Ciência

Equipa Portuguesa MicroART Investiga Subprodutos Vitivinícolas com Potencial Antimicrobiano

Engaço e grainha úteis no combate a bactérias resistentes a antibióticos. terça-feira, 22 de outubro de 2019

Laboratório do grupo MicroART procura alternativas naturais ao combate a bactérias multirresistentes).
Laboratório do grupo MicroART procura alternativas naturais ao combate a bactérias multirresistentes).

A resistência de bactérias aos antibióticos está a tornar-se uma forte ameaça à saúde pública mundial e, se não forem encontradas rapidamente novas alternativas, poderá, em poucos anos, revelar-se como um dos problemas mais graves que a humanidade terá de enfrentar.

É sabido que, à medida que o ser humano envelhece, o seu sistema imunitário não só se torna mais fraco, como também vulnerável, o que aumenta o risco de contrair infeções. Neste âmbito, sem antibióticos eficazes, a qualidade de vida de que hoje usufruímos e a facilidade com que se tratam infeções comuns pode vir a ser cada vez menor. Ou seja, pode considerar-se este problema como uma das maiores ameaças da história moderna. Infeções, facilmente tratadas, podem, num futuro próximo, levar à hospitalização prolongada ou mesmo à morte, caso não se encontrem alternativas para combater o crescimento das bactérias resistentes aos tradicionais antibióticos.  O avanço da medicina no século XX foi fundamental para as doenças como varíola, tétano e sarampo não representarem uma ameaça à nossa vida. A medicina moderna está dependente de antibióticos para tratar este tipo de infeções, as quais podem afetar qualquer pessoa, independentemente da idade. Contudo, o paradigma pode vir a mudar, colocando em causa um progresso científico de há muitos anos.

Em 2017, a OMS tornou público um relatório, Global Priority List of Antibiotic – Resistance Bacteria to Guide Research, Discovery, and Development of New Antibiotics, no qual alerta para as situações mais emergentes, as bactérias para as quais são urgentemente necessários novos antibióticos, através da intensificação da investigação e do desenvolvimento de novos fármacos. Pseudomonas aeruginosa, Enterobacteriaceae ou Staphylococcus aureus são algumas das bactérias que lideram a lista.

Preocupado com esta ameaça mundial, o Grupo MicroArt - Microbiology and Antibiotic Resistance Team da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, liderado pela professora e investigadora Patrícia Poeta, do Departamento de Ciências Veterinárias, avaliou –  num estudo levado a cabo pela aluna de doutoramento Vanessa Silva – o perfil fenólico, bem como a capacidade antioxidante e antimicrobiana face a bactérias resistentes, das castas de uvas Preto Martinho e Touriga Nacional da Região Demarcada do Douro. Os subprodutos da indústria do vinho são considerados materiais perigosos se não forem descartados adequadamente e têm sido utilizados como ração animal e fertilizante. No entanto, à medida que os estudos sobre subprodutos da indústria aumentaram, verificou-se que estes podem ter o potencial para serem utilizados em muitas outras aplicações devido ao seu conteúdo elevado e compostos bioativos, como é o caso dos compostos fenólicos. Os compostos bioativos presentes nestes subprodutos revelaram ser os responsáveis pela atividade antioxidante e antimicrobiana uma vez que estes são tanto maiores quanto maior a concentração em compostos fenólicos.

Os resultados deste estudo, Chemical composition, antioxidante and antimicrobial activity of phenolic compounds extrated from wine industry by-products, publicado na revista científica Food Control, uma das mais conceituadas do setor agroalimentar, mostraram que os subprodutos da indústria vitivinícola são uma fonte de compostos fenólicos. Os subprodutos investigados foram a grainha, a película e o engaço. Verificou-se que a grainha, das uvas de ambas as castas, apresentou um alto teor em compostos fenólicos, assim como uma elevada capacidade antioxidante e atividade antibacteriana. No entanto a casta Preto Martinho, uma casta relativamente recente e pouco estudada, apresentou melhores resultados do que a famosa Touriga Nacional. Os extratos dos subprodutos foram eficazes contra a maioria das bactérias multirresistentes e face a bactérias de origem alimentar. Assim, compostos fenólicos com origem em subprodutos podem representar um papel fundamental no desenvolvimento de novos antimicrobianos para combater as bactérias resistentes que assolam a humanidade, e, possivelmente, ser utilizados como conservantes naturais de alimentos. No entanto, importa frisar que o potencial antibacteriano destes subprodutos não significa que os compostos fenólicos possam, isoladamente, substituir os antibióticos. Devem, porém, assumir-se como um complemento para, em conjunto, com o antibiótico atuar de modo a que se possam utilizar concentrações mais reduzidas de antibióticos no tratamento do mesmo paciente. Além disso, os subprodutos da indústria possuem um elevado potencial antioxidante, assim como foi demonstrado neste estudo, que é responsável por preservar o sabor e a cor dos alimentos, bem como prevenir a perda de vitaminas e danos oxidativos nos sistemas vivos e exibe várias atividades fisiológicas benéficas, como auxílio na prevenção de doenças cardiovasculares, inflamatórias, cancerígenas, alérgicas e hipertensivas.

De momento o grupo MicroART encontra-se focado em encontrar alternativas aos antibióticos e encontra-se a desenvolver mais estudos em subprodutos da indústria vitivinícola de diferentes castas como também subprodutos de outras indústrias como do azeite e de frutos secos, incluindo a castanha, amêndoa e avelã, entre outros. Pretendem atrair a indústria farmacêutica (com quem têm parcerias já estabelecidas) a investir na área de forma a inserir no mercado produtos inovadores com eficácia comprovada e inócuos para o consumidor final.

 

Patrícia Poeta, Professora Associada com Agregação na Universidade de Trá-os-Montes e Alto Douro, é Diplomada Europeia em Microbiologia Veterinária pelo Colégio Europeu de Microbiologia Veterinária, Membro do Comité Executivo do European Study Group of Veterinary Microbiology da European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases e Membro do LAVQ-UCIBIO, Faculdade de Ciências e Tecnologia - Universidade Nova de Lisboa. Publicou mais de 500 trabalhos e recebeu 28 prémios.

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