Ciência

Fóssil Impressionante de Tubarão é o Primeiro do Seu Género

Crânios e um esqueleto quase completo oferecem a melhor visão, até agora, de um tubarão que viveu há cerca de 360 milhões de anos.quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Um fóssil recém-descoberto revela que o antigo tubarão Phoebodus tinha um plano corporal semelhante ao de uma enguia, como o do tubarão-cobra moderno que vemos nesta imagem captada ao largo da costa portuguesa.
Um fóssil recém-descoberto revela que o antigo tubarão Phoebodus tinha um plano corporal semelhante ao de uma enguia, como o do tubarão-cobra moderno que vemos nesta imagem captada ao largo da costa portuguesa.

Os dentes de tubarão estão entre os fósseis mais encontrados em todo o mundo, mas os esqueletos à base de cartilagem dos seus proprietários raramente ficam preservados. Isto faz com que os investigadores não tenham bem a noção da aparência de muitos dos tubarões primitivos, mesmo que tenham existido em abundância.

É por esta razão que os paleontólogos que trabalham nas montanhas Anti-Atlas, no leste de Marrocos, ficaram surpreendidos quando encontraram vários crânios e um esqueleto quase completo de duas espécies de Phoebodus, um género primitivo de tubarão que, até agora, só era conhecido pelos seus dentes de 3 cúspides. Descritos no dia 2 de outubro na Proceedings of Royal Society B, os fósseis revelam que o Phoebodus tinha um corpo parecido com o de uma enguia e um focinho longo, sendo muito semelhante com o tubarão-cobra que ainda hoje percorre o fundo do mar.

Este fóssil do antigo tubarão do género Phoebodus foi encontrado em Marrocos.
Este fóssil do antigo tubarão do género Phoebodus foi encontrado em Marrocos.

E apesar de estes dois animais serem parentes distantes, os dentes do Phoebodus são muito parecidos com os do tubarão-cobra, sugerindo que os seus métodos de alimentação não eram muito diferentes.

"Muitos dos tubarões modernos têm dentes serrilhados que lhes permitem cortar as presas antes de as ingerirem", diz Christian Klug, da Universidade de Zurique e coautor do estudo. Por outro lado, os dentes do Phoebodus, em forma de cone e inclinados para o interior da boca, são bons para capturar e engolir presas inteiras.

Trincar de lado
Os restos fossilizados do Phoebodus foram encontrados numa camada que se estima ter entre 360 e 370 milhões de anos, onde antigamente existia uma bacia marítima pouco profunda. A circulação limitada de água e os baixos níveis de oxigénio criaram um ambiente onde os corpos dos tubarões que aqui morreram não foram muito afetados pelas bactérias, pelos necrófagos e pelas correntes, preservando-os para a posteridade.

Os fósseis foram danificados pelos sedimentos e pelo passar do tempo, mas Christian Klug e a sua equipa conseguiram fazer uma tomografia computorizada de parte do material, para obter uma imagem mais detalhada de como eram estes tubarões primitivos durante o período Devónico tardio.

"A quantidade de dados fornecida por estudos como este é impressionante", diz John Maisey, paleontólogo no Museu Americano de História Natural que não integrou a equipa do estudo. "Estamos a viver um renascimento da anatomia."

Os exames revelaram algumas semelhanças impressionantes com o tubarão-cobra, não só na configuração corporal, mas também nos dentes, oferecendo algumas pistas sobre a forma como estes predadores mais antigos caçavam. (Descubra como é que o grande tubarão-branco pode ter sido responsável pela extinção do Megalodonte.)

"O tubarão-cobra é um predador especializado, tem a capacidade de avançar subitamente sobre as suas presas", diz David Ebert, especialista em tubarões modernos no Pacific Shark Research Center que estuda o tubarão-cobra há décadas. “Os dentes inclinados para dentro ajudam a garantir que a presa só tem um caminho para seguir: entrar na garganta. Talvez o Phoebodus tenha feito algo semelhante.

Porém, como o tubarão-cobra é muito elusivo e raramente é observado, existem muitas questões pendentes sobre a forma como se alimenta. Assim, para compreender melhor como é que o Phoebodus conseguia obter a sua comida, os investigadores também analisaram outras espécies não relacionadas – através de um crânio, mandíbula e dentes surpreendentemente semelhantes de um peixe grande de água doce chamado peixe-jacaré. Tal como o Phoebodus, este peixe tem mandíbulas longas e um crânio achatado, o que limita a força da sua dentada. No entanto, também existem benefícios em ter uma cabeça assim, diz Justin Lemberg,  da Universidade de Chicago, que estudou o comportamento alimentar dos peixes-jacaré.

"Estes animais caçam em águas abertas, onde não se podem dar ao luxo de escolher a direção da próxima refeição. E as cabeças achatadas com mandíbulas longas são ótimas para trincar as presas de lado.”

Física de alimentação
Embora possa parecer estranho comparar as estratégias alimentares de espécies tão diferentes como tubarões e peixes-jacaré, estas análises estão frequentemente entre as melhores formas usadas pelos paleontólogos para reconstruir os comportamentos de animais extintos, diz Justin Lemberg.

Veja Tubarões que Brilham no Escuro
Veja Tubarões que Brilham no Escuro

“Quando uma determinada estrutura ou estratégia é eficaz, existe uma tendência para que esta surja de forma repetida – tanto em seres vivos como no registo fóssil”, diz Justin. "Embora muitas coisas tenham mudado desde que o Phoebodus nadou nos oceanos do Devónico, a física de alimentação na água não sofreu alterações."

Contudo, o Phoebodus ficou extinto no início do Carbonífero, milhões de anos antes de algumas das suas características ressurgirem nos tubarões modernos. Assim sendo, e tal como acontece com o tubarão-cobra, será que algumas espécies pertencentes a este género antigo ainda podem estar escondidas nas profundezas?

“Penso que não”, diz Ebert. “Passei a minha carreira toda à procura de novas espécies, mas nunca vi nada assim.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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