Degelo do Ártico Dissemina Vírus Mortal Entre Mamíferos Marinhos

Com as alterações climáticas a piorar, os cientistas temem que o vírus – que só tinha sido encontrado em águas europeias – se espalhe pela Costa Oeste dos EUA.sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Quando as lontras-marinhas do Alasca foram diagnosticadas com o paramixovírus PDV em 2004, os cientistas ficaram confusos. O patógeno do género Morbilivírus, que contém vírus como o sarampo, só foi encontrado na Europa e na Costa Este da América do Norte.

"Não conseguíamos perceber como é que um vírus do Atlântico tinha acabado nestas lontras-marinhas. Não é uma espécie com um grande alcance”, diz Tracey Goldstein, cientista na Universidade da Califórnia que investiga a forma como os patógenos se movem pelos ecossistemas marinhos.

Com 15 anos de dados recolhidos entre 2001 e 2016, Tracey e a sua equipa de investigação conseguiram observar que o aumento de casos de PDV correspondiam ao declínio do gelo marinho no Ártico. Esta abertura no raio de alcance das lontras foi o que provavelmente permitiu aos animais infetados moverem-se para oeste, para territórios novos onde o vírus ainda não tinha aparecido. Os resultados do estudo, publicados no dia 7 de novembro na Scientific Reports, mostram como as alterações climáticas podem estar a abrir novos horizontes para a disseminação de doenças.

Da Europa à América do Norte

O vírus PDV foi detetado pela primeira vez em 1988, no norte da Europa, onde cerca de 18.000 focas morreram, a maioria eram focas-comuns. Em 2002, aconteceu outro surto semelhante e não se conhece a origem do PDV. Algumas investigações sugerem que originou no Ártico, mas as suas variantes mais comuns afetam vários animais. Os veterinários, por exemplo, vacinam regularmente os cães domésticos contra a variante canina.

Nas focas, tal como nos cães, os sintomas do vírus incluem febre, dificuldades respiratórias, secreções nasais e oculares e, nos mamíferos marinhos, natação irregular.

O vírus dissemina-se através do contacto direto, ou se um animal entrar em contacto com excrementos infetados.

"Ficou demonstrado que o vírus se propaga facilmente entre os mamíferos marinhos", diz Shawn Johnson, vice-presidente de medicina veterinária no Centro de Mamíferos Marinhos, em Sausalito, na Califórnia.

O primeiro grande surto de PDV aconteceu ao longo da Costa Este dos Estados Unidos em 2006. No ano passado, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA registou um número anormalmente alto de focas mortas, desde o Maine até à Virgínia. Os resultados dos testes mostraram que o PDV era o principal responsável.

Para descobrir quando e onde é que o PDV se espalhou, desde o norte da Europa até ao norte do Pacífico, perto da costa do Alasca, Goldstein e a sua equipa investigaram estudos e registos de amostras biológicas recolhidas de 2530 espécies vivas, e 165 de focas mortas, que passam parte das suas vidas no gelo do Ártico. A equipa analisou os dados do alcance do gelo marinho em determinadas alturas do ano, a chamada extensão de gelo Ártico. Nos anos em que a extensão de gelo marinho era baixa, os anos seguintes mostraram um aumento de PDV.

O último ano com dados recolhidos pelo estudo foi 2016. Mas nos últimos 3 anos, o gelo marinho do Ártico continuou a desaparecer.

Novos caminhos para a infeção

O gelo marinho abre novas rotas de migração para os mamíferos marinhos, permitindo que cruzem mais facilmente do Atlântico para o Pacífico através do Círculo Polar Ártico. Goldstein diz que o stress adicional provocado pela necessidade de procurar alimento pode enfraquecer o sistema imunitário dos animais, tornando-os alvos mais fáceis para as doenças.

“Podem estar a percorrer distâncias maiores para encontrar comida. Isto tem um efeito geral sobre a saúde e ficam mais suscetíveis a doenças”, diz Tracey.

E dado que existem inúmeras espécies marinhas a migrar anualmente para o Ártico, este local pode estar a servir como um foco de infeção.

“O Ártico pode ser a região perfeita para a transmissão desta doença”, diz Shawn Johnson.

A doença ainda não foi detetada na Califórnia, mas Johnson diz que os cientistas vão ficar vigilantes. Existe potencial para o vírus se espalhar para sul. Muitas das espécies marinhas da Califórnia migram para norte e interagem com outros animais nessas regiões, onde a doença foi documentada.

É possível vacinar alguns mamíferos marinhos contra o PDV, mas os cientistas dizem que, para o fazer com uma escala de abrangência suficientemente grande, ao ponto de impedir que a doença se espalhe, é difícil. No Havai, as focas-monge são regularmente vacinadas contra o PDV. Esta espécie só tem cerca de 1400 indivíduos e, embora a doença ainda não tenha migrado para sul, o seu impacto potencial deixa os conservacionistas preocupados.

Tracey diz que ainda existem muitas incertezas sobre a doença e sobre a forma como esta vai evoluir com o degelo acentuado do Ártico.

Para além do PDV, Shawn Johnson está a monitorizar outras doenças – que também estão em ascensão devido às alterações climáticas. A leptospirose, uma bactéria que pode passar dos animais para os humanos, está a aumentar, assim como a proliferação de algas, infetando peixes com uma toxina que provoca danos cerebrais nos mamíferos marinhos.

“Temos de estar mais vigilantes e sempre atentos”, diz Johnson. “As doenças transmissíveis podem estar a sofrer alterações enormes.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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