Fumos Tóxicos dos Incêndios Representam Novas Ameaças

À medida que os incêndios florestais na Califórnia e em outros lugares se tornam comuns, os cientistas correm contra o tempo para avaliar o perigo representado pela libertação de produtos químicos na atmosfera.segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Quando um fogo deflagra em determinadas áreas da Califórnia, Ken Bein, cientista atmosférico na Universidade da Califórnia, consegue chegar ao local em menos de uma hora.

“Neste momento, tenho sempre os meus instrumentos preparados, basta entrar na carrinha e partir”, diz Ken.

Ken Bein está em estado de alerta devido aos incêndios que lavram em regiões que fazem a ligação entre áreas florestais e urbanas. Assim que Ken tem conhecimento de um fogo, leva a sua carrinha – que tem um atrelado de 8 metros e 2 veículos inteligentes – para analisar a poluição presente no ar. Em cima do atrelado, tem todo o equipamento necessário para recolher amostras das plumas de fumo libertadas pelas chamas. O equipamento é completamente automatizado e é alimentado pelas baterias do veículo elétrico.

“Uma das primeiras coisas a ser afetada pelo fogo é o abastecimento de energia elétrica”, diz o cientista, pelo que a energia das baterias é uma alternativa essencial.

As amostras recolhidas por Ken ajudam os cientistas a compreender como é que o aumento substancial dos incêndios sazonais, que queimam áreas residenciais, pode afetar a nossa saúde. Antigamente, o fumo dos incêndios florestais continha apenas restos de biomassa (de árvores e outras matérias orgânicas). Mas agora os incêndios também destroem casas – estruturas que contêm milhares de produtos químicos sintéticos, tintas, plásticos e metais que entram em combustão e libertam partículas minúsculas.

"Estamos a observar diferenças enormes de um incêndio para o outro", diz Ken. "Temos uma espécie de acordo tácito para não divulgar estas descobertas ao público – antes de serem revistas por pares – mas estamos a ver coisas em laboratório que são preocupantes.”

Preocupação emergente de saúde pública

Tal como aconteceu nos últimos dois anos, a Califórnia está em chamas. Desde 1972, a área queimada pelos incêndios florestais de verão aumentou 8 vezes. As florestas ocidentais da América tornaram-se mais áridas e as épocas de incêndio são cada vez mais longas.

Durante uma semana, no Incêndio Kincade, no norte da Califórnia, arderam mais de 300 km quadrados. Mais a sul, no Incêndio Getty, arderam mais de 293 hectares. Centenas de milhares de pessoas ficaram sem energia e grande parte dos serviços públicos paralisaram. No dia 31 de outubro, o Incêndio Kincade estava contido em 65%, mas as condições podiam piorar. Dois dias antes, o Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA tinha divulgado o seu primeiro "alerta extremo de bandeira vermelha", uma designação que indica ventos fortes e humidade baixa, o que significa que as condições eram propícias para a propagação de incêndios.

Estes incêndios deixaram marcas indeléveis, destruíram casas e alguns dos bairros ficaram irreconhecíveis, mas os cientistas ainda estão a investigar como é que a poluição do ar – alterada por estes incêndios gigantescos – pode afetar de forma duradoura a saúde das pessoas.

Quando os incêndios estão ativos, produzem uma mistura de fumo e cinzas que contêm pequenas partículas. Este tipo de poluição, conhecida por poluição de partículas, engloba um pouco de tudo, desde ácidos, químicos orgânicos, metais, poeira e alergénios que se movem pelo ar durante um incêndio. Dependendo da intensidade de cada fogo, podem deixar o ar nebuloso, e nem sempre são detetáveis.

São estas partículas que preocupam as autoridades de saúde. E quanto mais pequenas são as partículas, mais facilmente danificam funções vitais. As partículas  inferiores a 2.5 micrómetros, cerca de 5% da largura de um cabelo humano, podem penetrar no sistema respiratório e na corrente sanguínea, onde representam perigos

Efeitos imediatos do fumo

Quando os incêndios deflagraram, a qualidade do ar piorou em vários condados da Califórnia, conforme registado pelo Índice de Qualidade do Ar (AQI) da Agência de Proteção Ambiental dos EUA. Para as pessoas que não têm problemas de saúde, a exposição à poluição do ar derivada dos incêndios florestais assemelha-se muito a um ataque de alergia. Os sintomas mais comuns são espirros, dor de garganta, comichão nos olhos e tonturas.

