Ciência

O Nosso Calçado é Feito de Plástico. Porquê?

O desporto e a moda moldaram o design do calçado moderno – que está repleto de plástico. Mas podem existir soluções à vista.quarta-feira, 30 de outubro de 2019

OS NOSSOS TÉNIS FAZEM PARTE DO PROBLEMA DO PLÁSTICO
Os americanos compraram, em média, 7 pares de sapatos em 2018, muitos dos quais são feitos de plástico. Mas, como não são recicláveis, a maioria acaba no lixo.
OS NOSSOS TÉNIS FAZEM PARTE DO PROBLEMA DO PLÁSTICO Os americanos compraram, em média, 7 pares de sapatos em 2018, muitos dos quais são feitos de plástico. Mas, como não são recicláveis, a maioria acaba no lixo.

Os ténis que mudaram tudo, de acordo com o designer D’Wayne Edwards, foram os Nike Air Max 1.

Este modelo da Nike era completamente diferente de tudo o que jovem Edwards alguma vez tinha visto. Em 1987, Tinker Hatfield, designer da Nike, que era arquiteto antes de se tornar designer de calçado, modelou os Air Max 1 com base num edifício famoso: o Centro Georges Pompidou, em Paris, que tem as suas tubagens e estrutura na parte externa do edifício, em vez de escondidas no interior.

Hatfield usou estes princípios para o design do supracitado modelo, para destacar uma tecnologia nova e especial: uma estrutura insuflável, cheia de ar, na zona do calcanhar. Na sua busca interminável para construir ténis mais leves e resistentes – para os atletas que estavam a ultrapassar os limites do desempenho humano – esta inovação da Nike era uma forma de suavizar a pressão de uma aterragem mais agressiva nos campos de basquetebol, e também era uma maneira de economizar peso, porque nada é mais leve do que o ar.

“Enquanto peça de design, era completamente inovador”, diz Edwards. “E simbolizava algo de importante na história do design de calçado, mas só foi possível graças ao plástico.”

Em 2018, foram fabricados mais de 24 mil milhões de pares de sapatos no mundo inteiro, com mais de 2 mil milhões de pares vendidos apenas nos EUA. São mais de 7 pares por pessoa a encher os armários norte-americanos, empilhando-se à porta de entrada e, eventualmente, a ir para o lixo.

Muitos dos componentes do calçado moderno são feitos de materiais plásticos –desde as solas à parte superior.
Muitos dos componentes do calçado moderno são feitos de materiais plásticos –desde as solas à parte superior.

Grande parte destes sapatos é parcialmente, ou em muitos casos completamente, feita a partir de materiais plásticos, ou semelhantes a plásticos: solas macias e saltos pontiagudos; a parte superior da malha de poliéster e os orifícios quebradiços dos ilhós. Devido à forma como os sapatos são construídos, com muitos dos seus componentes a serem geralmente costurados, colados ou moldados de formas complexas, são quase impossíveis de reciclar. Portanto, os nossos pés são apenas uma visita curta no seu longo tempo de vida, antes de se amontoarem em aterros e flutuarem pelos cursos de água, onde vivem como mortos-vivos durante centenas de anos.

Porém, os primeiros sinais de uma revolução no calçado estão a começar a surgir e a indústria está a começar interessar-se por formas de construção mais sustentáveis. Mas, para compreender a dimensão deste desafio, precisamos de saber porque é que a maioria dos sapatos é uma mistela de plásticos.

Sapatos para lazer e desporto
Até meados do século XIX, os sapatos eram feitos de materiais encontrados no mundo natural. Madeira para os saltos e couro para a parte superior. As solas eram feitas de borracha, cortiça ou, às vezes, de pedaços de madeira esculpidos. Mas, tal como aconteceu com tudo o resto, as inovações culturais e científicas também estavam a chegar ao calçado.

Em finais do século XIX, o trabalho industrial estava a emergir como um tipo de trabalho dominante na Europa e nos EUA. Uma vez por ano, geralmente no verão, as fábricas faziam paragens para limpezas e manutenção, libertando muitos dos trabalhadores das suas funções, e muitos deles iam para o litoral. Este foi o primeiro vislumbre das "férias" modernas, um novo tipo de lazer que exigia um novo conjunto de acessórios. Em vez de botas de trabalho, os turistas queriam sapatos leves que conseguissem suportar a humidade da praia.

Ao mesmo tempo, a cultura desportiva e de lazer estava a desenvolver-se. Em Inglaterra, os jogadores de críquete queriam solas mais aderentes para as exigências da modalidade. E os tenistas precisavam de calçado que não escorregasse.

A solução? Borracha. Um novo processo químico que conseguia manter a borracha estável a temperaturas mais elevadas – vulcanização – foi inventado em meados do século XIX. Este material de borracha estável rapidamente se transformou em pneus – e em solas para os sapatos dos atletas e turistas da época.

O par de sapatos mais antigo do mundo foi criado há cerca de 9000 anos.
O par de sapatos mais antigo do mundo foi criado há cerca de 9000 anos.

"Durante o século passado, o desenvolvimento mais significativo na tecnologia de calçado foi a borracha vulcanizada", disse Nicholas Smith, autor de Kicks, um livro sobre a história cultural do calçado desportivo.

A borracha vulcanizada original não era o que agora encaramos como plástico. Mas em meados do século XX, os produtos de borracha "naturais" já tinham sido praticamente substituídos por borrachas sintéticas – um parente próximo dos materiais que agora conhecemos como plástico. De acordo com a American Chemical Society, atualmente, cerca de 70% de toda a borracha é sintética.

Com o aumento da borracha, e do tempo de lazer e de vertentes desportivas como o atletismo e o basquetebol, os atletas e designers de calçado começaram a exigir mais amortecimento, mais flexibilidade e suporte. Nas primeiras décadas do século XX, o mercado do calçado desportivo explodiu e os modelos de ténis multiplicaram-se.

Calçado para moda e fantasia
“A moda é algo que muitas vezes impulsiona a inovação. É um produto de desejo e de design", diz Elizabeth Semmelhack, curadora do Museu de Calçado Bata, em Toronto. "As capacidades deste novo material em revigorar o design impulsionou a moda e vice-versa."

Com o aumento das costuras e bainhas no início do século XX, os sapatos – que muitas vezes estavam escondidos debaixo de saias compridas – integraram a linguagem visual da moda feminina. Na década de 1920, o desejo da era do Jazz por beleza e por materiais brilhantes foi suportada pelos plásticos, desde alças cobertas com cristais falsos (geralmente feitos de plástico) aos acabamentos de celuloide ultra-brilhantes nos sapatos para sair à noite.

Simultaneamente, as mulheres começaram a entrar no mercado de trabalho de forma massiva, um movimento que se acentuou durante os tempos de guerra e nos anos que se seguiram.

“Foram momentos culturais muito interessantes, quando as mulheres começaram a ganhar dinheiro, a comprar mais roupas e a tomar consciência das tendências”, diz Marie Brennan, historiadora de design na Universidade de Norwich e criadora de calçado. A variedade e o número de sapatos comprados para fins de moda, em vez de para fins práticos, aumentaram.

Os plásticos facilitaram o preenchimento desse mercado de forma menos dispendiosa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os saltos altos tinham assumido um simbolismo poderoso, diz Elizabeth Semmelhack. Os soldados dos EUA olhavam para os calcanhares das mulheres como um sinal da feminilidade idealizada, pendurando pósteres de mulheres de saltos altos, ou pintando mulheres estilizadas nos seus aviões de combate. Nos EUA, a maioria dos saltos altos eram uma espécie de plataformas ou cunhas feitas à base de produtos naturais. Mas esses estilos não eram populares entre os soldados.

“Quando a guerra terminou, as plataformas e cunhas saíram de cena”, diz Elizabeth. “Mas a moda procurou alinhar as mulheres com os ideais eróticos apresentados durante o esforço de guerra. E os saltos altos regressaram no período pós-guerra.”

Planeta ou Plástico?
O que pode fazer para ser
parte da solução:
1. Comprar menos sapatos!
2. Procure calçado à base de produtos naturais e com o mínimo de componentes.
3. Verifique se as suas marcas preferidas desenvolvem calçado a partir de materiais que possam ser reciclados.

O problema prático dos saltos altos era técnico. O espigão do calcanhar tinha de suportar essencialmente todo o peso do utilizador. O aço funcionava, mas era dispendioso e pesado. A madeira não era forte o suficiente. Mas os novos termoplásticos resistentes podiam ser revestidos com couro – e mais tarde com vinis – para esconder as partes menos atraentes do interior dos saltos.

Os designers impulsionaram a qualidade e os tipos de materiais sintéticos disponíveis. Entre eles estavam o designer Ferragamo, que projetou cunhas baseadas em baquelite e sandálias que usavam tiras largas de nylon para a parte superior; e Roger Vivier, que vendia botas de plástico transparentes para as clientes mais viradas para a moda. As frequentadoras de discotecas da década de 1970 também podiam comprar plataformas altíssimas; e um dos modelos incorporava pequenos aquários nos calcanhares.

As limitações no design desapareceram e os sapatos começaram a refletir a cultura, incluindo a obsessão dos anos 1960 pelos materiais e plásticos transparentes que também marcavam presença na corrida ao espaço, diz Semmelhenk.

E nas décadas de 1960 e 1970, no oeste dos EUA, a ascensão da cultura do skate – impulsionada em parte pelas secas que obrigaram as pessoas a drenar as piscinas que tinham nos quintais – gerou novas formas de construção de calçado para suportar as manobras de um praticante de skate.

