Nova Descoberta Revela Como o T-Rex Mantinha o Cérebro Arrefecido

Os animais com cabeças grandes têm dificuldades em manter temperaturas baixas. Mas os tecidos ricos em vasos sanguíneos podem ter resolvido o problema para alguns dos dinossauros.quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Para evitarem o sobreaquecimento, os animais grandes, como os elefantes e os rinocerontes, desenvolveram estratégias para se refrescarem. É provável que os dinossauros como o Tyrannosaurus rex tenham enfrentado o mesmo problema – e novas investigações descobriram que os enormes carnívoros podem ter solucionado essa questão com o desenvolvimento de sistemas de ar condicionado na cabeça.

Os investigadores, liderados por Casey Holliday, observaram buracos enormes no topo de crânios de dinossauros carnívoros. Um estudo anatómico detalhado revelou que as cavidades podem ter contido tecidos ricos em gordura e vasos sanguíneos.

Estas estruturas podem ter sido úteis na dissipação de calor, quando os dinossauros estavam muito quentes, e na absorção de calor, quando arrefeciam, segundo relata a equipa na revista The Anatomical Record.

"Descobrimos que os grandes dinossauros terópodes – e até alguns mais pequenos, como o Velociraptor – tinham umas bolsas que podiam ter vasos sanguíneos e que podiam ser úteis na regulação térmica", diz Holliday, paleontologista na Faculdade de Medicina do Missouri.

Escondido à vista de todos
Há mais de um século que os paleontologistas pensavam que estas cavidades ajudavam a suportar os músculos dos maxilares de espécies como o T. rex, dado que nos dinossauros e nos seus parentes vivos – as aves – estas depressões ficam na parte frontal dos principais músculos de abertura dos maxilares.

"As pessoas acreditavam que estes pontos alongados serviam para os músculos se expandirem", diz Thomas Holtz, que não participou no estudo, mas é especialista em tiranossauros na Universidade de Maryland College Park.

Mas quando Holliday analisou estas aberturas cranianas nos dinossauros, em jacarés e noutros animais, a velha teoria não encaixava. Por um lado, se o espaço ancorasse os músculos dos maxilares do T. rex, o músculo teria de sair da mandíbula, girar 90 graus e serpentear pelo topo do crânio. Para além disso, a superfície lisa do osso sugeria que as fibras musculares e os tendões não se fixavam nessa zona.

Quando os investigadores estudaram a anatomia de jacarés e de aves modernas – alguns dos parentes vivos mais próximos dos dinossauros não-aviários – repararam que os animais costumavam ter essa região preenchida com gordura e vasos sanguíneos. E tal como acontece com os dissipadores de calor dos sistemas de ar condicionado, essa estrutura pode ter permitido que o sangue dissipasse ou absorvesse calor.

Para testar esta interpretação, os investigadores usaram câmaras de visão térmica para observar as cabeças de jacarés modernos, no Parque Zoológico St. Augustine Alligator Farm, na Flórida. As imagens mostraram que, em diferentes momentos do dia, a área do crânio com esta estrutura estava relativamente mais quente, ou mais fria, que o resto da cabeça do animal, dependendo da necessidade de dissipação ou absorção de calor.

"Um dos principais desafios fisiológicos que os animais grandes enfrentam reside na capacidade de libertação de calor", diz Holliday. "Se os grandes dinossauros terópodes fossem animais de sangue quente... então também podiam ter problemas na dissipação de calor."

Nos grandes dinossauros terópodes, como o T. rex, as enormes estruturas de arrefecimento na cabeça teriam sido extremamente úteis para manter uma temperatura constante no cérebro – principalmente se aquecessem demasiado.

“Não conseguimos reverter a cozedura de um cérebro, da mesma forma que não conseguimos reverter a cozedura de um ovo”, diz Holtz.

Dar nas vistas
No ano passado, num trabalho relacionado, Jason Bourke, paleontólogo no Instituto de Tecnologia de Nova Iorque, descobriu que um grupo de dinossauros – chamados anquilossauros – pode ter tido aberturas nasais grandes, com uma complexidade de vasos sanguíneos. E enquanto esses animais respiravam, os vasos podiam ajudar a dissipar o excesso de calor no ambiente. Bourke diz que a nova investigação é convincente, sobretudo porque a sua equipa não encontrou evidências de passagens nasais expandidas, com formas semelhantes, em terópodes carnívoros.

"Este novo estudo sugere uma forma alternativa onde os terópodes podiam estar a regular a temperatura do cérebro e dos olhos", diz.

Holliday espera que os resultados levem outros investigadores a testar a hipótese da estrutura de arrefecimento. Também é possível que uma concentração de vasos sanguíneos nessa região do crânio possa ter ajudado a sustentar adornos estruturais nas cabeças de alguns dinossauros.

Em dinossauros extintos, estas estruturas podem ter sido proporcionalmente maiores do que as que existem atualmente em animais vivos, observa Holliday. E em terópodes como o T. rex, as estruturas repletas de vasos podiam cobrir uma área grande no topo da cabeça. Holliday também diz que alguns dinossauros com chifres, como o Triceratops e o Chasmosaurus, apresentam sinais de estruturas semelhantes no topo dos crânios, que ficam muito próximas do pescoço.

É possível que os dinossauros tenham usado estas redes de vasos sanguíneos para fazer alterações nos seus padrões de cor, "podia ser uma coisa simples, como escamas que coravam ou empalideciam consoante o fluxo sanguíneo ", diz Bourke.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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