Ciência

Retiramos Água em Excesso do Solo – Matando Rios

Nova investigação revela que, até 2050, milhares de rios e riachos de todo o mundo vão atravessar por uma fase ecológica crítica.quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O rio San Pedro, no Arizona, viu os seus fluxos diminuírem durante as últimas décadas devido à extração de água subterrânea nas proximidades. Os habitats do rio também sofreram com a queda dos níveis de água.
O rio San Pedro, no Arizona, viu os seus fluxos diminuírem durante as últimas décadas devido à extração de água subterrânea nas proximidades. Os habitats do rio também sofreram com a queda dos níveis de água.

Existe mais água doce escondida debaixo da superfície da Terra, em aquíferos subterrâneos, do que em qualquer outra fonte para além das camadas de gelo. As águas subterrâneas desempenham um papel fundamental nos rios de todo o mundo, desde o rio San Pedro, nos EUA, ao Ganges, na Índia, mantendo-os em funcionamento mesmo quando as secas diminuem o volume das águas.

Mas, nas últimas décadas, os humanos retiraram biliões de litros destes reservatórios subterrâneos. O resultado, diz a investigação publicada no dia 2 de outubro na Nature, é uma "dessecação lenta" de milhares de ecossistemas fluviais do planeta. Atualmente, entre 15% a 21% das bacias hidrográficas mundiais onde se faz extração de águas subterrâneas já ultrapassaram o seu limiar ecológico, dizem os autores do estudo – e até 2050, este número pode subir rapidamente para algo a rondar os 40% e os 79%.

Isto significa que centenas de rios e riachos de todo o mundo podem ficar tão dependentes da água subterrânea que a sua fauna e flora podem atingir um ponto de perigo, diz Inge de Graaf, autora principal do estudo e hidrologista na Universidade de Freiburg.

"Podemos encarar este efeito ecológico como uma bomba-relógio", diz Inge. "Se bombearmos as águas subterrâneas agora, só veremos os impactos daqui a 10 anos ou mais. Portanto, o que fizermos agora afetará o nosso ambiente nos próximos anos.”

Águas subterrâneas sustentam a vida moderna
O último rio sem barragens no sudoeste dos EUA, o San Pedro, no Arizona, costumava estar agitado e transbordava. Os pássaros cantavam nas suas margens quando paravam durante as migrações. E peixes raros nadavam nas suas águas.

Mas na década de 1940, começaram a surgir poços de água nas proximidades, sugando água limpa e fresca dos aquíferos subterrâneos da região.

Verificou-se que boa parte da água que corria pelo rio não vinha da chuva, nem do derretimento de neve, mas sim de fontes subterrâneas. Quanto mais água saía dos aquíferos, menos fluía para o rio – e as zonas húmidas, a fauna e as águas agitadas de San Pedro foram afetadas.

As águas subterrâneas são um dos pilares escondidos que sustentam grande parte da vida moderna. Globalmente, cerca de 40% dos alimentos que cultivamos são regados com o líquido extraído das entranhas da Terra.

Mas muitos dos aquíferos de onde esta água é extraída demoraram centenas ou até dezenas de milhares de anos a ficarem cheios: a água pode ter penetrado através de fendas na terra, quando camadas de gelo gigantes ainda cobriam a região onde agora fica a cidade de Nova Iorque, há 20 mil anos.

Grande parte desta água está a ser removida muito mais depressa do que é possível reabastecer. Isto acarreta consequências graves em potencial para as pessoas que querem beber água e fazer plantações em áreas com pouca chuva. Mas muito antes de assistirmos a estes impactos, vamos assistir aos seus efeitos – como já acontece – nos rios, riachos e habitats circundantes.

"Pense num aquífero como uma banheira cheia de água e areia", explica Eloise Kendy, cientista de água doce na Nature Conservancy. Depois, imagine passar um dedo ao de leve pelo topo da areia, criando um pequeno trilho. Este pequeno trilho enche-se de água que penetra na areia até ao "fluxo".

"Se bombearmos um pouco de água para fora da banheira, este riacho vai secar, mesmo que a banheira ainda tenha muita água", diz Eloise. "No que à saúde dos rios diz respeito, acabamos por a destruir. Mas, como os rios não falam nem gritam, não sabemos necessariamente se estão com problemas.”

Água é vida, até desaparecer
Na nova investigação a equipa examinou globalmente os locais onde as águas subterrâneas já estão a ser extraídas com uma taxa que faz com que os níveis de água diminuam, tanto em rios como em riachos, cruzando um limiar ambiental crítico: quando os níveis de água caem para menos de 90% do fluxo médio das estações secas – o momento em que as águas subterrâneas são mais importantes para o fluxo dos rios. Ultrapassar este limiar durante mais de 3 meses por ano, durante pelo menos 2 anos seguidos, põe em risco a fauna e a flora dos sistemas de água doce, diz Brian Richter, especialista em água e cientista na Sustainable Waters.

"Pode haver apenas um esgotamento muito pequeno de água nestes momentos mais sensíveis, mas ecologicamente é muito significativo", diz Brian.

As espécies de água doce, como as que dependem de rios e riachos saudáveis, são algumas das mais ameaçadas do mundo.

Na nova análise, Inge De Graaf e a sua equipa descobriram que entre 15% a 21% das bacias hidrográficas – onde se extraem águas subterrâneas – já ultrapassaram este limite (quase metade de todas as bacias hidrográficas do mundo são alvo de extração de águas subterrâneas). À medida que as alterações climáticas aumentam os efeitos das secas em muitas partes do mundo, as tensões exercidas sobre as águas subterrâneas – e consequentemente nos rios e riachos – vão provavelmente piorar bastante, dizem os investigadores.

Mas as previsões da equipa até podem ser conservadoras, visto que usaram como linha de base a demanda mundial de água em 2010, e impulsionaram o seu modelo climático para ver como as tensões nos sistemas de águas subterrâneas se podiam desenvolver. Contudo, à medida que as populações aumentam e a demanda por alimentos também cresce, estas tensões podem aumentar por outras razões, para além das alterações climáticas, acelerando a extração de fontes de água subterrâneas.

Mas os efeitos do bombeamento de águas subterrâneas levam anos, senão décadas, a ficarem visíveis. As alterações na chuva têm efeitos óbvios e imediatos no fluxo dos rios, explica Gretchen Miller, hidrologista e engenheira da Universidade Texas A&M: Quando chove, os rios geralmente fervilham de atividade. Mas a água subterrânea está oculta: as mudanças demoram muito mais a vir à tona e nem sempre se manifestam no local onde ocorre a extração. Isto torna os problemas de gestão de aquíferos ainda mais complicados, e apenas uma pequena fração das bacias hidrográficas possui planos para lidar com os problemas que se avizinham.

Enquanto isso, os rios e riachos são como os "canários nas minas de carvão", diz Richter. "São o sinal de que estamos a usar água de forma insustentável. Precisamos de olhar seriamente para o que estamos a fazer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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