Escassez de Água e Comida Afetará Milhões nos Próximos 30 Anos

Um novo modelo mostra as áreas do planeta Terra que provavelmente serão mais afetadas pelas mudanças provocadas pela atividade humana, revelando também as possíveis soluções.quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Durante as próximas décadas, se o declínio da natureza continuar, cerca de 5 mil milhões de pessoas, sobretudo em África e no sul da Ásia, poderão enfrentar escassez de água e comida. De acordo com o primeiro modelo, que examina a forma como a natureza e os humanos poderão sobreviver em uníssono, outras centenas de milhões poderão ficar vulneráveis aos crescentes riscos de tempestades costeiras severas.

"Espero que ninguém fique chocado com o facto de milhares de milhões de pessoas serem afetadas até 2050", diz Rebecca Chaplin-Kramer, ecologista paisagística na Universidade de Stanford. "Sabemos que dependemos da natureza para muitas coisas", diz Rebecca, autora principal do artigo "Modelagem Global das Contribuições da Natureza Para as Pessoaspublicado na Science.

O declínio acentuado da natureza ficou evidente na primeira avaliação global sobre biodiversidade divulgada no início deste ano. A atividade humana resultou na alteração severa de mais de 75% das áreas terrestres do planeta, e 66% dos oceanos, colocando um milhão de espécies em risco de extinção, de acordo com o Relatório Global de Avaliação sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos.

A relação humano-natureza
O bem-estar humano depende das contribuições da natureza, também conhecidas por serviços ecossistémicos. O novo modelo analisou 3 das contribuições, ou serviços, da natureza: fornecer água limpa; proteção costeira; e polinização de culturas. O modelo revela que o futuro declínio destes serviços afetará mais as populações no continente africano e no sul asiático, porque dependem mais diretamente da natureza, diz Rebecca Chaplin-Kramer. As pessoas nos países mais ricos podem suavizar estes impactos através de infraestruturas e importação de alimentos.

Para analisar o abastecimento de água limpa, o modelo mapeou as plantas que crescem perto dos lagos e rios. Dependendo da topografia, do clima, do escoamento superficial e de outros fatores, é possível quantificar o excesso de fertilizante nitrogenado proveniente dos campos agrícolas a montante dos cursos de água. Quando coberto com camadas sobrepostas de mapas de fontes de água potável, o modelo estima a potencial exposição à poluição por nitratos. E outros estudos, que mediram os níveis reais de poluição, foram utilizados para validar este modelo, diz Rebecca.

Da mesma forma, os mapas de recifes de coral, das áreas húmidas, ervas marinhas e pântanos de água salgada – que conseguem abrandar a erosão costeira e atenuar os efeitos das tempestades – foram sobrepostos com mapas populacionais humanos junto à costa.

Os polinizadores selvagens precisam de habitats naturais para sobreviver, por isso, os mapas de onde as culturas alimentares são cultivadas foram sobrepostos nas áreas existentes de habitats naturais.

Depois, o modelo mapeou as necessidades das nossas sociedades, em termos de escoamento total de nitrogénio, o risco costeiro e a produção agrícola dependente da polinização. Todos estes elementos foram comparados para descobrir onde é que a natureza está atualmente a fornecer estes serviços, revelando as lacunas entre as necessidades humanas e o que a natureza está a fornecer.

De acordo com uma análise da Carbon Brief, os investigadores analisaram 3 cenários de futuros diferentes que envolvem o uso de terrenos, o clima e as alterações populacionais até 2050. Estes cenários padronizados incorporam mudanças na sociedade, na demografia e na economia.

O estudo revela uma "imagem profundamente preocupante dos encargos sociais resultantes da perda da natureza", escreve Patricia Balvanera, ecologista na Universidade Nacional Autónoma do México, num artigo de acompanhamento na Science. "O que é realmente assustador é que o modelo observou apenas 3 das 18 contribuições ao bem-estar humano que identificámos ”, diz Patricia em entrevista.

Olhar para todos os cantos da Terra
“O declínio da natureza é evidente – por exemplo, perdemos 85% de todas as áreas húmidas – mas os impactos desta perda não são óbvios.” O novo modelo torna estes tipos de impactos tangíveis, mostrando as pessoas afetadas e onde. E também é suficientemente abrangente para revelar os efeitos da perda da natureza em cada trecho de 300 por 300 metros do planeta. Isto revela onde é que a restauração da natureza, ou a prevenção da sua perda, oferece os maiores benefícios, diz Patricia Balvanera.

“A magnitude destes impactos não vai ser mitigada pela tecnologia ou pelas infraestruturas.” O sul asiático precisaria de construir milhares de estações de tratamento de água para fornecer água limpa em quantidades aceitáveis à população, enquanto que a natureza o pode fazer gratuitamente. Madagáscar não se pode dar ao luxo de construir muralhas para proteger as suas costas, mas poderia restaurar as suas comunidades costeiras de zonas húmidas e ervas marinhas.

O relatório de avaliação global concluiu que são necessárias alterações radicais nos nossos sistemas de governação, na economia, na produção de alimentos, na produção de energia e outros, diz Sir Robert Watson, antigo presidente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES), que geriu a avaliação.

"Este é o tipo de ferramenta que analisa futuros plausíveis, baseados na ciência, e que pode ajudar os governos a evitar os piores resultados", diz Watson.

O modelo está disponível online e qualquer pessoa pode explorar os possíveis impactos das diferentes decisões políticas, incluindo as consequências não intencionais. Por exemplo, se a sociedade enfatizar a bioenergia como uma forma para combater as alterações climáticas, o modelo poderá mostrar os possíveis impactos dessa decisão sobre a biodiversidade e segurança alimentar, diz Watson.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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