Ciência

Primeiro Passeio Espacial Completamente Feminino Realça Design dos Fatos Espaciais

Este evento histórico serve para nos lembrar que os fatos espaciais do futuro precisam de servir uma variedade mais ampla de corpos.quarta-feira, 30 de outubro de 2019

No dia 18 de outubro, as astronautas da NASA Jessica Meir (à esquerda) e Christina Koch posaram dentro da escotilha Quest, a bordo da Estação Espacial Internacional, enquanto preparavam os fatos espaciais e as ferramentas que iriam utilizar na sua histórica caminhada espacial.
No dia 18 de outubro, as astronautas da NASA Jessica Meir (à esquerda) e Christina Koch posaram dentro da escotilha Quest, a bordo da Estação Espacial Internacional, enquanto preparavam os fatos espaciais e as ferramentas que iriam utilizar na sua histórica caminhada espacial.

As astronautas da NASA Christina Koch e Jessica Meir fizeram história ao darem o primeiro passeio espacial composto só por mulheres, passando mais de 5 horas no exterior da Estação Espacial Internacional, numa missão para substituir um controlador de energia no exterior do laboratório orbital.

Este momento chegou depois de muito alarido; era suposto Chrsitina Koch e Anne McClain terem feito este passeio histórico há 7 meses, no dia 29 de março. Mas, na altura, num passeio espacial feito dias antes, McClain teve a sua primeira experiência com um fato espacial projetado para atividades no exterior da estação – um fato denominado Unidade de Mobilidade Extraveicular, ou UEM.

Apesar de McClain ter treinado na Terra com uma versão de tamanho médio e grande deste UEM, percebeu, depois da sua caminhada espacial, que a versão média do tronco encaixava melhor. Koch também precisava do mesmo tamanho, mas os outros componentes médios disponíveis não podiam ser configurados corretamente a tempo do passeio espacial, por isso, McClain trocou de lugar com o colega astronauta Nick Hague.

Esta troca levantou algum escrutínio, mas a decisão – recomendada pela própria McClain – era lógica para a situação em questão. Nos fatos espaciais, os ajustes são fundamentais, pois evitam os danos corporais e a fadiga excessiva nos astronautas.

“Quando temos a opção de mudar apenas as pessoas, a missão torna-se mais importante do que os marcos históricos", disse em março ao New York Times Stephanie Schierholz, porta-voz da NASA.

Kristine Davis, engenheira de fatos espaciais no Centro Espacial Johnson da NASA, mostra o novo protótipo para os fatos da NASA destinados à missão Artemis na lua.
Kristine Davis, engenheira de fatos espaciais no Centro Espacial Johnson da NASA, mostra o novo protótipo para os fatos da NASA destinados à missão Artemis na lua.

Este debate recente sobre os fatos é mais complexo do que o simples sexismo. Mas estes acontecimentos são um problema real para as mulheres em todos os campos tradicionalmente dominados pelos homens: as ferramentas não foram inicialmente projetadas a pensar nas mulheres. E não há como negar que os voos espaciais têm um passado conturbado na receção de mulheres nas fileiras de astronautas – desde a decisão de excluir as mulheres do corpo de astronautas dos EUA, até aos medos infundados de que a menstruação no espaço podia provocar danos físicos.

Portanto, como são projetados os fatos para as caminhadas espaciais, e será que os novos modelos levam as mulheres em consideração?

Desde fatos personalizados a tamanhos universais
Os fatos espaciais são vitais para o sucesso das missões de longa duração feitas para além da gravidade do nosso planeta, dado que fornecem uma cápsula oxigenada e adequadamente pressurizada para acomodar a fragilidade dos nossos corpos. Sem esses elementos, a rápida descompressão perto do vácuo espacial pode provocar a libertação de gases da corrente sanguínea, e também pode desencadear uma expansão rápida de ar nos pulmões, levando a uma possível rutura.

Todos os fatos espaciais da NASA eram individualmente projetados para os seus utilizadores, que eram inteiramente homens, até que surgiu a primeira fileira de mulheres a juntar-se aos astronautas da NASA em 1978.

O primeiro fato espacial americano, projetado para caminhadas espaciais, foi testado com sucesso em junho de 1965 pelo astronauta Ed White, num passeio histórico feito no exterior da Gemini. A roupa de 21 camadas foi adaptada a partir de fatos de voo mais finos, que eram feitos de uma peça única e usados durante o lançamento e a reentrada. O abastecimento primário de oxigénio do fato estava a bordo da Gemini, ancorando Ed White à nave.

Mas, com todos os olhos postos na lua, esta configuração precisava de evoluir depressa.

"O programa Apollo da NASA mudou completamente o paradigma", diz Cathleen Lewis, curadora de fatos espaciais e dos programas espaciais internacionais no Museu Aeroespacial Smithsonian. "Eles precisavam de projetar um fato que conseguisse operar no vácuo do espaço, mas que permitisse também aos astronautas explorar outros mundos – os astronautas podiam movimentar-se e ter autonomia.”

