Ciência

Podemos Ter Cuidados Médicos Sem Plástico?

Os hospitais estão repletos de plásticos esterilizados descartáveis. Os defensores do ambiente estão a tentar encontrar formas mais sustentáveis para manter a higiene nos cuidados de saúde.segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Será possível o cuidado médico existir sem plástico?
Será possível o cuidado médico existir sem plástico?

Ao contrário do que acontece quando recusamos uma palhinha de plástico num restaurante, quando estamos inconscientes numa mesa de operações é difícil abdicar do plástico. Os plásticos descartáveis estão a ser escrutinados como nunca e a indústria médica pode ser a área onde os consumidores individuais não têm uma palavra a dizer.

A Practice Greenhealth, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para tornar os hospitais mais sustentáveis, estima que 25% dos resíduos gerados por um hospital são de plástico. Um estudo feito a uma histerectomia constatou que este procedimento pode produzir até 10 quilos de resíduos, a maioria dos quais são de plástico.

O plástico descartável pode ser uma opção atraente para os hospitais – é barato, resistente e, claro está, facilmente descartável – e cada novo recipiente ou embalagem de plástico oferece um ambiente recém-esterilizado. É por isso que os médicos estão rodeados de plástico e tudo o que usam é de plástico.

Porém, embora o plástico tenha revolucionado a indústria médica durante o século passado, agora está a ser analisado pelo que acontece depois de terminar a sua função. O plástico pode acabar facilmente em ambientes marinhos onde se decompõe em pequenas partículas chamadas microplásticos e que têm consequências ainda não determinadas para a saúde. E os combustíveis fósseis necessários para produzir estes plásticos podem contaminar a água e o ar.

E cada vez mais, os prestadores de cuidados de saúde dizem que o uso ilimitado de plástico entra em conflito com os princípios médicos de praticar o bem, mas a trabalhar em instalações repletas de sangue e patógenos, será que é possível evitar a utilização do plástico?

Plástico limpo e pronto a usar
"Os plásticos para aplicações biomédicas têm muitas propriedades desejáveis, incluindo o baixo custo, a facilidade de processamento e capacidade de serem esterilizados facilmente", diz Bridgette Budhlall, engenheira na Universidade de Massachusetts Lowell.

Bridgette diz que os plásticos podem ser modificados com revestimentos que os tornam particularmente resistentes aos micróbios.

Os Plásticos Explicados Em Minutos
Os Plásticos Explicados Em Minutos

Uma folha de dados publicada pelo American Chemistry Council, um grupo comercial de plásticos, diz: “Os plásticos descartáveis são a forma mais limpa e eficiente de facilitar a saúde e a higiene nos hospitais.”

Mas as pessoas que trabalham na sustentabilidade dos hospitais dizem que o plástico está a ser usado em excesso.

Numa investigação ainda por publicar, feita em 332 hospitais, a Practice Greenhealth analisou itens de plástico descartáveis comuns nas salas de cirurgia que foram substituídos com sucesso por itens reutilizáveis. Ferramentas como bacias cirúrgicas e embalagens de esterilização podiam ser reutilizadas e reduziriam o desperdício em várias toneladas por ano. Dependendo de onde decidem poupar, os hospitais também podem economizar milhares de euros anualmente, diz a Practice Greenhealth.

Pesadelo de reciclagem
Janet Howard, diretora na Practice Greenhealth, diz que “a reciclagem funcionou enquanto a China aceitou estes resíduos plásticos. Mas agora, em termos de esforços de reciclagem nos hospitais, estamos a regressar ao passado.”

Em 2018, a China anunciou que ia deixar de comprar 66% do lixo mundial. Isto deixa os hospitais e as clínicas com pouca margem de manobra, e são obrigados a deitar os seus resíduos misturados de plástico em aterros ou incineradoras. O PVC que acaba nas incineradoras pode libertar produtos químicos tóxicos.

"Existem certamente diferentes tipos de plásticos que podiam ser recuperados, mas que não o são por várias razões", diz Kim Holmes, vice-presidente da área de sustentabilidade na Associação da Indústria de Plásticos.

"Existem itens usados no atendimento aos pacientes que não entram em contacto com as pessoas, não representando riscos biológicos e que podem ser reciclados", acrescenta Kim, referindo-se a itens como embalagens e recipientes de armazenamento.

Nos hospitais onde se tenta separar o plástico para reciclar, Kim Holmes diz que não se produz material suficiente para atrair as atenções das instalações de reciclagem. “Seria melhor se este tipo de desperdício fosse um agregado de vários locais.” A Healthcare Plastics Recycling Council oferece um kit de ferramentas para os hospitais que procuram uma rede de reciclagem.

‘Fator aversão’
Um dos itens de plástico que existe mais nas salas de cirurgia é a "película azul", uma folha de polipropileno que protege as ferramentas esterilizadas, e que é removida e descartada antes das operações.

