Portugal: Animais Selvagens São Reservatórios de Bactérias Resistentes a Antibióticos

O Grupo MicroArt- Microbiology and Antibiotic Resistance Team da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro lidera investigação nacional no tema.sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Os antibióticos são usados em medicina humana e veterinária para tratar doenças causadas por bactérias e, em alguns casos, para prevenir infecções bacterianas. No entanto, a resistência aos antibióticos é hoje uma realidade em todo o mundo e constitui um problema sério no tratamento das doenças infecciosas.

Atualmente, uma equipa de investigadores chefiada por Patrícia Poeta, docente do Departamento de Ciências Veterinárias na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real e líder do grupo MicroART- Microbiology and Antibiotic Resistance Team, está a estudar, em vários locais do País, amostras biológicas de várias espécies de animais selvagens para estudo desta temática. Para isto, conta como o apoio de protocolos estabelecidos com diversas entidades como a Junta da Andaluzia (Lince Ibérico), Grupo Lobo, Instituto para a Conservação da Natureza e Biodiversidade, a Associação Portuguesa de Anilhadores de Aves, a Sociedade Portuguesa para o estudo das Aves, o Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto e da Universidade dos Açores, o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente, o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, o Centro de Recuperação de Animais Selvagens da UTAD, entre outros. O grupo da UTAD lidera a investigação, nesta área, em Portugal.

Estudos em animais selvagens como aves de rapina, Lince Ibérico, Lobo ibérico, javalis, raposas, coelhos, e outros de origem terrestre e aquática como os equinodermes, têm dado ênfase a estes animais como possíveis vetores e reservatórios de microrganismos resistentes a antibióticos. Podem, assim, selecionar-se estirpes com mecanismos de resistência, constituindo reservatórios de genes capazes de os adquirir e de os transferir a outras bactérias comensais habitantes do intestino ou mesmo a bactérias patogénicas. A transferência/fluxo destes genes entre diferentes espécies e géneros bacterianos é designada por “transferência horizontal” e é facilitada devido à pressão exercida pelo uso dos antibióticos. A equipa demonstrou que os animais selvagens são portadores de diferentes estirpes bacterianas com perfis de multirresistência semelhantes aos já detetados em reservatórios humanos constituindo um grave problema de saúde pública.

Os dados apresentados nestes estudos são essenciais para melhorar o conhecimento sobre a disseminação de estirpes resistentes nos ecossistemas selvagens e as suas possíveis implicações na transferência dessas resistências a outros animais e humanos bem como, advertir a população humana para os riscos do uso inadequado de antibióticos.

Os próximos passos serão a construção de uma base de dados nacional que permita consultar todos os perfis de resistência a antibióticos em bactérias comensais e patogénicas isoladas de animais selvagens por forma a preconizar um estudo de epidemiovilogância efectivo no combate a bactérias multirresistentes.

 

Patrícia Poeta, Professora Associada com Agregação na Universidade de Trá-os-Montes e Alto Douro, é Diplomada Europeia em Microbiologia Veterinária pelo Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária, Membro do Comité Executivo do European Study Group of Veterinary Microbiology da European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases e Membro do LAVQ-UCIBIO, Faculdade de Ciências e Tecnologia - Universidade Nova de Lisboa. Publicou mais de 500 trabalhos e recebeu 28 prémios.

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