Os fatos espaciais do programa Apollo eram como mini-naves, diz Cathleen, equipados com um sistema de controlo de pressão, abastecimento de oxigénio, recursos para a recolha de urina, materiais resistentes a perfurações e muito mais. “Mas projetar estas cápsulas individualizadas para cada astronauta era dispendioso, e os fatos só se tornaram mais complexos durante os anos Apollo.” E as coisas que pareciam fáceis de mudar na Terra, representavam obstáculos dispendiosos no espaço – por exemplo, modificar os fatos para os astronautas se conseguirem sentar num veículo espacial lunar.

Eventualmente, a NASA começou a solicitar fatos que pudessem ser reutilizados com base num projeto modular no qual os seus componentes, incluindo os braços, as pernas e o tronco, pudessem ser trocados. Na mesma altura, as primeiras mulheres americanas estavam a ser aceites no programa de treino de astronautas. Foi quando estes ajustes se tornaram particularmente desafiantes – e as diferenças corporais entre homens e mulheres se tornaram num fator importante.

O objetivo era ter componentes que servissem a pessoas de tamanhos variáveis, desde mulheres pequenas a homens altos – mas não homens muito altos”, diz Cathleen Lewis.

“Quando temos esta variedade de tamanhos, não se resume às diferenças básicas entre homem e mulher; trata-se de tentar obter o maior número de fatores humanos.”

por CATHLEEN LEWIS, MUSEU AEROESPACIAL SMITHSONIAN

Os testes revelaram desafios inesperados, mesmo para os homens, observa Cathleen. Por exemplo, durante os testes, a amplitude de movimentos era tão limitada que os astronautas não conseguiam unir os cotovelos à sua frente. Mas ninguém assumiu que isso era um problema até que as mulheres, com troncos mais estreitos, enfrentaram o mesmo desafio. As alterações nos encaixes dos braços aumentaram o raio de alcance dos homens e das mulheres.

“Foram precisos testes e erros para o conseguir. Quando temos esta variedade de tamanhos, não se resume às diferenças básicas entre homem e mulher; trata-se de tentar obter o maior número de fatores humanos.”

Inicialmente, os tamanhos dos vários componentes variavam entre o muito pequeno e o muito grande. Porém, ao longo dos anos, a NASA acabou com os fatos mais pequenos e extra-pequenos e, como as mulheres tendem a ser mais pequenas do que os homens, esta alteração afetou principalmente as astronautas.

Estes fatos modulares foram responsáveis pelo cancelamento do passeio espacial feminino agendado para março, e foram novamente usados no evento de 18 de outubro. “Apesar de os fatos terem sido atualizados ao longo dos anos, a NASA pretendia originalmente que cada fato fosse reutilizado várias vezes, e o contrato inicial exigia uma vida útil de 15 anos para todos os componentes que não fossem luvas”, diz Cathleen.

Fatos espaciais de nova geração
Mas esta situação pode dar um pequeno passo brevemente – pelo menos para os astronautas que saírem da órbita da Terra. No dia 8 de outubro, a NASA lançou o seu fato espacial de nova geração, a Unidade de Mobilidade Extraveicular de Exploração, ou xEMU, que será usado na missão Artemis agendada para a lua.

Embora o design seja muito semelhante ao atual – agora com faixas vermelhas e azuis vibrantes – os fatos estão equipados com uma série de novos recursos. De acordo com um comunicado da NASA, o xEMU oferece mais agilidade aos astronautas, reduzindo os movimentos desajeitados – e que exigiam muita energia – na superfície lunar. Os astronautas devem conseguir levantar os braços acima da cabeça, um movimento impossível com os fatos atuais.

E dado que o objetivo da missão Artemis é colocar um homem e uma mulher na lua, os fatos prometem ajustes mais personalizados do que as iterações anteriores. Todos os astronautas serão submetidos a um mapeamento 3D de corpo inteiro enquanto se mexem e assumem várias posturas. De acordo com o comunicado, isto pode permitir à NASA combinar cada homem ou mulher com os "componentes do fato que fornecerão o maior conforto e a maior amplitude de movimentos".

Apesar de o design ainda depender de combinações, os fatos vão ter mais componentes com tamanhos variáveis. De acordo com a The Verge, os fatos terão uma parte ajustável na zona dos ombros que pode ajudar a personalizar toda a configuração

Mas antes de os fatos da Artemis pisarem a lua, terão de passar por uma bateria de testes na Terra e, possivelmente, na Estação Espacial Internacional. E mesmo assim, estes novos fatos estarão provavelmente longe da perfeição. Independentemente do seu utilizador, os fatos espaciais pressurizados tradicionais são desconfortáveis e difíceis de manobrar. Os astronautas estão constantemente a lutar contra a pressão interna do ar – é como estar dentro de um balão

"No espaço, tudo o que fazemos parece que se vira contra nós", diz Cathleen Lewis. Os astronautas precisam de passar várias horas a fazer experiências ou reparações, e mesmo com um fato bem ajustado, os passeios espaciais provocam geralmente lesões nos tecidos moles e provocam tendinites.

Tal como advertido pela NASA no comunicado de imprensa sobre o fato da Artemis: “Viajar no espaço não é fácil.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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