A natureza descartável destas películas elimina o que Janet Howard chama de “fator aversão”, mas também deixa uma pequena montanha de lixo para trás.

“É como no dia a seguir a uma noite festiva, temos montes de papéis de embrulho espalhados pelo chão”, diz Janet. “Mas esta película azul está nas salas de operações todos os dias.”

Janet também diz que alguns hospitais estão a experimentar substituir esta película azul por recipientes esterilizados reutilizáveis, que podem ser limpos como os instrumentos que contêm.

Outro item abundante nas instalações médicas é a bolsa de esterilização – uma bolsa pequena que dá para selar e que é usada para manter os equipamentos esterilizados livres de germes.

David e James Stoddard, dois irmãos dentistas, tinham o desejo de garantir que as suas ferramentas estavam livres de patógenos e criaram uma bolsa com um tecido muito entrelaçado para conter as ferramentas esterilizadas. A empresa dos irmãos, EnviroPouch, criada em 1993, foi comprada por Barbara Knight em 2001.

Os Centros de Controlo de Doenças esboçam padrões rígidos para a higienização dos instrumentos médicos. As bolsas que contêm estes instrumentos são obrigatoriamente registadas no Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, tal como a EnviroPouch.

Barbara Knight diz que o produto que vende é mais eficaz do que as bolsas de plástico, porque forma uma barreira mais grossa em torno das ferramentas afiadas. “Cada bolsa elimina cerca de 200 bolsas de plástico descartáveis.”

“A malha deste tecido evita que as ferramentas extremamente afiadas o cortem, ao contrário do que acontece com as bolsas de plástico.”

Barbara diz que os dentistas que criaram a bolsa foram inspirados pela história de Kimberly Ann Bergalis, uma mulher que morreu em 1991, uma de seis pacientes infetada com sida no dentista, nos EUA.

Um estudo vincula a exposição precoce ao PVC em unidades de cuidados intensivos a deficiências neuro-cognitivas em períodos mais tardios da vida.
Um estudo vincula a exposição precoce ao PVC em unidades de cuidados intensivos a deficiências neuro-cognitivas em períodos mais tardios da vida.

Segundo Gary Cohen, presidente da Practice Greenhealth e da Health Care Without Harm, outra organização sem fins lucrativos, foi esta preocupação com a disseminação do HIV que impulsionou toda a indústria a usar embalagens descartáveis.

“Foi um dos fatores determinantes para o aumento dos dispositivos descartáveis e das embalagens em excesso no setor da saúde, porque existia um receio profundo com a disseminação”, diz Cohen, sobre a paranoia vivida durante a crise da sida. "Foi uma reação exagerada."

Cohen refere que determinados tipos de plástico, como o cloreto de polivinilo (PVC), podem conter produtos químicos tóxicos. Um estudo de 2016 descobriu que os pacientes mais jovens, quando expostos a um aditivo comum de PVC chamado DEHP – um tipo de ftalato – durante os cuidados intensivos, mostraram sinais de declínio neuro-cognitivo em períodos mais tardios da vida.

No seu website, a Associação da Indústria de Plásticos continua a sustentar que o PVC é um material eficaz porque é resistente aos germes e fácil de higienizar.

FONTES: BAXTER; RED BAGS; THE JOURNAL OF HEALTHCARE CONTRACTING; E HEALTHCARE PLASTICS RECYCLING COUNCIL
FONTES: BAXTER; RED BAGS; THE JOURNAL OF HEALTHCARE CONTRACTING; E HEALTHCARE PLASTICS RECYCLING COUNCIL

Olhar para o futuro
A Health Care Without Harm estima que o setor mundial de saúde contribua com pouco mais de 4% para as emissões no planeta, grande parte deve-se ao aquecimento e arrefecimento das instalações que funcionam 24 horas por dia. É o mesmo nível de emissões produzido por mais de 5 fábricas alimentadas a carvão durante um ano.

Embora muitos hospitais estejam a implementar gabinetes de sustentabilidade, a verdade é que estes nunca serão verdadeiramente "desperdício zero ", diz Janet Howard, "porque existirá sempre alguma componente de risco biológico que precisa de ser mitigada”.

Mas também diz que, se os hospitais e instalações de assistência médica quiserem ser melhores administradores ambientais, precisam de reduzir os seus resíduos de plástico. Ao contrário das emissões de carbono, o lixo plástico é notavelmente percetível, e é algo que tanto pacientes como médicos desejam reduzir.

"Temos de olhar para a globalidade da questão. O que é o bem-estar e como o atingimos?" pergunta Janet retoricamente. "Precisamos de ter uma alimentação saudável e regressar à natureza, e isso nos leva-nos de regresso aos tempos em que os hospitais eram uma espécie de curandeiros... não poluidores.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler