Fast Food Aumenta Exposição a ‘Químico Eterno’ Chamado PFAS

Utilizados nas embalagens de fast food, estes químicos de longa duração podem infiltrar-se na comida – e acumular-se nos nossos corpos.quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Entre calorias e aditivos, existem muitas razões pelas quais fast food não é saudável, mas um novo estudo, sobre um produto químico tóxico chamado PFAS, revela que as embalagens que o contêm também podem ser prejudiciais ao nosso organismo.

PFAS, ou substâncias perfluoroalquil e polifluoroalquil, refere-se a uma classe de produtos químicos muito usados em utensílios domésticos para tornar os objetos resistentes à água ou ao fogo. Um novo estudo, publicado na revista Environmental Health Perspectives, analisou os níveis de PFAS em pessoas que fazem uma alimentação à base de fast food e comparou os resultados com os de pessoas que têm uma alimentação caseira.

Usando dados do Instituto Nacional de Saúde e Nutrição do Centro de Controlo de Doenças dos EUA – um conjunto de dados abrangente e mantido de forma regular – os investigadores analisaram compostos de PFAS em amostras de sangue recolhidas de mais de 10.000 pessoas, entre 2003 e 2014.

Em cerca de 70% das amostras recolhidas, descobriram-se 5 tipos comuns de PFAS.

As pessoas envolvidas na amostra também relataram a frequência com que tinham comido fast food nas últimas 24 horas, semana ou mês.

Após um período de 24 horas, quem tinha ingerido fast food mostrou de forma consistente um aumento na quantidade de PFAS no sangue. Ao contrário de outros contaminantes comuns, que passam rapidamente pelo corpo humano, o PFAS pode demorar anos a desaparecer, o que significa que o consumo regular de fast food adiciona cada vez mais PFAS ao nosso sistema, dizem os cientistas.

Controverso e abundante
Não se sabe qual é o limite de tolerância a partir do qual o PFAS começa a afetar a saúde humana. Existem vários estudos que vinculam este produto químico ao cancro, distúrbios da tiroide, alterações hormonais e aumento de peso.

O estado de Washington e a cidade de São Francisco já aprovaram uma legislação para limitar o uso de PFAS em recipientes de alimentos.

Um estudo de 2017, feito em 400 embalagens de fast food, constatou que mais de metade dos invólucros do pão e das sobremesas continham compostos de flúor. E também encontraram este composto em cerca de 40% dos invólucros de sandes e hambúrgueres, e 20% nos cartões, os recipientes mais rígidos usados para guardar as batatas fritas. Este produto químico é geralmente incorporado como uma barreira adicional nas embalagens, porque resiste à água e à gordura, facilitando a portabilidade dos alimentos.

Para quem estuda os efeitos do PFAS no corpo humano, estas propriedades mais rígidas são preocupantes.

"Ainda estamos a determinar os efeitos que podem ter na saúde, em níveis ainda mais inferiores de exposição", diz a autora do estudo, Laurel Schaider, engenheira ambiental e química no Instituto Silent Spring.

"Os alimentos são apenas uma fonte de exposição", diz Laurel, observando que o PFAS é normalmente encontrado em tintas, nos tapetes e na roupa. "Neste momento, eu diria que faz sentido as pessoas tentarem reduzir a exposição, mas ainda não conseguimos vincular uma determinada taxa de ingestão de fast food a efeitos nocivos na saúde."

Laurel diz que a ingestão regular de PFAS pode ter efeitos cumulativos na saúde humana.

O PFAS é infame pela sua incapacidade de decomposição, os seus compostos são frequentemente chamados de “químicos eternos". Enquanto que outros contaminantes, como o bisfenol-A, desaparecem do corpo em várias horas, os vestígios mais fracos de PFAS conseguem permanecer durante meses.

Porque razão não sabemos o que não sabemos?
Demonstrar o impacto mensurável que o consumo de 5 hambúrgueres contaminados com PFAS por semana tem na saúde, ao invés de apenas 1, é difícil devido à omnipresença dos produtos químicos.

Para determinar o impacto que um produto químico pode ter, os cientistas primeiro confiam em estudos feitos em animais de laboratório, como ratos e ratazanas, que são expostos a diferentes graus de uma determinada toxina. Estes estudos feitos em animais mostraram que a exposição ao PFAS resulta consistentemente em danos no fígado, rins e no sistema imunitário. Os tumores também são comuns e algumas vertentes de PFAS revelam indícios de cancro e distúrbios da tiroide.

Os cientistas também tentam encontrar tendências nas doenças ao nível populacional. Mas, para isso, são necessários grupos de estudo com milhares de pessoas – só para controlar o PFAS.

Foram feitos vários estudos populacionais até que se conseguisse provar que a exposição ao chumbo, em estágios iniciais de vida, podiam afetar o desempenho cognitivo em períodos mais tardios, uma descoberta que ajudou a definir regulamentos mais rígidos sobre a forma como o chumbo deve ser usado. Os cientistas ainda não chegaram a um consenso sobre o bisfenol A (ou BPA), um produto químico que a agência FDA (Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos) considera seguro, mas que algumas investigações indicam que pode ser um perturbador endócrino.

Janela de exposição
A quantidade de exposição de um indivíduo ao PFAS pode variar bastante, diz Laurel, dificultando a construção de um perfil histórico sobre quando é que o contaminante foi consumido.

“Existem janelas de suscetibilidade para determinadas doenças, mas nos adultos, é difícil recriar as exposições que tiveram na vida.”

Rolf Halden é o diretor do Centro de Engenharia de Saúde Ambiental na Universidade Estadual do Arizona. Rolf diz que os dados do estudo mostram uma ligação clara entre fast food e o consumo de PFAS, mas o mais preocupante é a abundância generalizada de PFAS nos bens de consumo.

"Estou pouco interessado no aspeto da pipoca e do fast food e mais fascinado por observar que 70% da população dos EUA está a ser exposta a produtos químicos que não se degradam.”

Para além das consequências desconhecidas que o consumo de alimentos contaminados com PFAS pode ter na saúde, Laurel Schaider diz que os consumidores também se devem preocupar com o impacto que o PFAS tem no ambiente após ser descartado. Nos aterros sem revestimentos, o PFAS consegue penetrar nas águas subterrâneas. No início de outubro, um relatório do Grupo de Trabalho Ambiental dos EUA constatou que a água canalizada, que chega a 7.5 milhões de californianos, tinha o contaminante.

Depois de Washington e São Francisco, a Califórnia, Nova Iorque e Rhode Island também propuseram restrições ao PFAS. Em setembro, a Dinamarca foi o primeiro país a proibir a sua utilização nas embalagens de alimentos.

Sobre os resultados do estudo, Halden acrescenta: “É ingénuo pensar que a exposição ao PFAS vem apenas da alimentação. A exposição total é muito maior, muito mais complexa e ainda está a aumentar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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