu, uma saga evolutiva onde antepassados como o Australopithecus afarensis tiveram um papel fundamental.

Mais conhecido pelos fósseis que pertencem a um individuo chamado Lucy, este hominídeo primitivo e os seus parentes posteriores tinham cérebros maiores do que os primatas que os precederam. Conseguiam andar sobre os dois pés e tinham maxilares fortes que lhes permitiam comer uma enorme variedade de alimentos. Esta flexibilidade terá sido útil: durante o auge do A. afarensis, há cerca de 3.5 milhões de anos, as alterações naturais no clima estavam a tornar a África Oriental mais fria e seca, diminuindo as florestas às quais os nossos antepassados chamavam casa. Com o tempo, a evolução esculpiu o A. afarensis e os seus descendentes de maneira a tirarem proveito de ambientes mais abertos e variados.

Mas o Australopithecus afarensis não foi a primeira criatura a surgir com estas características. Em 1995, os cientistas descreveram o Australopithecus anamensis, um australopiteco ainda mais antigo e antepassado provável do A. afarensis. A espécie atormentava os cientistas porque partilhava características-chave com Lucy e com os australopitecos posteriores. Mas o A. anamensis permaneceu teimosamente na sombra. Os seus únicos restos conhecidos consistiam apenas em fragmentos de dentes e maxilares. "Apesar dos vários crânios de A. afarensis, não sabíamos qual era o rosto dos membros mais antigos deste género", diz Zeray Alemseged, paleoantropólogo na Universidade de Chicago que não participou no estudo.

Mas a verdade estava prestes a chegar, no dia 10 de fevereiro de 2016, graças à incrível sorte de um pastor chamado Ali Bereino. Nessa altura, uma expedição coliderada por Haile-Selassie estava a fazer escavações em Woranso-Mille, um campo na região Afar da Etiópia, a menos de 5 km de Miro Dora, onde Bereino estava a pastorear. Segundo Haile-Selassie, Bereino já tinha tentado ser contratado pela sua equipa durante vários anos. Às vezes o pastor dizia que os fósseis emergiam das rochas erodidas; mas quando Haile-Selassie o visitou, não encontrou nada.

Naquele dia em particular, Bereino estava a cavar para fazer um anexo temporário no cercado das cabras, quando reparou num osso exposto na superfície de arenito. Bereino entrou em contacto com um funcionário do governo local que concordou que poderiam estar perante uma coisa interessante para Haile-Selassie.

Quando o funcionário contactou Haile-Selassie, o paleoantropólogo manteve o seu ceticismo, respondendo que Bereino deveria marcar o local onde tinha encontrado o fóssil e levá-lo até ao seu acampamento. Quando Bereino e o funcionário chegaram, Haile-Selassie percebeu de imediato a magnitude da descoberta. Bereino tinha encontrado uma maxila, ou maxilar superior, pertencente a um hominídeo antigo.

Haile-Selassie parou tudo o que estava a fazer e caminhou cerca de 4 km até ao cercado de cabras de Bereino. A poucos metros de onde Bereino tinha encontrado a maxila, Haile-Selassie viu o que mais tarde se viria a revelar o resto do crânio. "Eu nem lhe toquei, comecei apenas a saltar de contentamento", diz Haile-Selassie. “O funcionário olhou para mim e disse aos seus amigos: ‘O que está a acontecer com o doutor? Ele está a enlouquecer?"

Quando Haile-Selassie viu que a maxila e o crânio encaixavam, regressou ao acampamento com os fósseis, embalando-os num cachecol emprestado. "Nunca o vi tão feliz na minha vida", diz Stephanie Melillo, coautora do estudo, paleontóloga no Instituto Max Planck e membro da expedição. "Ele nem conseguia falar, tinha as mãos a tremer.”

Relógio de cinzas
No dia seguinte, Haile-Selassie, Melillo e a equipa caminharam até Miro Dora. Determinados a peneirar até ao mais ínfimo fragmento de osso, espalharam-se por uma área com 5 metros de diâmetro. Mas fazer uma investigação minuciosa exigia meter as mãos na massa. A área incluía uma pilha malcheirosa: anos de esterco de cabra em camadas de até 30 centímetros. Mas suportar o cheiro nauseabundo valeu a pena. Nos dias seguintes, os investigadores encontraram mais partes do crânio debaixo do esterco, incluindo um osso malar crucial.

De regresso ao laboratório, a equipa de Haile-Selassie descobriu que os maxilares e dentes se assemelhavam mais aos do A. anamensis. Mas identificar o crânio era apenas uma parte do mistério. Quando e onde é que este A. anamensis viveu e morreu?

Para o descobrir, uma equipa de geólogos liderada por Beverly Saylor examinou detalhadamente o terreno de Woranso-Mille. Estavam à procura de tufos, camadas de sedimentos criadas por antigas cinzas vulcânicas. Alguns minerais no tufo contêm traços de potássio-40 radioativo, que se deterioram como um relógio, desde o momento de criação dos minerais até ao presente. Fazendo uma contagem dos produtos em decomposição, a equipa de Saylor conseguiu obter a data de criação dos cristais – e do tufo como um todo. Para datar o crânio, a equipa precisava de analisar os dois tufos que prensavam os sedimentos do fóssil.

Num segundo estudo, também publicado na Nature, a equipa de Saylor diz que o tufo na camada superior do crânio se formou há cerca de 3.76 ou 3.77 milhões de anos. E o tufo na parte inferior formou-se há pouco mais de 3.8 milhões de anos. Para além disso, os investigadores conseguiram reconstruir o ambiente onde crânio estava enterrado: descobriram que estava num delta fluvial, nas margens de um lago, cercado por árvores e arbustos. “Provavelmente morreu ao longo do rio, ou nas margens deste lago, e depois foi-se enterrando no delta”, diz Saylor, estratigráfico na Universidade Case Western Reserve.

Evolução multifacetada
O rosto encaixa de diversas maneiras nas expetativas dos investigadores. Tal como acontece com outros australopitecos, o rosto do A. anamensis era longo e inclinado, ao contrário dos rostos planos dos humanos modernos. As dimensões dos seus dentes e maxilares também fazem sentido: os australopitecos posteriores tinham rostos grandes e largos para acomodar os ossos e músculos necessários para o consumo de dietas difíceis. E apesar de o A. anamensis ter uma face mais robusta que a dos primatas anteriores, não era tão grande como a dos seus futuros primos.

Mas se Haile-Selassie e Melillo estiverem corretos, o crânio pode levantar mais questões sobre a evolução do A. afarensis.

Uma característica importante nos crânios dos hominídeos antigos é o quanto o crânio se afunila atrás das órbitas oculares. Os hominídeos mais antigos e primitivos tendem a ter crânios mais contraídos do que os mais jovens. O novo crânio do A. anamensis estreita-se consideravelmente atrás das órbitas oculares. Esta faceta pode esclarecer a identidade do frontal de Belohdeli, um fragmento de crânio de um australopiteco com 3.9 milhões de anos encontrado em 1981.

Quando o frontal de Belohdeli foi descoberto pela primeira vez, alguns investigadores pensaram que podia pertencer ao A. afarensis, mas não tinham a certeza. A situação ficou ainda mais obscura quando descobriram o A. anamensis. Os investigadores não conseguiam confirmar se o osso frontal pertencia ao A. anamensis, já que não existiam frontais específicos dessa espécie.

"Este fóssil esteve durante décadas num limbo taxionómico ", diz Melillo.

Agora que têm um novo crânio de referência, Melillo e Haile-Selassie dizem que o frontal de Belohdeli não pertence ao A. anamensis, mas sim ao A. afarensis.

Como o frontal de Belohdeli é mais antigo que o crânio recém-descoberto, existe a possibilidade de o A. anamensis e o A. afarensis se terem sobreposto no tempo – há cerca de 3.8 ou 3.9 milhões de anos. É uma mudança evolutiva inesperada: os cientistas presumiam que as gerações sucessivas de A. anamensis tinham evoluído para o A. afarensis, um processo linear que impediria qualquer sobreposição. Em vez disso, os investigadores argumentam que, há 3.9 milhões de anos, um grupo de A. anamensis se ramificou e evoluiu para o A. afarensis, enquanto que outros grupos de A. anamensis permaneceram estáveis.

Alguns cientistas afirmam que a confirmação deste cenário evolutivo exige o estudo de mais fósseis. "Para estarmos seguros... precisamos de bons tamanhos de amostras, tanto em pontos temporais como ao longo do tempo", diz William Kimbel, paleoantropólogo no Instituto de Origens Humanas da Universidade Estadual do Arizona (não esteve envolvido no estudo). "Com base em apenas duas amostras, não podemos afirmar com exatidão quais foram os modos de evolução."

A equipa de investigação afirma ter mais estudos em mente, incluindo uma visão mais detalhada sobre a forma como o A. anamensis e o A. afarensis podem ter diferido nas suas dietas e estilos de vida.

“É algo que nos deixa completamente maravilhados”, diz Melillo. “Ser capaz de ver o rosto de uma entidade que me era familiar, e sobre a qual tinha muitas noções, foi espetacular.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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