Atletas: 'mais desempenho!'
Ao mesmo tempo, a cultura desportiva estava a explodir a nível mundial. Os recordes estavam a ser batidos em todos os novos campeonatos e nos Jogos Olímpicos, e empresas como a Adidas e a Nike lutavam para conseguir que os atletas de topo usassem os seus designs de ponta. Nos campos de basquetebol acontecia o mesmo.

Os atletas queriam calçado que não esticasse e queriam ténis que oferecessem as maiores vantagens possíveis. As solas de borracha não suportavam estes níveis de exigência, e a parte superior feita couro fletia demasiado.

“O couro é como a carne”, diz Edwards. “Molda-se sempre ao corpo.”

Em 1972, a Nike lançou os ténis Cortez – um novo design para velocistas que, segundo a empresa, revolucionaria a experiência. A Nike adicionou uma camada de espuma de Phylon entre a sola e a entressola, um composto de pequenas esferas de espuma de acetato de vinil e etileno que eram aquecidas e depois arrefecidas para formar uma espuma macia. E assim nasceu a sola de espuma elástica e flexível.

Os designers ficaram entusiasmados com o uso de matérias semelhantes a couro para a parte superior. Estes materiais eram geralmente feitos de polivinilo, um tipo de plástico. Os atletas gostaram da flexibilidade semelhante à do couro, mas com menos deformação. Para além de que a possibilidade de produção de uma gama muito mais vasta de cores, texturas e acabamentos – ao contrário do couro natural – também agradou aos designers.

Desde então, as tecnologias de espuma elástica e a parte superior em polivinilo assumiram a liderança. As empresas contrataram inúmeros designers e cientistas de materiais para ajustar a química ou a forma dos seus materiais, para obter cor na parte superior, ou energia extra gerada pelas solas.

“Era o caminho mais óbvio”, diz Edwards. “Conseguíamos obter mais resistência, mais opções estéticas e facilitava a produção.”

As espumas da atualidade conseguem aproveitar mais 70% da energia gerada pelos seus utilizadores relativamente às espumas da década de 1970; muitos velocistas acreditam que isto se traduz num aumento de velocidade notável, embora a ciência ainda esteja a analisar esta realidade. Seja como for, as novas tecnologias mudaram a forma como os pés se movem e afetam os movimentos durante a corrida. Alguns cientistas e atletas também acreditam que as tecnologias existentes nas espumas de retorno de energia foram as grandes responsáveis pelo recorde do queniano Eliud Kipchoge na maratona de 12 de outubro, em Viena, na Áustria.

Sapatos para o futuro
O plástico e as substâncias semelhantes ao plástico reformularam completamente o cenário do calçado, diz Nicoline van Enter, especialista em design de calçado que se concentra em questões de sustentabilidade. Estes compostos tornaram os sapatos mais leves, mais rápidos, mais confortáveis e mais acessíveis para todos. Portanto, a grande questão agora é: será que também os podemos fazer de uma maneira que use menos plástico?

Algumas empresas de calçado estão a olhar para o passado para evitar o plástico. Sevilla Smith, por exemplo, constrói todos os seus pares de sapatos com materiais naturais – tiras de couro, madeira e pregos de metal – projetando cada sapato com o mínimo de materiais, para que possam ser reparados quase indefinidamente.

A tendência atual no design de calçados desportivos, diz Nicoline, é usar cada vez menos materiais: como os Nike Flyknits, com a sua parte superior de malha elástica. Este design elegante, diz Edwards, é parcialmente inspirado na estética, mas também na economia, porque é muito mais barato fabricar um sapato que tem menos peças para colar ou costurar.

Este design também oferece uma oportunidade interessante, diz Nicoline. “Qualquer sapato que use uma mistura de materiais é complicado, se não impossível, de reciclar.” Ou seja, um sapato que use apenas um material oferece alguma esperança de eventualmente poder ser reciclado.

A Adidas está a tentar produzir calçado que se encaixe nestes princípios. O modelo Futurecraft Loop, atualmente em desenvolvimento, é feito de um só material (poliuretano termoplástico) que pode ser parcialmente reciclado. E várias marcas também estão a fazer sapatos a partir de plásticos oceânicos reciclados.

Mas as limitações existentes na reciclagem do plástico são um problema difícil de contornar. É preciso energia para recolher os materiais e dar-lhes uma segunda vida – e, em muitos casos, esta segunda vida também é a última. Resumindo, a reciclagem prolonga o processo de vida, mas não resolve o problema de fundo.

A solução? “Temos de comprar e consumir muito menos”, diz Brennan.

Ou talvez o futuro seja ainda mais estranho... Edwards, no meio de gargalhadas, explica o sonho que tem sobre os sapatos do futuro: um material líquido no qual mergulhamos os pés quando saímos de casa, adaptando-se perfeitamente aos nossos pés. Assim, quando chegamos a casa, mergulhamos os pés noutra coisa que quebra o sapato, reciclando-o e preparando-o para o dia seguinte. Para já, é apenas um sonho, mas precisamos de soluções criativas para não dependermos tanto do hábito do plástico.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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