Mas é provável que o fumo dos incêndios tenha efeitos imediatos nas pessoas que têm problemas respiratórios. As crianças, os idosos, as pessoas que têm o sistema imunitário mais suscetível e as mulheres grávidas também têm mais propensão para enfrentar complicações de saúde. De acordo com os órgãos de comunicação social da Califórnia, quando os incêndios começaram, as visitas às urgências dos hospitais também aumentaram.

Durante os incêndios históricos que varreram a Califórnia no ano passado, o fumo chegou à costa leste dos EUA. A neblina de fumo era visível em lugares longínquos como Nova Iorque.

De acordo com John Pendergrast, meteorologista no Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA, é provável que o fumo dos fogos deste ano se restrinja à Califórnia.

"Podem existir pequenas quantidades de fumo que se afastem dessa área", diz John, “mas não serão percetíveis".

Os cientistas dizem que, na Califórnia, um estado que normalmente luta contra a má qualidade do ar, os incêndios florestais podem exacerbar os problemas de saúde pública. Nos EUA, a poluição por partículas tem diminuído desde o final dos anos 1980, exceto em áreas onde os incêndios florestais estão a aumentar. As alterações climáticas tornaram a Califórnia mais quente e seca, condições que dificultam o controlo destes incêndios.

Consequências desconhecidas a longo prazo

A poluição do ar é uma ameaça bem conhecida para a saúde humana. Em 2016, no mundo inteiro, contribuiu para um número estimado de 4 milhões de mortes. As culpas recaem geralmente sobre as doenças respiratórias ou cardiovasculares, mas os impactos na saúde a longo prazo devem-se maioritariamente às emissões provenientes de atividades como a queima de combustíveis fósseis.

"A possibilidade de existirem consequências a longo prazo não foi estudada de uma forma sistemática nestes incêndios florestais de grandes dimensões, são uma coisa recente", diz Irva Hertz-Picciotto, cientista ambiental na Universidade da Califórnia.

“Em 2017, quando os incêndios florestais deflagraram na Califórnia, eu estava a tentar perceber o que podíamos fazer", diz Irva. Mas rapidamente percebeu que as ameaças crescentes destes incêndios podiam ter efeitos a longo prazo – e também percebeu que a situação estava a ser pouco documentada pelos cientistas.

Algumas sondagens feitas às pessoas expostas aos incêndios florestais revelaram que, após um período de 4 a 10 meses, algumas pessoas ainda enfrentavam problemas respiratórios.

Irva e a sua equipa esperam publicar um artigo mais detalhado sobre as suas descobertas no início de 2020.

E tal como Ken Bein, também Irva diz: "Acreditamos que, devido aos produtos sintéticos usados nas nossas habitações, podem existir diversos produtos altamente voláteis que são transformados pela combustão".

No início deste ano, Mary Prunicki, investigadora na Universidade de Stanford, publicou um artigo que analisa a forma como o fumo dos incêndios florestais pode afetar o sistema imunitário das crianças – que sofrem danos a longo prazo mais significativos, resultantes da exposição precoce ao fumo nocivo.

"Fizemos análises ao sangue de 30 crianças que estiveram expostas ao fumo de  incêndios florestais", diz Mary.

As amostras de sangue indicaram que as crianças tinham problemas no sistema imunitário.

Mary diz que o seu estudo é apenas um indício sobre os efeitos a longo prazo da exposição ao fumo e refere que esta questão precisa de ser analisada mais detalhadamente.

Podem ser necessários vários anos até que os cientistas consigam compreender na sua totalidade os efeitos da crescente ameaça dos incêndios florestais, mas os investigadores dizem que estão ansiosos para atingir resultados que possam ajudar  os médicos a tratar as vitimas dos incêndios.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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